O lugar em que o tempo não existe

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O passado não existe. O que foi ontem vive dentro hoje do mesmo jeito. Dor, suspiro, sorriso, desejo… Futuro ali também não existe. Amanhã pode ser agora. A velhice na beira da praia com a velhinha ao lado, em eterna lua de mel, não é daqui a 28 anos, pode ser agora. E do mesmo jeito do passado, todas as sensações e sentimentos do amanhã podem estar fortes no agora.
O presente é um coitado. Sem graça, meio bobão, um abestalhado, sempre atrasado. Com sina de cobrador ou de fiscal, são poucos os que o querem por perto. Geralmente o presente vive de empréstimos, os quais têm dificuldade de pagar. Empresta do passado, aluga do futuro e rola dívidas.
Que presente!
Lugar em que tempo não existe é na nossa mente. Enquanto escrevo devaneio, volto ao passado, o pensamento dá uma guinada e rapidamente estou a léguas no futuro. Milésimos de segundos. Com o pensamento e toda sorte de emoções. Pensamentos não existem sem a afetividade. Estão sempre juntos, formando nossa essência regida pela atemporalidade. A teoria da relatividade, de Einstein, explica este fenômeno, quebrando paradigmas cartesianos.
A temporalidade vivida pela psique é relativa e subjetiva em essência. Relativa por sua forma dinâmica de manifestação, por sua subjetividade, por não estar presa a sistemas cartesianos e lineares em sua funcionalidade. Assim não há lógica intrínseca nesse mecanismo: passado, presente e futuro podem ocorrer simultaneamente. Onipresença e onipotência são regras vigentes em nossa mente. Tudo ocorre ao mesmo tempo. “Não sabeis que sois deuses?”
Todavia, nossa ciência, tão antiquada, quer impor modelos mensuráveis, cartesianos, concretos ao que não pode ser enquadrado sem a perda genuína de seu objeto de estudo. Esquematizar a temporalidade em modelos lineares é a afronta maior do orgulho científico. Uma tentativa didática que se perde na prática. O tempo mental não reconhece tais esquemas, nada estudou sobre eles. E hoje falamos de neurotransmissores, de psicogenética, de problemas psicopatológicos e ao mesmo tempo descartamos toda subjetividade, deixamos longe da vida as crises da psique perdida no materialismo. Os problemas humanos são derivados da carne, e por esta devem ser tratados.
Aqui anunciamos uma das principais crises modernas da espiritualidade e da psique contemporâneas. Há crise na tentativa de tornar concreto o que é naturalmente subjetivo. Fazemos isto com tudo, tentando dar sentido às coisas em um processo autocêntrico, em uma busca hedônica de satisfação. Nosso tempo é concreto, nossa bíblia é concreta, nossa fé é materialista, nossos relacionamentos são cheios de regras absurdas e concretas.
Tudo deve ser mensurado, pesado; caso contrário, não existe.
Mas nossa mente não reconhece esta concretude e os pensamentos continuam agindo do mesmo jeito, queira a ciência ou não. A ruptura moderna com a temporalidade faz parte do cenário comum nos consultórios, nas crises de ansiedade pela vivência do tempo acelerado e pelo excesso de futuro, no sentimento que o tempo não passa em um caso típico de depressão e as vivências de auto martírio presas ao passado que não passa. Dependentes químicos tentando resgatar a subjetividade de suas almas fugindo do materialismo. O ser humano concreto da atualidade tenta fugir da subjetividade, só que isso tem um preço alto: a ruptura com sua própria alma.
Por não se reconhecer uma dinâmica natural de funcionamento, acabamos mistificando ou aceitando kits mágicos de “controle mental” ou qualquer pílula que substitua os desvios existentes na vida humana, qualquer coisa que nos possa deixar distantes ou parados como zumbis, longe da vida. Qualquer coisa que sirva como anestésico para a dor de existir.
É importante tentar fugir a esse apelo da concretude e respeitar a subjetividade, nosso inconsciente, nossos instintos. Caso contrário, será impossível evoluir.

Jorge Antônio Monteiro de Lima, analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e mestre em Antropologia Social pela UFG.

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