Delação da JBS abala Temer

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Momento em que a manisfestante é atropelado no centro de Goiânia (Marcello Dantas)

Em Goiânia, manifestantes foram à rua pedir “Fora, Temer”. Outros protestos devem ocorrer em todo o país nos próximos dias

Yago Sales e Manoel Messias Rodrigues

Ao mesmo tempo em que Ailma Maria de Oliveira, presidente da Central dos Trabalhadores do Brasil em Goiás, ecoava “Fora, Temer!” e “Renuncia golpista!”, o presidente Temer, em pronunciamento no Palácio do Planalto transmitido para todo o país, foi taxativo: “Não renunciarei. Repito, não renunciarei!”.
Não durou uma hora o ato, interrompido, pelo menos na Praça do Bandeirante, no Centro de Goiânia na quinta-feira (18/05) depois de uma manifestante, Andreza Carneiro, 22, que impedia uma motorista de furar o bloqueio, ser atropelada junto com um homem, em uma imagem assustadora. Revoltada, uma multidão destruiu o carro, com a condutora, Alessandra Rodrigues de Freitas e um passageiro dentro, protegido inicialmente por guarda das plataformas do Eixo e, depois, por policiais militares.
O ato começou às 16h, mesmo horário em que Temer explicaria as denúncias que o colocaram no olho do furacão da Lava-Jato e, segundo especulações, renunciaria, quando iria explicar o motivo de não ter denunciado os empresários Joesley e Wesley Batista, da JBS, em uma clara exposição de corrupção dentro do Palácio Jaburu, residência oficial do presidente.
Michel Temer teve seu nome envolvido no imbróglio da Lava Jato depois de “O Globo” divulgar trechos de uma relação comprometedora entre o presidente e donos da JBS, megagrupo empresarial do ramo de carnes. O Supremo Tribunal Federal (STF) já homologou as delações. Temer agora é investigado depois de autorização do ministro Edson Fachin sob suspeita de dar aval para comprar o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que está preso.
No pedido de abertura de inquérito contra o presidente, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, acusa Temer de ter cometido ao menos três crimes: corrupção passiva, obstrução de Justiça e organização criminosa. O ministro Fachin, relator da Operação Lava-Jato no STF, considerou os indícios levantados pelo procurador-geral consistentes e autorizou a abertura de investigação contra Temer.
“Os elementos de prova revelam também que alguns políticos continuam a utilizar a estrutura partidária e o cargo para cometerem crimes em prejuízo do Estado e da sociedade. Com o estabelecimento de tarefas definidas, o núcleo político promove interações diversas com agentes econômicos, com o objetivo de obter vantagens ilícitas, por meio da prática de crimes, sobretudo com corrupção. Há, pois, também o indicativo da prática do delito organização criminosa previsto na lei 12.850/2013”, afirma Janot.
A delação caiu como bomba em Brasília e inúmeras especulações de colunistas políticos sobre uma iminente renúncia de Temer. As redes sociais replicaram instantaneamente as informações sobre a gravação do áudio entre o presidente e Joesley Batista.
O governo vinha apresentando resultados otimistas na economia, mas teve de assistir, pasmado, a queda de seus indicadores. Queda estratosférica que não se via há décadas no país. Além disso, a agenda de Temer perdeu forças. As reformas trabalhista e previdenciária estão comprometidas depois de pelo menos oito pedidos de impedimento ao presidente serem protocolados na Câmara dos Deputados.

Protesto e atropelamento
Além de pedirem a saída de Temer, bandeiras se espalharam em protestos pedindo eleições diretas. O deputado federal Rubens Otoni (PT-GO) reafirmou a necessidade de lutar contra a corrupção e a saída imediata do presidente. “Viemos às ruas contra a ilegitimidade deste governo que agora se revelou corrupto”, disse à Tribuna do Planalto, desfazendo um abraço com a deputada estadual Adriana Accorsi.
Adriana disse que é importante o movimento para que “outras pessoas saibam o que o governo  tem feito contra o país”. Segundo ela, é “muito importante que o povo desperte e lute para derrubar o governo [Temer]”.
Enquanto a manifestação andava, uma mulher dava solavancos em um carro branco. De repente, Alessandra Rodrigues Freitas avançou e acelerou. A jovem Andreza Carneiro ficou debaixo do carro. A condutora deu ré e a jovem, que é do Movimento dos Trabalhos Sem Teto (MTST), foi resgatada e levada ao Hospital de Urgências de Goiânia.
Por fim, depois de a motorista ser levada à Central de Flagrantes, sobraram alguns líderes, cabisbaixos. Entre eles, Ailma Maria de Oliveira, trêmula com o incidente. A mulher pequena, de voz forte, ainda disse: “Ele [Temer] vai cair, a luta não vai acabar”.

Grupo JBS financiou 1.829 candidatos de 28 partidos em 2014

Na campanha eleitoral de 2014, a J&F (holding controladora do grupo JBS) destinou mais de R$ 500 milhões para ajudar a eleger governadores, deputados estaduais, federais e senadores de todo o país, segundo os delatores0. Em um dos depoimentos que prestou ao Ministério Público Federal (MPF), com quem firmou acordo de delação premiada já homologada pelo STF e divulgada na sexta-feira, o diretor de Relações Institucionais e Governo da J&F, Ricardo Saud, entregou um levantamento em que aponta os candidatos financiados pela JBS.
De acordo com Saud, o total em dinheiro repassado por meio de “pagamentos dissimulados” alimentou as campanhas de 1.829 candidatos. Destes, 179 se elegeram deputados estaduais em 23 estados e 167, deputados federais por 19 partidos.
O delator não deixa claro quais pagamentos foram feitos via caixa 2 e quais foram doações oficiais. No depoimento, divulgado após a retirada do sigilo da delação, ele dá a entender que os valores citados se referem apenas às campanhas de 2014. Em outro depoimento, o dono da JBS, Joesley Batista, também afirmou que a maioria das doações feitas pela empresa tratava-se de propina disfarçada por contrapartidas recebidas.
“Doamos propina a 28 partidos”, contou Saud, admitindo que os mais de R$ 500 milhões destinados a agentes públicos para as eleições de 2014 formavam um “reservatório de boa vontade”. “Era para que eles não atrapalhassem a gente”, afirmou.
O delator cita ainda que foram distribuídas “propina para 16 governadores eleitos e para 28 candidatos ao Senado que disputavam a eleição, a reeleição ou a eleição para governador”, acrescentou. Segundo ele, os governadores eleitos pertenciam ao PMDB (4), PSDB (4), PT (3), PSB (3), PP (1) e PSD (1). (Agência Brasil)

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