Com o índice crescente de jovens depressivos, epidemia silenciosa pode espalhar entre crianças e adolescentes, com reflexo no rendimento escolar

Fabiola Rodrigues

Doença característica da fase adulta, a depressão está afetando cada vez mais também crianças e adolescentes e, consequentemente, causando fragilidade emocional e prejudicando no rendimento escolar. Provocada por fatores que vão desde a predisposição genética até a experiência de episódios traumáticos no ambiente familiar, a depressão infantil está trazendo problemas de gente grande para a mente ainda em desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), depressão é um transtorno mental que acomete mais de 350 milhões de pessoas no mundo. Quem sofre com esse transtorno enfrenta problemas em todas as áreas da vida, na escola, trabalho, família. Os casos de depressão em crianças e adolescentes aumentam a cada dia. Dados revelados em 2014 pela OMS, pesquisados em 109 países, mostraram que esse transtorno é a principal causa de incapacidade de realização das tarefas do dia a dia entre jovens de 10 a 19 anos.
A doença que hoje atinge com intensidade crianças e adolescentes surge em decorrência de questões emocionais e físicas, além de outras razões que a psicologia pode explicar. Especialista em Educação Especial e em Gestão Escolar, a psicopedagoga Ana Regina Braga diz que a criança e o jovem estão inseridos em vários ambientes, fazendo uso da internet e com essa disseminação de ideias, principalmente do mundo virtual, podem perder a identidade e cair em tristeza profunda.
“Ainda tão jovens vivenciam crise de identidade, fragilidade, ruptura, tristeza e não estão recebendo orientações adequadas dos pais. Ou ainda sofrem alguma agressão física ou verbal que não é acompanhada. Por vezes, eles sozinhos podem não identificar a melhor forma de trabalhar essas questões e daí iniciar um processo depressivo”, diz a psicopedagoga.
Para Ana Regina Braga, o crescimento da doença precisar ser detectado por pais e professores. Mesmo os sintomas chegando silenciosamente, é possível perceber sinais através da mudança de comportamento. Se não tratada, a doença pode acarretar graves consequências na carreira estudantil e nos relacionamentos da criança e adolescente.
“Ao identificar algum sintoma de depressão, imediatamente a família deve tentar o diálogo inicial com o filho, ir até a escola para verificar como está desempenho dele em sala de aula, a relação com colegas. E, claro, os pais devem buscar ajuda o mais rápido possível”, observa a psicopedagoga.
A escola é também local onde as alterações do adolescente podem ser observadas. Ana Regina Braga ressalta que existem casos identificados a partir do boletim de notas. Os sintomas se mostram na dificuldade de concentração e memória, prejudicando o aprendizado e o desempenho escolar, além do alto nível de estresse.

P4-ANA REGINA BRAGAA psicopedagoga lembra que os sintomas de depressão que começam na adolescência incluem alterações no peso, no apetite e no sono e podem apresentar sentimento de tristeza e desespero. Ela crítica a ausência dos pais na vida do filho. E essa negligência tem acarretado problemas.
“Alguns jovens sentem-se inúteis e acham que nunca vão melhorar. Outros sinais de depressão incluem isolamento social, dificuldades de concentração e de memória e pensamentos ou atos suicidas. As famílias de um modo geral têm participado menos da vida dos filhos. Em razão da rotina de trabalho, muitas vezes deixam de lado a presença e comunhão familiar, diálogo e socialização, este é um péssimo sinal”, afirma Ana Regina Braga.
A atuação da equipe pedagógica no processo de acompanhamento do adolescente depressivo é de suma importância. O ambiente escolar é um aliado para ajudar o estudante a melhorar a autoestima.
“O trabalho com essa criança tem que ser em conjunto. Precisamos articular para que ela se sinta confortável em todas as áreas. Só assim conseguimos possibilitar a recuperação efetiva da criança com depressão”, alerta a psicopedagoga.
Ainda segundo a especialista, crianças e jovens com quadro depressivo necessitam de ajuda especial para encontrar o prazer em estar em sala de aula.
“O professor deve estar atento ao que acontece em sala, ao comportamento do estudante, para poder ajudar de forma adequada a cada um, fazendo com que ele goste e se interesse em estar ali”, detalha Ana Regina Braga.

 

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“O desinteresse pelos estudos pode não ser apenas um capricho”

Como a depressão tem afetado os jovens, os professores também devem estar atentos às reações do estudante e também ajudá-lo. A professora Sandra Silva esclarece que os educadores devem ficar atentos no ambiente escolar e, se notarem algum comportamento diferente do aluno, devem alertar os pais. Ela ressalta que o estudante depressivo precisa de inclusão máxima nas atividades escolares.
“Após diagnosticado, todo o ambiente escolar deve ajudar o adolescente a criar bons sentimentos em sala de aula, priorizando o estímulo, a aprovação, o encorajamento, fazendo com que ele se sinta importante, ativo e significativo. Estabelecer rotinas de estudos e de brincadeiras em conjunto com os colegas também é fundamental para a aquisição de responsabilidades. Outro fator importante é incentivar a participação grupal, estimulando assim o convívio social”, observa a professora.
Quando o adolescente demonstrar falta de motivação para ir à aula, isso pode ser um indicativo de perigo e requer atenção dos pais e dos professores. O desinteresse pelos estudos pode não ser apenas um capricho do aluno.
“A depressão na criança ou adolescente compromete o rendimento nos estudos. Ou seja, eles podem mostrar perda importante de atenção nas aulas, o que leva ao desinteresse e promove dificuldades para concentração. O melhor a fazer nestes casos é acompanhar o estudante, ter paciência com ele”, ressalta Sandra Silva.
A diretora da Escola Estadual Joaquim Edson de Camargo, localizada no Jardim Novo Mundo, em Goiânia, Rosângela do Carmo, relata que tem visto muitos casos de adolescentes sofrendo de depressão e diz que o meio de ajudá-los é conversando e compreendendo-os, de modo que não se sintam sozinhos.
“O adolescente precisa de mais acompanhamento da família. Eles estão ficando órfãos da presença dos pais mesmo morando na mesma casa. Este distanciamento tem refletido também através da doença. E claro nós como educadores tentamos, mesmo que seja no período de aula, amenizar o sofrimento do estudante depressivo. Precisamos fazer ele se relacionar com o colega, isso ajuda muito”, conclui a diretora.

 Conheça sintomas de depressão nos jovens

* Alteração de humor, com irritabilidade e ou choro fácil
* Ansiedade
* Desinteresse em atividades sociais, como ir à escola, brincar com os amigos ou com brinquedos
* Falta de atenção e queda no rendimento escolar
* Distúrbios de sono, como dificuldade pra dormir ou ter sono o dia inteiro
* Perda de energia física e mental
* Reclamações por cansaço ou ficar sem energia
* Sofrimento moral ou insatisfação consigo mesmo, sentimento de que nada do que faz está certo
* Dores na barriga, na cabeça ou nas pernas
* Sentimento de rejeição
* Condutas antissociais e destrutivas
* Distúrbios de peso, emagrecer ou engordar demais
* Xixi na cama e eliminação involuntária das fezes

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