Para petista, união com PMDB e DEM “é complicada”

0
1018

Filha do do professor e ex-prefeito de Goiânia Darci Accorsi, a deputada estadual Adriana Accorsi conviveu com a militância político-partidária desde a infância e adolescência, na época da consolidação do PT em Goiânia e Goiás. Na década de 1990, atuou nas atividades políticas da juventude petista ativamente, inclusive como presidente da Juventude do partido, afastando-se somente quando passou no concurso para delegada de polícia no ano 2000. Formada em Direito pela Universidade Federal de Goiás e especialista em Ciências Penais, ganhou notoriedade a partir de 2003, após assumir a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), onde permaneceu por oito anos, tendo solucionado crimes que ganharam grande repercussão. Em 2012, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de Delegada Geral da Polícia Civil de Goiás e, logo no ano seguinte, assumiu a Secretaria Municipal de Defesa Social de Goiânia. Em 2014, tornou-se a primeira deputada estadual eleita pelo PT em Goiás, obtendo mais de 43 mil votos. Após ficar em quinto lugar na disputa pela prefeitura de Goiânia, no ano passado, ela foi eleita no início de abril presidente do Diretório Metropolitano do PT, ganhando assim voz ativa no processo de decisão da política de alianças que a legenda terá em Goiás nas próximas eleições.


Daniela Martins, Manoel Messias Rodrigues e Marcione Barreira

Tribuna do Planalto – O PT em Goiás aprovou, por ampla maioria, que a prioridade do partido no estado é a eleição do ex-presidente Lula à Presidência da República em 2018. O que isso significa?
Adriana Accorsi – Como a gente não tem eleição em 2017, é um ano que a gente usa para conversar e dialogar e, enquanto dirigente, o meu pensamento é o de que precisamos priorizar a eleição do presidente Lula, não para fortalecer o nosso partido, mas sim para voltar a desenvolver o nosso país. É isso que entendemos e por isso essa é a nossa prioridade e isso acaba indicando o nosso caminho. Como os outros partidos não definiram quem são seus pré-candidatos, a gente vai conversando sobre isso.

Nesse cenário já está descartado o lançamento de candidato a governador?
Não, de forma alguma. Acredito que estamos num momento político complicado. Temos pré-candidatos que estão ligados com o golpe que aconteceu no Brasil e que são responsáveis por toda a crise que está acontecendo. É complicado você caminhar com um partido que participou do golpe, que hoje vota a favor de reformas que nós somos totalmente contrários. Não consigo entender, por exemplo, como vamos apoiar um candidato que tenha votado a favor da Reforma Trabalhista e da Reforma Previdenciária. Então esse é um momento complexo, mas é claro que vamos encontrar uma saída.

Recentemente a sra. assumiu o comando do Diretório Metropolitano do PT. Como será sua gestão?
Temos uma grande responsabilidade. Todos as lideranças do partido têm. Para mim, além de ser uma grande responsabilidade, é uma grande honra ser presidenta do PT Metropolitano. Minha intenção como comandante é unir o partido. Acho que esse é um momento em que nós temos que ser unidos. Temos que fortalecer as instâncias internas do partido, para que de fato essa democracia seja garantida no partido. Promover também novas filiações, principalmente da juventude, promover a formação política que é uma tradição do nosso partido.

A orientação nacional do PMDB, favorável às reformas do Governo Temer, deve dificultar uma eventual aliança do PT com a legenda em Goiás na próxima eleição?
Defendo que a política de aliança seja amplamente discutida dentro do partido e que não seja uma decisão de cúpula. Que seja uma decisão da maioria, que a gente discuta, que a gente vote. É um compromisso que tenho como presidente que a gente discuta e que a maioria possa decidir. Então, primeiro isso, eu quero deixar muito clara essa posição. Hoje temos três candidaturas colocadas e todas elas estão comprometidas com o processo que entendemos que foi um golpe e que tem promovido reformas que entendemos que são prejudiciais ao povo trabalhador. Estamos totalmente contrários tanto ao que o PSDB defende quanto ao que o DEM e o PMDB defendem porque o pré-candidato que o PMDB colocou até agora votou a favor da Reforma Trabalhista. Então eu acho tudo isso muito complicado e é por isso que eu não descarto uma candidatura solo, mas as coisas mudam e nós temos até o ano que vem para discutir.

O PT já tem algum nome?
Não. Até o momento ninguém se colocou, mas temos bons nomes. Quanto a isso não teríamos problema.

A sra. poderia ser um dos nomes?
Não. Sou candidata à reeleição. Esse é meu plano.

Voltando à questão da aliança, pelo que a sra. disse, caso Daniel Vilela seja o candidato do PMDB, isso não inviabilizaria qualquer possibilidade de aliança entre PT e PMDB, já que ele presidiu a comissão da Reforma Trabalhista?
Na minha opinião, acho muito complicado isso. Mas sou eu quem vai decidir? Não. Quem vai decidir é o partido. Minha opinião pessoal é que acho muito complicado isso. Já coloquei inclusive isso para amigos e companheiros de partido. Somos totalmente contra a Reforma Trabalhista e vamos lutar contra ela até o fim.

“Eu sempre disse que não queria um partido
pequeno, eu queria um partido grande para
construir um projeto grande”

“Provaremos a inocência de Lula e ele será o nosso candidato a presidente”

A sra. mencionou o termo golpe, citou criminalização do PT. Seu partido deve apostar todas fichas na candidatura do ex-presidente Lula, que será julgado nos próximos meses. Sendo condenado em segunda instância, isso inviabilizaria a candidatura dele. Esse é o caminho do partido, não tem plano B?
Teremos um congresso que para mim é o congresso mais importante na história do partido, que ocorrerá em junho agora e nesse congresso teremos representantes de toda a militância do país e vamos discutir essa questão. Decidiremos juntos quais serão as estratégias e as alternativas que nós temos. Em segundo lugar, pelo conhecimento que eu tenho da lei, está havendo uma criminalização do ex-presidente Lula. A forma que a Justiça tem tratado, especificamente esse juiz [Sérgio Moro], o presidente Lula, as provas demonstram claramente uma perseguição. Claro que temos que discutir todas as alternativas e vamos provar a inocência do ex-presidente Lula e ele será o nosso candidato à Presidência da República. É o que acredito.

Há uma série de situações, delações homologadas pelo STF por exemplo, que podem complicar uma candidatura do ex-presidente…
Não. O STF aceitar uma delação não significa que o sujeito é culpado, não quer dizer que ela é verdadeira. Se essa delação traz fatos comprovados e verdadeiros, isso será decidido no julgamento. Agora, se a delação levará a uma condenação, isso não foi decidido. Falando como delegada e jurista, a delação tem que ser levada com muito cuidado. O que queremos é que seja realmente investigado, é que tenha um julgamento realmente justo. É isso que queremos para o ex-presidente Lula e para todas as pessoas desse país.

“Acho que o prefeito [Iris] deveria parar de reclamar e trabalhar”

Sobre a gestão de Goiânia. Todo o secretariado e o próprio prefeito Iris Rezende têm reclamado muito da forma que encontraram a prefeitura da Capital, órgãos sucateados e endividados, segundo eles. A gestão de Paulo Garcia deixou mesmo a prefeitura cheia de problemas?
Primeiro, quero deixar claro que eu não fiz parte da gestão nos últimos anos. Mas o PMDB participou da gestão até os últimos momentos. Então o que é bom tem que ser reputado a ambos e o que é ruim, também. Os problemas que têm em Goiânia e as coisas boas, eu acredito, são herança dos dois partidos e de todas as forças que fazem parte da gestão. A gente tem que ser justo. O prefeito Paulo Garcia teve sua última prestação de contas aprovada na Câmara. O que foi apresentado lá, os vereadores aprovaram e do nosso partido só tinha um [vereador]. O prefeito Paulo Garcia tomou várias medidas duras, inclusive impopulares, e a informação que eu tive como candidata a prefeita é que as contas estavam organizadas. E é nisso que eu acredito. Até porque a Câmara aprovou isso. É claro que as pessoas pensam diferente. Você entra numa administração, e você pensa diferente do anterior, isso é normal. Até pessoas do mesmo partido vão imprimir na gestão a sua história de vida e as suas convicções. Mas acho que está na hora de trabalhar. Acho que o prefeito deveria parar de reclamar e trabalhar, e cuidar da cidade. Fazer o que ele prometeu. A cidade está precisando, as escolas estão em greve, os CMEIs não estão funcionando. Tem que trabalhar. Ele tem experiência para isso e acho que já passou o tempo de ficar falando da gestão anterior, isso tem que acabar. Ele precisa cuidar da cidade. É a minha cidade, a cidade que moro, quero que seja uma boa administração para a cidade, que a cidade esteja bem.

Como a sra. avalia a atuação de Iris até aqui?
Como deputada vou fazer tudo para ajudar, já fiz várias emendas para Goiânia. Mas acredito que ficar falando mal da gestão anterior, isso tem um limite. Estou muito preocupada com a situação dos CMEIs. Saiu, inclusive, essa semana nos jornais a quantidade de crianças que estão ficando sozinhas em casa porque os CMEIs não funcionam. Isso é inadmissível. O prefeito deve negociar, discutir essa questão da greve dos professores, resolver essa questão dos CMEIs, porque isso é muito grave, deixa as crianças muito vulneráveis. A Prefeitura precisa resolver isso urgente. Torço para que tudo dê certo, para que ele termine o mandato e que seja boa para a cidade.

“O machismo e o sentimento de posse estão muito arraigados na cultura goiana”

Seu mandato defende os direitos das mulheres e o combate à violência. Em Goiás, tivemos recentemente uma série de crimes que vitimaram mulheres, mortas pelo namorado ou marido. Está ocorrendo um recrudescimento desses fatos ou são casos isolados?
Esse tema é uma das prioridades, sim, tanto da minha atuação como delegada quanto como deputada. Há dados que comprovam que a violência contra mulheres e meninas em Goiás tem crescido muito. Estamos em segundo lugar em feminicídio, que é o assassinato de mulheres no conflito doméstico, de gênero. Infelizmente, os números são trágicos. Os números também de agressões, ameaças e tentativas de homicídio cresceram, assim como a violência contra a liberdade sexual, como o estupro. É muito grave. Goiás tem uma estrutura de combate aos crimes que precisa melhorar muito, melhorar sua estrutura física, de pessoal e de condições de atuação. Estamos iniciando uma pesquisa junto à Universidade Federal, que tem uma unidade de estudos da violência, para discutir quem é esta mulher que é assassinada: ela passou pela polícia, ela denunciou? A violência aconteceu por muito tempo? Enfim, para que a gente tenha um perfil destas mulheres e consiga ver onde estão os equívocos de atuação e o que pode ser feito.

O que pode ser feito de imediato?
Primeiro, precisamos ter uma política de mudança da cultura machista em Goiás. Fiz uma projeto aqui de campanha permanente contra o machismo que será levado às escolas. Nossa proposta é que cada escola crie uma equipe multidisciplinar que vai trabalhar essa questão do machismo, da violência doméstica e da cultura de paz com a juventude. Precisamos trabalhar com os jovens, até porque o mapa da violência traz que a maioria das mulheres vítimas em Goiás são jovens, mulheres jovens vítimas de homens jovens. A nossa juventude está reproduzindo a violência doméstica que, muitas vezes, aprendeu no seu crescimento, na sua própria família. Precisamos fazer essa mudança cultural, que depende de todos nós. Por outro lado, precisamos ter delegacias em todo o canto do Estado. A delegacia de atendimento à mulher tem policiais especializados, eles têm a técnica para atender e investigar. Precisamos ter os juizados especiais de atendimento à mulher, que estão na Lei Maria da Penha, mas que em Goiás só existe em Goiânia. Fiz um requerimento neste sentido ainda para o presidente anterior do Tribunal. Precisamos ter abrigos para as mulheres. A mulher, quando denuncia, está em risco. A maioria da situações acontece quando ela diz que não quer mais essa relacionamento abusivo. Tenho muito orgulho de ter ajudado a administração municipal anterior a trazer o abrigo para Goiânia, onde as mulheres ficam abrigadas com seus filhos. Precisamos ter abrigo em todo o Estado de Goiás. Essa é uma luta nossa. Precisamos também ter política para que a mulher recomece a sua vida. Fiz um projeto de lei aqui para reservas de vagas para mulheres vítimas de violência nas empresas que negociam com o estado e para a criação de um fundo de capacitação de mulheres vítimas de violência. Enfim, são medidas que precisam ser tomadas e que são eficazes para combater o crime e a impunidade. Mas ao mesmo tempo tem que ter essa campanha, porque o machismo está ligado à formação cultural. Não adiantar só ter a lei e prender. Muitos desses homens não se importam em ser presos, eles se matam. Preferem matar a mulher e se matar do que deixar aquele relacionamento terminar. Isso é muito grave, mostra que o machismo e o sentimento de posse estão muito arraigados na cultura. Por isso precisamos preocupar com essa mudança cultural em Goiás.

“O que houve ali foi um erro, o policial não agiu dentro da lei”

A sra. como presidente da Comissão de Segurança Pública da Assembleia realizou audiência para discutir a atuação das forças de segurança pública, principalmente a Polícia Militar, nas manifestações de rua. Casos de aparente abuso da força, como a agressão ao estudante Mateus Ferreira da Silva, devem ser vistos como ato isolado ou é possível perceber um direcionamento da instituição policial militar no sentido de reprimir as manifestações?
Como presidente da Comissão de Segurança, realizamos dezenas de audiências públicas, inclusive nos bairros da cidade, e vamos reiniciar essas audiências públicas sobre segurança pública agora no dia 5 de junho, lá na região noroeste. A gente chama toda a comunidade, as forças policiais, o Conselho Comunitário de Segurança e discute que políticas podemos fazer juntos na região. Inclusive sobre as condições de trabalho dos policiais. Realizamos aqui, eu creio, o maior seminário de segurança pública da história de Goiás com a participação do novo secretário de Segurança, agora no mês de março, na Assembleia Legislativa, onde discutimos justamente as condições de trabalho e os desafios dos policiais para garantir a segurança da comunidade. Realizamos também recentemente, com a presença da deputada federal Erika Kokay, que é presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara Federal, uma audiência sobre a liberdade de manifestação e as forças de seguranças para discutir justamente como reconstruir o diálogo entre as forças de segurança e os movimentos sociais, que foi rompido na ditadura militar e até hoje temos essa dificuldade. Eu, por exemplo, sou uma das poucas pessoas que tem uma história no momento estudantil, social, em partido de esquerda, e sou policial. Eu me dedico a reconstruir esse diálogo e esse relacionamento. Acredito que podemos ter uma polícia que tenha estrutura, condições dignas de trabalhar e que respeite e promova o direito das pessoas. A polícia é imprescindível, não podemos viver sem polícia. Agora a polícia tem que ter condições de trabalho, formação e uma liderança no sentido de qual segurança que queremos. Temos ainda uma polícia que tem treinamento da época da ditadura, quando manifestação era crime. Hoje não é. Então precisamos adaptar essa formação. Temos uma polícia que cotidianamente salva a vida das pessoas, protege a nós e a nossas famílias, e muitas vezes sem ter a condição para isso. Precisamos garantir essa condição, a capacitação dentro de um pensamento atual e democrático. E precisamos punir os casos pontuais que acontecerem. Ali nós tivemos uma manifestação pacífica, que lá estavam trabalhadores e trabalhadoras de todas as categorias. Lá estavam Ministério Público Federal, OAB, Polícia Civil, Polícia Federal, trabalhadores dos Correios, colégios inteiros, padres, pastores, vereadores. Então não é verdade que eram vagabundos, eram trabalhadores.

Houve abuso de força policial?
No final teve um momento de conflito. Em momentos de conflito, o policial tem que ter instrumento para agir e os policias de Goiás, segundo o secretário, não têm todos os instrumentos para agir naquele momento. E precisam ter o bom senso, saber se portar com provocações. Se havia pessoas com barras de ferro, como eles alegam, e eu não vi, essas pessoas deviam ter sido presas. Não existe pena de morte para quem está se manifestando, nem se quebrar a porta do Itaú. Se quebrar a porta do Itaú, a pessoa tem que ser presa. Ela não pode receber uma paulada na cabeça. Essa é a lei brasileira. E como delegada preciso promover o cumprimento da lei. O que houve ali foi um erro, um equívoco, o policial não agiu dentro da lei. É uma pessoa que tem um história, eu inclusive já recebi denuncias dele e fiz uma investigação. Não estou falando de nada que ouvi falar. E acredito que ao mesmo tempo que precisamos promover essa capacitação para os tempos atuais, e ter essas estruturas, precisamos ter a justa punição. Após uma investigação, com provas e, se ficar provada, que haja a punição que está dentro da lei.

O secretário de Segurança declarou, após essa manifestação, que a PM precisa de um novo código de ética. Não é uma declaração muito genérica? O caminho para resolver essas situações não passaria pela criação de uma nova polícia, com a superação do caráter militar?
O secretário apresentou várias medidas. São seis medidas, que entendo que são necessárias e justas e que trarão realmente benefício para a segurança em Goiás. Essa medida é importante porque existe um código que norteia a atuação da Polícia Militar, que é extremamente ultrapassado, prevê medidas muito antigas e que não combinam com a atualidade, segundo os próprios militares e o secretário. Acredito que a discussão da união das policias tem que ser enfrentada no Brasil, tem que discutir, trazer os trabalhadores da segurança e a população para discutir juntos. Existem temas no Brasil que são de certa forma tabus, mas que precisam ser discutidos para que a gente encontre um caminho. Precisamos encontrar caminhos pelo menos para a atuação conjunta das forças policiais – defendo isso. Defendo também que a gente discuta formas de modernizar as forças policiais. Acredito também que precisamos fortalecer a Polícia Judiciária, porque se não houver investigação e julgamento dos crimes, não adianta ter a polícia preventiva, a Polícia Militar fica realmente enxugando gelo. E precisamos investir na prevenção ao envolvimento das pessoas com crimes. Para mim, a principal medida de política pública de segurança é o investimento maciço e pesado na prevenção. É o que eu faria e é o que farei como sugestão, caso o presidente Lula seja eleito.

“Para mim, a principal medida de política pública de segurança é o investimento maciço e pesado na prevenção”

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here