“A solução melhor seria a renúncia de Temer”

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Professor Wilson Ferreira da Cunha: “A Lava Jato deve se tornar órgão permanente”

Crítico mordaz da esquerda brasileira que chegou ao poder com o PT, o professor e cientista político Wilson Ferreira da Cunha não se apoia em meias palavras para analisar a realidade política brasileira e aponta o apodrecimento do tecido político, escancarado pelas delações premiadas, não se esquecendo da responsabilidade do eleitor nesse processo, uma vez que os políticos são reflexo de certos componentes do caráter do brasileiro, como o jeitinho, a malandragem, o levar vantagem, o patrimonialismo. Isso – acredita – será mudado nas próximas gerações. “Não tem mais salvação essa atual geração”. Apesar de o cenário trazer descrença, tem o efeito didático de colocar as pessoas na realidade, o que “é melhor que continuar sendo iludido”. Sobre o presidente Michel Temer, o cientista lembra que mesmo sendo “o presidente mais impopular do Brasil”, ele tem uma base no Congresso, tem articulação e tem história política e diálogo com todo mundo. “O problema é que essa gravação veio num momento delicado, caro para o país, um momento de encaminhamento de reformas importantes, em que o país está com uma das melhores equipes econômicas pós-Plano Real”, destaca. Wilson Ferreira da Cunha é graduado em História e mestre pela Universidade da Amizade dos Povos de Moscou, onde estudou na década de 1960/70. É professsor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.


Manoel Messias Rodrigues e Yago Sales

Tribuna do Planalto – Como o sr. analisa o cenário político, com a possibilidade novamente de queda do presidente da República?
Wilson Ferreira da Cunha – O [Michel] Temer é um presidente que deveria e deve fazer um governo de transição, apenas com um mandato que pode ser chamado de tampão. Seria uma transmissão para o retorno à normalidade política e econômica do país. Assim as coisas iam caminhando, com várias medidas tomadas e outras encaminhadas para a retomada do desenvolvimento econômico e político. Agora com o problema do Joesley [Batista, da JBS] mudou tudo, está na estaca zero. Agora vai depender do Congresso, das forças políticas. Se Temer tiver postura para manter o cargo de presidente, poderá continuar as reformas. Acredito que toda decisão deve cumprir a lei, a Constituição, seguir os trâmites normais no caso de vacância, como foi o caso da Dilma. Esse deve ser o encaminhamento natural, tranquilo, sem proselitismo, sem bagunça.

No caso da Dilma o impeachment demorou e paralisou o país. Viveremos esse trauma novamente?
Toda substituição de presidente, de primeiro-ministro, causa um certo trauma. É o próprio andamento natural da política e o país sofre com isso. É lógico que o país não pode parar, precisa continuar, mas o impasse é muito grande nesse momento, entre os políticos, os partidos que apoiam o presidente e as oposições, inclusive na área jurídica, devido a esse estardalhaço que foi a gravação do Joesley com o Temer. O ideal seria divulgar a conversa após um exame pericial detalhado e conclusivo das gravações. Então essa divulgação acabou prejudicando o andamento das grandes reformas que o país está discutindo. Como as reformas são indispensáveis, isso paralisa o país.

“É lógico que o país não pode parar, precisa continuar, mas o impasse é muito grande nesse momento”

O sr. diria que houve uma orquestração, uma conspiração contra Temer?
Não diria uma conspiração, mas talvez uma falta de estratégia. Claro que isso deveria ser divulgado, mas agiu-se no impulso.

O sr. acha que Temer tem condições de continuar na Presidência?
Tem condições se houver apoio do Parlamento, porque o presidente da Câmara e do Senado têm como preocupação dar andamento às votações das reformas acerca de oito medidas provisórias desse governo que precisam ser aprovadas, além das reformas. As oposições ao governo Temer não tinham votos suficientes para contestar e impedir o avanço das reformas. Todas aquelas que foram colocadas em plenário foram aprovadas com folga. Agora vai depender de como será o encaminhamento e o entendimento do Congresso sobre tudo, porque não se trata simplesmente de uma questão da Presidência, mas do país. Trata-se da governabilidade da Presidência da República, de dar uma solução. A solução melhor seria a renúncia do presidente Temer, sendo que assumiria o presidente da Câmara dos Deputados, do Senado Federal ou do Supremo Tribunal Federal provisoriamente, que convocaria eleições indiretas em 30 dias votando os membros do Congresso. Isso é o que está na lei. Mas as oposições apresentaram uma emenda para modificar a Constituição Federal, estabelecendo eleição direta, ou seja, voto popular.

 

“O PT não tem nome [para substituir Temer],
pois estão na cadeia ou com tornozeleira eletrônica”

A proposta de reforma previdenciária no mínimo não foi mal explicada à população, para se saber quem ganha e quem perde?
Não, até porque isso já vinha sendo proposto desde os governos FHC e Lula… E agora o governo já fez várias concessões, durante as discussões dentro do Congresso, que é o fórum correto para as mudanças. A reforma do ensino médio, por exemplo, foi discutida desde o governo Dilma e não andava. Mas a reforma da previdência é uma minirreforma, não ficou uma reforma, foi cedendo, porque os contrários fizeram propaganda que atingiu a população menos informada, foi uma deseducação. Inclusive se tem esse tipo de ativista dentro das escolas, das universidades, que divulgam essas ideias de pensamentos mágicos que são delírios socialistas que existem no Brasil. Acreditam no estado como um Deus que pode dar boas condições de vida para todos. Essa é uma ideia maravilhosa, mas isso não existe.

Mas o estado precisa estar forte para mediar a relação capital x trabalhador…
Claro, o estado tem que mediar e dar condições para o dinheiro irrigar a sociedade, o que o Henrique Meirelles fez durante todo o governo Lula na área econômica e que deveria ter continuado. A Dilma teve opção de continuar mas fez opção de ser salvadora dos pobres. Quem cria emprego são os empresários. E quem explica isso para o mundo são os chineses atualmente, mas quem começou foram os russos, que mostraram que o socialismo é inviável, tanto que não houve um tiro a favor do socialismo na Rússia socialista, ninguém defendeu. Essa ideia está muito forte na esquerda brasileira, que não tem voto, por isso o Temer ainda tem alguma chance, só que as denúncias vão continuar e pode ser fatal para a carreira política do Temer.

Que nomes poderiam substituir Temer?
Tem muitos nomes. O PT que não tem nome, pois estão na cadeia ou com tornozeleira eletrônica. O PSDB tem muitos nomes, o [Tasso] Jereissati é um deles. Só que será um mandato para tampar, provavelmente uma eleição de forma indireta. Mas a própria substituição leva tempo. Até quando isso se arrastará? Falta um ano e meio para terminar o mandato e pouco mais de ano para a eleição de 2018. Por isso o melhor seria um Temer mais pacífico, renunciando, até porque esvaziaria o barulho da oposição, que só fala “Fora Temer”. Querer mudar o país de uma hora pra outra, “Fora Temer”, “Diretas já” é oportunismo, assembleísmo, casuísmo, porque não tem outra bandeira. Então precisaríamos de grandes políticos, estadistas para apontar a saída, a melhor solução para o país.

“Eleição direta seria um grande risco para o país, porque não há regras”

O que o senhor acha da proposta de realização de eleição direta, com voto popular?
Primeiro, não sabemos o real conteúdo dessa proposta. Caso seja aprovada, quais seriam as regras? Além disso, é um grande risco, porque as regras estão sendo discutidas em um momento de crise, colocando o país na corda bamba, não sabendo qual rumo seguir. E os políticos sérios precisam ter calma para definir qual o melhor caminho para o país. Se Temer renunciar, perderá o foro privilegiado, passa a ser julgado como um cidadão comum, é uma decisão de foro íntimo. Mas até quando ele conseguirá segurar isso? É uma incógnita.

A Lava Jato deve continuar?
Claro. Deve se tornar um órgão permanente. Inclusive há denúncias de tentativas subterrâneas de enfraquecer e “melar’’ a Lava Jato.

Como o Sr. viu o envolvimento do senador Aécio Neves, que na campanha presidencial se vestia de severo opositor da corrupção?
Tanto Aécio como Temer alegam ingenuidade, que caíram numa armação. Ingenuidade existe entre os humanos, fora da política também, mas não existem anjos nem na sociedade nem na política partidária. Não existe essa ingenuidade. Mas naturalmente o Joesley percebendo a situação foi se juntando às forças do PSDB com Aécio, tanto que Aécio passou o réveillon de 2013 na casa de praia de Angra dos Reis de Joesley. Já era uma aproximação de uma futura força que poderia ganhar uma eleição presidencial.

As manifestações de rua, o senhor considera que são importantes?
Se pacificas, tudo bem. Mas as manifestações não podem ser apenas contra ou a favor, precisam ter projetos, plataforma. Qual a proposta dessas manifestações que os sindicatos que são contrários a Temer têm para as reformas trabalhistas e previdenciária? “Fora Temer’’, isso não é proposta. Que nomes eles têm? O Lula. Virou o salvador da pátria. Não se pode confiar nessas mobilizações que são imediatistas, que não são reflexões sobre o Brasil, mas reações a favor ou contra.

“Não existem anjos nem na sociedade nem na política partidária”

“É preciso trazer de volta a esperança da população na política”

Somente na delação do grupo JBS há envolvimento de 1.829 políticos de 28 partidos. É possível punir tanta gente graúda?
Acredito que serão punidos aqueles que receberam maior volume de dinheiro. Marcelo Odebretch disse “Não existe político eleito sem propina’’. Por isso defendo que as doações de empresas deveriam continuar, mas com transparência, fiscalização. A cultura política do Brasil precisa mudar, através de leis, de uma reforma política, estabelecendo o voto distrital, acabando com a obrigatoriedade do voto, diminuir a quantidade de políticos, não se precisa de 513 deputados federais. Além disso o político virou funcionário público, uma profissão com salário altíssimo. Tem de começar por cima, porque aí a polução passa a confiar na classe política. É preciso trazer de volta a esperança da população na política e não tem segredo: deve se administrar como se administra nossas contas de casa, com transparência, transmitindo confiança para a população. Hoje temos a ausência da política, a politicagem, a roubalheira, o desgoverno. Não é culpa do eleitor, porque é o partido que escolhe quem vai ser o candidato e você vota naquele escolhido, mas o partido não tem pressupostos éticos pra indicar alguém confiável. Isso é básico para voltar a confiança. Estamos carentes de agentes públicos que manuseiam com competência e transparência as contas públicas

Qual a parcela de culpa do Governo Temer nesse cenário?
Temer até que vinha bem no encaminhamento das reformas, conseguiu aprovar a PEC do Teto de Gastos Públicos, deu socorro aos estados falidos, estava andando com as reformas trabalhista e previdenciária. Apesar da enorme impopularidade, essas reformas começavam a avançar. E a economia já apresentava tímidos sinais de melhora. E com Joesley tudo mudou. Mas a era Lula feriu a democracia profundamente, com a corrupção sistêmica cuja radioatividade está longe de terminar e as insanidades econômicas que levaram 14 milhões de trabalhadores ao desemprego. Contudo, o pior foi a conspurcação da linguagem política com falsificação de teorias históricas ultrapassadas e defendidas por “companheiros”, rachando o país entre nós, que somos do bem’, e eles, as elites, que são do mal, criando a falsa ideia de que o país só tem igualdade com Lula, o que é um delírio.

Criou-se a figura do Lula salvador da pátria…
Na verdade o PT criou um cartel com um pequeno grupo de empreiteiros chamados campeões nacionais. Mas afinal, tudo que está ocorrendo desde o mensalão, petrolão, Lava Jato e os escândalos recentes têm um efeito didático-pedagógico para o povo, o eleitor deve aprender como não se deve governar um estado. Estamos vendo todo dia o lado negativo de como não fazer política. Esse é um processo demorado. A história existe pra gente não cometer erros, existe para indicar caminhos diferentes daqueles erros que foram cometidos principalmente desencontros, desacertos na área política e econômica. O Brasil, durante os últimos 13 anos, foi colocado como exemplo para o planeta. Veja quanta pretensão. E o mundo agora está vendo como enterrar uma nação em pouco tempo. Perdemos a década passada mas a política não destrói um país rapidamente porque as pessoas continuam trabalhando. Mas a política está desgraçando o país. Caímos num buraco propositadamente feito pra afundar o país. Isso é incompetência, mas visando dar privilégio a uma parcela insignificante da população.

Casos de políticos tidos como honestos flagrados pilhando dinheiro público não espantam e gera descrença no eleitor?
Está na cultura brasileira, temos certos componentes do caráter brasileiro, que é o jeitinho, a malandragem, o levar vantagem, o patrimonialismo. Tudo isso está sendo escancarado. Esta parte precisa ser mudada nas próximas gerações. Esse é o caráter do brasileiro que deve mudar via novas gerações, não tem mais salvação essa atual geração. Esse cenário dá descrença, mas coloca as pessoas na realidade, é melhor que continuar sendo iludido. Na eleição passada o PT já perdeu muito da sua força e as próximas eleições deve decretar praticamente o fim definitivo do partido.

Isso não geraria um vácuo…
Não, porque deve surgir novas lideranças, que não são necessariamente novos nomes, mas sim novas ideias, coerentes, pertinentes.


Brasília

Clima de guerra no “Fora, Temer”

Yago Sales
De Brasília

“Uma guerra, uma guerra”, gritava Antônia Maria Lopes, 65 anos, arrastada pelo irmão, Juvênio Lopes, 39, se desviando de manifestantes deitados no chão, com rostos na grama. A poucos metros, Ana Júlia Matos, 10, chorava, esfregando o rosto enquanto a mãe, Vanessa Matos, 35, vomitava.
Sem se convencer de que o movimento havia sido dispersado – os carros de som decidiram encerrar o ato na Esplanada e sair do local –, um grupo começou a gritar “Fora, Temer”, o que foi suficiente para mais bombas de gás e spray de pimenta serem lançados pelos policiais. “Ninguém ali usava máscaras e saímos correndo. Alguns não aguentavam e caiam, esfregando o rosto na grama.
Enquanto os manifestantes levavam consigo a voz e os cartazes que usavam para pedir a saída de Michel Temer (PMDB) da Presidência da República, eleições diretas para o cargo e para dizer não às reformas trabalhista e previdenciária propostas pelo governo Temer, e no máximo pedras como arma, a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) reprimia-os com bombas de gás, spray de pimenta, cassetetes e até com armas de fogo. Além das tropas terrestres, inclusive Cavalaria, havia dois helicópteros voando baixo sobre os manifestantes.
A dispersão se deu minutos depois de lideranças, nos carros de som, denunciarem o uso de armas letais pela polícia militar, quando grupos tentavam ultrapassar a barreira. Um homem foi alvejado e levado ao Hospital de Base de Brasília (HBB). Segundo o hospital, ele não corre risco de morte. No entanto, não foi um tiro isolado, a reportagem flagrou diversos disparos.
Os black blocs avançaram em direção a um dos prédios. Os policiais que tinham apenas cassetetes demonstraram estar acuados e, em vez de recuar, sacaram pistolas e efetuaram cerca de dez disparos.
Em locais mais afastados, nas ruas que levam aos Ministérios, a reportagem registrou policiais militares utilizando arma de fogo, mirando e atirando na direção de grupos encapuzados e armados de paus, pedras, cones e o que sobrou de lixeiras, pontos de ônibus e objetos retirados de alguns dos seis ministérios invadidos, depredados e incendiados.
Um dos disparos atingiu um homem, vestido com camiseta branca, que nem de longe poderia ser confundido com um black bloc.
Estudante de Física de Santa Catarina, Vitor Rodrigues Fregulia, 22 anos, teria pego um artefato para devolver aos policiais, quando a bomba explodiu em sua mão e ele perdeu três dedos.
No Ministério da Cultura, um grupo de manifestantes retirou uma geladeira. Enquanto a polícia não vinha, um sofá foi usado,  para o grupo comer saladas de fruta, pêssegos, maçãs e até sorvete.

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