Dependentes químicos sob tortura

0
1163
Depois de libertos, internos foram levados à Casa de Acolhida, em Goiânia. Quem não tinha família na capital, permanecerá no abrigo.

Polícia Civil liberta internos de casa de recuperação em cárcere privado. Eles eram agredidos com cassetete e máquina de choque

Yago Sales

Não é de hoje que instituições irregulares são flagradas contrariando normas no tratamento a dependentes químicos e piorando ainda mais a vida de quem precisa de cuidados para fugir do vício das drogas. Segregados, marginalizados e esquecidos pelos familiares, viciados em drogas normalmente são tutelados por estas unidades terapêuticas sem permissão para funcionamento.
Sobram casos de desrespeito aos direitos humanos em locais que, sem outra saída, os famíliares desesperados internam entes. Em unidades sem qualquer estrutura – motivo não terem, por exemplo, alvará de funcionamento – que prometem livrá-los do vício por meio da abstinência. Do lado de dentro, detrás de muros, a falta da droga e suas consequências psicológicas são dominadas com remédio sem prescrição médica ou com agressão.
É o que constatou uma operação intitulada “Resgate” no último dia 31 de maio. A polícia civil, em conjunto com a Vigilância Sanitária e Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), libertou homens e mulheres que estavam internados em uma casa de recuperação denominada Nova Vida no Residencial Della Penha, em Goiânia

Madeira usada para agressão
Madeira usada para agressão

As 56 pessoas, entre mulheres e homens, em locais separados por um muro, resgatadas, eram submetidas a maus-tratos, segundo aponta investigação da polícia civil.
Caso dois homens que passaram pela unidade não tivessem denunciado as agressões, certamente a “Nova Vida” continuaria aplicando seus métodos que contrariam normas de funcionamento.
Na operação intitulada “Resgate”, um pedaço de pau em que se lia “Boa noite” escrito a caneta e uma máquina de choque foram apreendidos. Segundo os dependentes, os objetos eram utilizados para agredir os mais exaltados na unidade.
“Eles eram vítimas de enforcamento, por meio de mata leão, além de golpes com o cassetete de madeira”, disse o delegado Eduardo Gomes.
Quando a polícia entrou no local, o dono da clínica que não teve o nome divulgado, pulou o muro dos fundos e fugiu. A mulher dele, Renata Marques de Lima Magalhães e o enteado dela, Thainan Rodrigues Siqueira Magalhães foram presos e vão responder por organização criminosa e cárcere privado. Ainda serão investigados os crimes de tortura e maus-tratos.
Segundo o delegado, a estadia na unidade era bem salgada. É preciso desembolar entre R$ 1 mil e R$ 1,8 mil mensais. Sem privacidade com os familiares, já que as visitas eram monitoradas, os pacientes não conseguiam, afirma o delegado, denunciar as agressões que sofriam ou que presenciavam no local.
A unidade tem apenas um alvará, o que permite atuação como centro terapêutico – um aval para que haja tratamento restrito a acompanhamento religioso e trabalhos funcionais.
Mesmo sem qualquer permissão para funcionamento como clínica, a unidade se comportava como tal, internando e até prescrevendo medicação.

Caso não é isolado e tem se tornado comum

Sem um investimento para a criação de uma efetiva política de tratamento a dependentes químicos, muitas instituições irregulares surgem sob o argumento de ineficiência do Estado. E elas ganham cada vez mais as regiões mais afastadas, justamente para fugir da fiscalização.
Familiares não pestanejam em pagar uma mensalidade para, pelo menos, tirar os viciados em drogas de conflitos – alguns chegam a cometer furtos e agridem familiares para obter dinheiro para comprar a droga, como a reportagem constatou conversando com familiares de internos de algumas unidades em Goiânia.
Essas instituições irregulares não têm em seu quadro de internados apenas dependentes químicos. No dia 23 de janeiro deste ano, por exemplo, uma mulher de 35 anos morreu em Caldas Novas, no interior de Goiás. Vítima de maus-tratos, de acordo com a polícia, ela foi amarrada e obrigada a tomar remédios. À época, duas funcionárias foram presas. A vítima tinha o diagnóstico de esquizofrenia e transtorno bipolar. Ela foi encontrada já sem vida trancada no quarto e amarrada a uma cama. As pacientes que também estavam no cômodo contaram que chegaram a gritar e pedir socorro, mas nenhum funcionário foi prestar assistência.
Ainda em janeiro deste ano, a Tribuna do Planalto denunciou em uma reportagem que repercutiu em todo o país, a instituição “Resgatando Vidas”, dirigida por Daniel Batista de Moraes no Garavelo e, depois, no Buriti Sereno, em Aparecida de Goiânia, conhecido como “pastor”. A apuração dos repórteres chegou a relatos de tortura e exploração de mão de obra.
Moraes, ainda descobriu o jornal, era foragido da justiça. Ele não tinha receio de demostrar sua violência até em público, quando foi descoberto pela reportagem enquanto agredia Marcos Pina, que saiu da unidade comandada por Moraes ao assistir a agressões na “Resgatando Vidas”. Um mês depois da publicação, Moraes foi preso e sua instuição, que já tinha uma sucursal em Minas Gerais, fechada.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here