Rigidez

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Foi a uma visita que tive a Portugal ao encontrar com colegas de adolescência que me deparei com um processo psicológico que em muito me chamou a atenção, distante, mas familiar. Após 20 anos de um encontro a outro, ao rever pessoas conhecidas as percebi no mesmo pedaço de tempo e espaço. Preso as margens do rio em Manoel de Barros.  O conhecido que na altura atuava em um pequeno estabelecimento de calçados, ali continuava da mesma maneira, firme e forte. Fato do destino, tragédia, acomodação, má sorte? Estar congelado no tempo e no espaço, do mesmo jeito após 20 anos… de um lado, a vivencia da tradição, o negócio de família; do outro, certa conformidade incomoda… o que foi que mudou?
O livre arbítrio, estado do ser mineral em Giovanni Pico della Mirandola?
A rigidez é um dos aspectos mais intensos da nossa pós-modernidade com o acirramento das identidades de grupo e negação da identidade individual. Hoje vivenciamos um mundo globalizado cheio de fundamentalismos, intolerâncias, com pouca criatividade, muita belicosidade, incapacidade de estabelecer diálogo entre ideologias e diferenças. O estranho, o forasteiro, o divergente, o inimigo mortal. A idéia de fronteiras, espacialidade rediscutidos a exaustão nos estudos pós coloniais tentando delimitar as velhas fronteiras que jamais deixaram de existir.
Velharias discursivas que em contra partida acirraram diferenças, fortalecimento da identidade de grupo em detrimento da identidade individual, muita Persona para pouco Ego. No universo virtual das últimas décadas houve alta exposição a culturas diferentes, gerando maior aparecimento de resistências e acomodações cunhadas em um tradicionalismo com a negação de diferenças. Inaceitável permitido. O crescimento político de partidos fundamentalistas, a xenofobia, discursos nacionalistas e de ódio agregam este processo com a explosão de fundamentalismos patológicos e intolerância. Nosso mundo neo liberal chato e bélico, que acentuou as diferenças econômicas apartando cada vez mais tudo que tenta incomodar até mesmo a própria consciência… E lá estava meu conhecido em sua lojinha de calçados com ar triste opaco sentado no banquinho de 20 anos atrás, redimensionando sua terceira margem do rio de Guimarães Rosa. Tão igual nos vários lugares da existência.
Espaços, fronteiras demarcadas pelo estado psicológico da rigidez, são um fator neurótico acentuado base de muitas psicopatologias que vão de estresse a melancolia, depressão e fobias evidenciando a cisão arquetípica da psique que em neurose não sai do lugar. O egoísmo brutalidade… e por que não a raiva de si próprio, apatia, acomodação negação de processos criativos e inovação são elementos comuns de nossa pós-modernidade. A neurose descrita por C. G. Jung, comum nos dias atuais, evidencia a dificuldade de lidar com a criatividade e com o instinto de atividade, com a  possibilidade de mudanças, e o  ser da pós-modernidade se fecha e se incomoda em seu próprio comodismo.
Para que sair do lugar se podemos permanecer no mesmo banquinho de nossos bisavós?

Jorge Antônio Monteiro de Lima, analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e  mestre em Antropologia Social pela UFG.

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