Escravidão

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Pós-modernidade à mesa. Um dos paradigmas mais impressionantes de nossa atualidade está na ruptura dos processos de humanização e qualidade de vida. O modelo neoliberal de produtividade contra o de tempo. O retorno de um modelo administrativo Taylorísta aliado a psicose de nossos dias, megalomania e onipotência em um delírio, querer sucesso, status, alta produtividade e performance a qualquer preço.
Pós-modernidade é demarcada pelo retorno da escravidão em jornadas de trabalho desumanas de mais de 60 horas semanais , na ideologia neoliberal de homens- máquina, que jamais se cansam e que são capazes de produzir 20 horas diárias, dormir quatro horas entre um emprego e outro e, caso não consiga tal produção, ganham a humilhação, chibatas, desemprego e o banimento social como incapazes, improdutivos ou inábeis.
O estado, recursos humanos e o delírio megalomaníaco que jamais planeja delimitaram este cenário no mercado de consumo e a crise vindoura engendra hoje uma alta ansiedade social por uma vivencia produtivista, que diariamente é confrontada com nossa incapacidade e limitações. O paradigma do tempo de  Kant dá vazão ao tempo do delírio e absurdo, o tempo do realismo deixado de lado na ruptura do tempo do delírio.
Nos anos 1990, quando era um traineei de recursos humanos em uma multinacional, via em meus mentores uma preocupação clara de manter o clima organizacional, a qualidade de vida  em uma empresa, a saúde dos colaboradores, visando evitar problemas judiciais e o turn over em uma corporação, o que elevaria em muito os custos do processo de trabalho. O tempo perdido em recrutar novos membros, selecionar, treinar até capacitar o novo colaborador para o trabalho. Existia uma tentativa de humanização nos processos.
Com a entrada da década de 2010 os processos de humanização são destituídos no capitalismo selvagem, nas idéias de jerico de altíssima produtividade diante de um cenário de crise econômica mundial. Querer lucros exorbitantes dentro de uma crise é, a meu ver, o ápice de uma incapacidade administrativa e gerencial, o distanciamento da realidade, um mergulho na fantasia, delírio, psicose, megalomania e paranóia.
As ideias coletivas evidenciam  a crise de valores: o sadismo aparece de forma sombria e a persona ilimitada vira alvo das novas identidades alinhadas com este novo mercado, que não respeita individualidades. O conceito de pessoa é destituído diante da barbárie e voltamos ao início da era industrial, onde não existiam regras nem leis trabalhistas. Voltamos ao tempo da chibata.
Seria viável e de bom tom diminuir margem de lucro para se preservar o ambiente de trabalho, clima organizacional, sobreviver sem prejuízos de médio e longo prazos. Mas a moda agora é o imediatismo, o materialísmo, egoísmo e tornar o dinheiro e status em novas divindades, nas quais  a voracidade evidencia que não há limites. O limite claro é a escravidão que torna o outro em um objeto descartável.
Diariamente em meu consultório como psicólogo clínico recebo pessoas adoecidas e exaustas em alta ansiedade por que tentam adequar-se a este formato novo de sociedade, escravizando-se diante de uma estrutura que não tem concerto.
Normal trabalhar em três empregos  para tentar manter um padrão de vida sujeitando-se a condições desumanas. Com a elevação do custo de vida, com altíssimas taxas de juros, vivenciamos a volatilidade e o ápice da instabilidade agenciada.O sonho da distribuição de renda agora é pesadelo.
Como se respeitar neste cenário?

Jorge Antônio Monteiro de Lima, analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e  mestre em Antropologia Social pela UFG.

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