Periquitos, paineiras e suspiros

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Nesta época do ano, com o fim das chuvas, Goiânia floresce em branco com suas trdicionais paineiras

Yago Sales

A fibra esbranquiçada voando lentamente descansa sobre os capôs dos carros e ilustra o asfalto e calçadas. Dona Júlia Inácio, 74, se agacha e esfrega um pouco de “algodão inútil” às mãos antes da primeira varrida na calçada em que funciona a oficina do filho e uma lojinha de celulares do neto no setor Pedro Ludovico, em Goiânia.
A família mora no andar de cima de um sobradinho descuidado, mas vetusto. É da pequena sacada que o marido construiu depois de decidir deixar de mão Brasília e reencontrar as raízes goianas que ela apalpa o peito, entre um seio e o outro, e suspira.
Na sacada por pouco não cabe apenas a matriarca de seis filhos, oito netos e dois bisnetos. Eu tento me encaixar em um vão. Espremo-me para ver se, da cena que assistiríamos, consigo extrair alguma coisa perdida acontecendo nos cenários da vida da natureza que sobrevive ao acinzentado do concreto.
piriquitoDona Inácia se ajeita com seus 75 quilos, rosto bochechudo, cabelos loiros com corte social. Ela é muito séria e não ri nunca, ou seria a tensão do dia em que ela tem marcado um cateterismo? Ela tem medo de não voltar do exame, o mesmo que matara duas de suas irmãs. “Vamos mudar de assunto”, prefere.
De tanta saudade do marido, morto antes de as paineiras florirem, décadas atrás, o coração dela ganha um aperto a cada susto. Se um carro buzina, ela se espicha no sofá de couro vermelho. Se um neto grita, ela sobressalta. Deu que teve de marcar com o cardiologista. E o medo de morrer que a transformou, ainda mais, numa observadora diária da rua. Não apenas da rua.
O horário marcado para o espetáculo: 7 horas da manhã. O sol parece tímido, o azul atrelado com o branco movediço de nuvens que apertam o céu. Ela explicava o segredo do café forte e doce quando uma gritaria explodiu de algum lugar. As cortinas da vida se abrem. Ela diz que se arrepia. Eu duvido e espio. Realmente, ela está toda eriçada. De repente, uma algazarra de periquitos sobrepõe o cenário. É a minha vez de arrepiar.
periquito-de-encontro-amarelo2Angélica Sousa, 27, lá de baixo gritou: “A tosse vale a pena, dona Júlia”. Angélica é uma das defensoras da permanência das paineiras, vítimas de orquestração para retirada por alguns “insensíveis e rabugentos moradores” por meio de abaixo-assinados. É que o fruto, que mais parece um órgão como o coração de dona Júlia, dá um trabalhão. Quando maduro, se abre e solta a paina-sedosa, feita de fibra pouca resistente, que é carregada pela ventania da manhã.
Para dona Júlia, paina deixa a rua um paraíso, para outros moradores, como seu Carlos Pires, 69, um inferno. “Vivo tossindo”, conta, mas com uma carteira de Derby azul dentro do bolso da camisa pálida entreaberta. E o cabelo de seu Carlos é tão branco que penso em compará-lo um pouco com aquela fibra. Desisto. Ele vê meu entusiasmo e geme: “vá escrever coisa positiva”.
periquitos na paineiraO ambiente nesse período do ano, como atesta o dentista Lúcio Albuquerque, 34, “nos enche de nostalgia”. Ele não deixa de correr à janela do consultório, abaixando a cortina de acrílico verde-maçã para ver os periquitos durante o dia.  “Na fazenda da família eram tantos. E eu corria com meus primos para recolher no ar aquela coisa que parecia um algodão. E a gente fazia bolas de futebol com o que a gente pegava do chão”. Ele também suspira.
O bando de periquitos, para lá de uma centena, voa de paineira em paineira, em busca das sementes, de refúgio. Debulham os frutos, com bicos afiados e sonoros, colorindo o solo de branco. E, ainda, continuam a perpetuar o reflorestamento. É que elas voam longe e levam consigo o embrião da árvore mais amada e mais odiada de Goiânia.

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