Lá vem Pio

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Morto precocemente, poeta Pio Vargas desperta interesse por criatividade e irreverência

Livro, intitulado “Se o Amor é Vírus, Eu Quero Ser a Cobaia”, reúne poesias publicados pela editora criada pelo poeta Pio Vargas, Porranenhuma

Yago Sales

A piadinha de que não há livros do poeta Pio Vargas na biblioteca que leva seu nome na Praça Cívica, no Centro, não pode mais ser levada em conta. A reportagem encontrou, em meio às prateleiras, os exemplares raros de um dos maiores nomes da literatura goiana. Além da poesia completa organizada por Carlos Willian Leite (dois volumes e, por isso, autorizada sem restrinções para empréstimos no cadastro da biblioteca), é possível encontrar exemplares únicos de “Os novelos do acaso” (publicado postumamente, pois ganhara a Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, em 1991), “Anatomia do Gesto” e “Janelas do Espontâneo”. E, ainda este mês, deve receber o reforço de um novo lançamento de Pio Vargas, no dia 22 de junho.
Trata-se do livro “Se o Amor é Vírus, Eu Quero Ser a Cobaia”, com manuscritos e intervenções em fôlderes e capas de livros do poeta Pio Vargas. O editor Iúri Rincon Godinho, da Editora Contato Comunicação, tem se desdobrado para lançar luz ao processo criativo do jovem poeta.
Iuri Godinho e o filho do poeta, Rafael Vargas, estão relançando todos os livros que ele publicara em xerox,  pela editora Porranenhuma, um selo muito conhecido na década de 1980 e início de 1990, por meio do qual o poeta demonstrava seu talento com os versos.
É com entusiasmo que Carlos Brandão puxa uma cadeira na biblioteca do Centro Municipal de Cultura Cine Ouro, na Rua Três, no Centro. Brandão é um arquivo em Goiânia, sempre disponível às consultas para recuperar a memória da música, da literatura e do jornalismo goiano nas últimas décadas. Se ele não tiver presenciado, ele certamente ouviu as melhores histórias, dos bastidores, protagonizando tragédias e sucessos de Goiás.
Neste encontro, Brandão, sempre sorridente, relembra o período de amizade que passou rápido demais com um dos mais importantes expoentes da poesia nacional: Pio Vargas.
Exímio contador de história, com uma memória invenjável, eu não poderia deixar de procurá-lo para resgatar um pouco da personalidade do poeta morto precocemente, aos 26 anos, no dia 8 de março de 1991.
“Pio era muito atrevido”, define Brandão. Atrevido mesmo. Desafiava a rigidez mercadológica do cenário cultural da época e ansiava levar cultura por todo o estado. Ele compunha a Secretaria de Cultura, no governo Henrique Santillo. Aproveitou que o governador era um apaixonado pelas letras e assistiu a instalação de 80 secretarias de cultura pelo estado.
Viajava, lembra Brandão, organizando saraus, shows e festas literárias por Goiás. Pio era, sobretudo, um viajante. Sua poesia eleva nosso pensamento aos confins. Pio Vargas era presidente do PMDB goiano e chegou a dividir palanque com o deputado constituinte Ulisses Guimarães.
“nunca fui de vigiar espantos
sobrevivo ante a urgência
de cada mínima coisa
imaginando o que pode acontecer
quando o semáforo sorrir o verde
e o corpo irromper-se
: oceano a morrer de sede”
Pio não tinha pudor com a palavra escrita. Destilava seu talento em versos e traduzia o mundo em poesia. Brincalhão, adulterava a tristeza em frases inteligentes. Ele ca-u-sa-va por onde passava, sempre cercado de jovens artistas em busca de um mapa. Pio era antes de mais nada um mapa. E, caso não tivesse morrido tão precocemente, muito ainda havia de se descobrir de um talento ainda pouco reconhecido. Basta a leitura de um dos livros. Basta, principalmente o nome livro.
Brandão, em meio à conversa, sem conseguir disfarçar saudade pelo amigo, corre à prateleira desorganizada. Apanha o livro “Uma ou Duas Coisas que esqueci de dizer”, de sua autoria. Recolhe ali uma poesia que escreveu ao Pio.
“Depois soube que Pio vivia recitando a poesia que escrevi para ele dentro da casa dele”, conta.
Brandão é um dos principais nomes da música popular feita em Goiás. Com Pio, estava acertado uma parceira. Eles iam fazer um show intitulado “Dois iguais não faz diferença”. Brandão estava munido com uma pasta com poesias inéditas do poeta para transformá-las em letras de música. Não deu tempo.
Pio morreu. Sobrou um Brandão desolado, ao lado de milhares de músicos e escritores.
Carlos Brandão recebeu a missão de organizar o velório. Quando viu o corpo do poeta inconsequente, depois de injetar cocaína à veia, estendido em uma pedra de mármore, deu-lhe um soco. “O mais forte que pude, toda minha força”, relembrou Brandão.
“E saí chorando”.
A morte de Pio Vargas, ainda muito lamentada, ainda é susto. Ainda é inconsolável. Ainda paira o luto nos cantos por que passou Pio, por onde ele se deleitava em versos, rascunha sua curta biografia em risos e tiradas. Por onde ele escrevia, pixava sua bio.
O jeito, agora, é publicá-lo sempre. Com sensibilidade e estardalhaço. Pio era um entusiasta.

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