“Sem líder, Iris se afasta da Câmara”

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Nem base, nem oposição: “Se o prefeito tiver matérias positivas, voto para o bem da população”

Ele é um dos 13 vereadores da legislatura passada reeleitos para continuar representando a população na Câmara Municipal de Goiânia. Aos 45 anos de idade, no segundo mandato, Zander Fábio Alves da Costa, do Partido Ecológico Nacional (PEN), é também primeiro-secretário da Mesa Diretora da Câmara, portanto, acompanha tudo que é decidido em plenário. Além disso, Zander é presidente da Comissão Especial de Inquérito das Contas Públicas, que investiga a origem do endividamento da prefeitura de Goiânia nos últimos anos e as causas do déficit nas contas correntes do Executivo municipal. A CEI já ouviu gente importante, como ex-secretários de Finanças da prefeitura, fez acareação, e o relatório, a cargo do vereador Jorge Kajuru, deve ficar pronto em breve. Além dos trabalhos da Comissão, Zander Fábio fala sobre a relação do prefeito Iris Rezende com o Legislativo, observando que ele está surpreso com a tática do prefeito de, até agora, não ter escolhido o vereador que será seu líder na Câmara. O parlamentar fala ainda de suas atividades fora da Câmara, pois ele, além de vereador e empresário do ramo da construção civil, é cantor sertanejo e, semanalmente, a partir de quinta-feira divide o palco com o parceiro Fernando, com quem forma a dupla Fábio Costa & Fernando.


Manoel Messias Rodrigues e Marcione Barreira

Tribuna do Planalto – A nova legislatura e nova administração estão completando quase seis meses e até o momento o prefeito não indicou o líder dele na Câmara. Como está essa relação dos poderes?
Zander Fábio Alves da Costa – Olha, desde que estou na Câmara, eu nunca vi a Casa ficar sem líder do prefeito um dia. Hoje tivemos a prova de que um líder faz falta. Um veto do prefeito, inclusive uma matéria minha, o veto foi derrubado por 25 votos a 0. Então isso já demonstra a falta que o líder faz na Casa. Mas é uma legislatura diferente. Muita gente nova na Câmara. Só treze dos 35 vereadores foram reeleitos. Eu tenho visto com bons olhos esse trabalho legislativo com pauta esgotada todos os dias. Tenho gostado do que tenho visto.

Sobre a falta do líder, quando o prefeito esteve na Câmara para prestar contas, ele disse que gostaria que os vereadores sugerissem um nome para ser o líder dele no Legislativo… Seria possível?
Olha, eu entendo que essa é uma prerrogativa do prefeito. Não existe na nossa lei orgânica a votação para escolha do líder do prefeito. O líder do prefeito é uma pessoa próxima ao governo, indicada pelo Executivo, uma pessoa que defende os interesses do governo. É claro que ele pode ouvir os vereadores, mas a decisão é feita pelo prefeito.

Isso demonstra o quê, no seu entendimento?
Não tivemos ainda projetos de relevância a não ser o Refis, que está aí, inclusive com pedido de vistas, que é um projeto que na minha opinião é importante porque vai gerar quase R$ 100 milhões de recursos para a prefeitura. Eu, sinceramente, não entendo. Acho que se for uma estratégia política – a demora na escolha do líder – não é válida, porque demonstra um afastamento do Executivo com o Legislativo.

“O líder do prefeito é uma pessoa próxima ao governo, indicada pelo Executivo. É claro que ele pode ouvir os vereadores, mas a decisão é feita pelo prefeito”

No começo dessa legislatura alguns blocos foram formados devido, inclusive, a essa ausência de representante do Executivo na Câmara…
É. Eu trabalhei com um bloco que foi muito bem sucedido na legislatura passada com quatro vereadores. Votamos unidos durante quatro anos. Foi sempre quatro a zero. Muito bem sucedido. Isso levou os novos vereadores que chegaram aqui a fazer esse bloco. Alguns blocos foram feitos para composição das Comissões Especiais de Inquérito. Eu mesmo participei de um que não existe mais para que fosse composta a CEI e que nós tivessemos êxito na votação da comissão. Hoje tem um bloco de seis vereadores que atua, mas não vota de forma uniforme. Bloco para funcionar tem que votar em média seis a zero, cinco a zero.

De qual lado o senhor está, apoia o prefeito, é oposição?
Sempre votei com muita independência. É claro que discutindo com algumas pessoas e tal, mas continuo com independência. Não sou base do prefeito Iris Rezende. Mas também não sou oposição. Meu partido compôs a base que deu a vitória para o Iris no segundo turno, mas não fazemos parte de nenhuma secretaria, não temos secretários ligados ao partido. Então eu tenho tido uma liberdade muito grande para votar aquilo que é de interesse da população. Eu quero ajudar. Se o prefeito tiver matérias que são positivas, vou votar para o bem da população.

“O trabalho da CEI das Contas é apontar indícios  de irregularidades”

Qual é o objeto específico da Comissão Especial de Inquérito das Contas da prefeitura, que é presida pelo sr.?
É uma CEI muito ampla. Por exemplo, a CEI da Secretaria Municipal de Trânsito ela vai focar somente na SMT, a do transporte coletivo, só no transporte coletivo. Essa tenta mostrar qual a causa de a prefeitura ter um déficit de R$ 30,7 milhões em média ao mês, além de um aumento significativo na sua dívida consolidada no período entre 2008 e 2016. Começamos através de uma pesquisa com o Tribunal de Contas dos Municípios daqueles processos que tiveram algum tipo de suspeita. É uma CEI ampla que a gente tem focado mais na questão dos fundos, no contrato da Comurg com a empresa Ita Transporte, nos contratos ligados à saúde. E se há indícios de que houve algum tipo de irreguraridade, prejuízo ao município. Mas vai caber ao vereador Jorge Kajuru, que é o relator da CEI, fazer o relatório final.

Pelo que foi apurado até agora, há indícios de irregularidades. Já foram ouvidos ex-secretários e descobertas algumas contradições…
Sim. Houve muitas contradições. O trabalho da CEI é apontar se há indícios de irregularidades e remeter ao Judiciário, cabendo ao Ministério Público e à própria Justiça acatar ou não os argumentos, os indícios. O trabalho dessa comissão tem sido muito bem feito, com reuniões todas as segundas e quartas-feiras, sempre com no mínimo dois convocados para prestar esclarecimentos. Então tem sido muito produtivo.

O ex-secretário de Finanças Cairo Peixoto, que ficou pouco tempo na gestão Paulo Garcia, disse que devido à irresponsabilidade do prefeito com as contas públicas, ele decidu deixar o cargo. O principal período investigado é o do Paulo Garcia. As irregularidades estão na gestão do ex-prefeito petista?
O período que o Paulo ficou foi um período maior. Existe irregularidades nos dois períodos. O ex-secretário Cairo Peixoto veio aqui e deu a versão dele. O ex-prefeito Paulo Garcia vai ter oportunidade também de dar a sua versão. É isso que a gente faz. Vem, ouve as pessoas, sempre com muito respeito. Elas vêm aqui na condição de convocados, têm o direito de ficar caladas, mas as pessoas têm contribuído e aí ao final a gente vai ter condições de fazer essa análise com o material que a gente tem em mãos e ainda aqueles que ainda vão chegar para a gente detectar onde é que ocorreram os problemas.

Quais os próximos passos da CEI?
Ainda tem muita gente para ser ouvida. Paulo Garcia vai ser ouvido, está convocado. Está convidado o prefeito Iris, porque ele não pode ser convocado. Pelo que eu tenho ouvido, já disse que vem. Existem alguns secretários e depois segue para o relatório final.

Os sr. além de vereador tem outras atividades, como cantor sertanejo. Tem conseguido conciliar as agendas?
Tenho uma agenda permanente da dupla que se chama Fábio Costa e Fernando e que, de quinta-feira para frente, é agenda cheia e já está lotada até o final do ano. Também sou corretor. Gosto de corrida de automóvel. Tenho seis títulos centro-oeste, um título brasileiro. Sou atleticano. Joguei nas categorias de base do time. Já fiz de tudo um pouco.

Os sr. foi denunciado pelo Ministério Público pelo crime de peculato durante passagem pela extinta Comob (Companhia Municipal de Obras). Como estão esses processos?
Todos os processos foram arquivados.

“O Iris teve o tempo. Daqui pra frente tem que começar a funcionar”

Na legislatura passada o Bloco Moderado atingiu relevante sucesso e esse ano o sr. liderou esse grupo que foi extinto. O que houve que não vingou?
É porque a proposta era diferente. O Bloco Moderado foi feito com a proposta de atuação forte de plenário. Tivemos o Bloco Moderado decidindo várias votações. Várias votações importantes passaram pelo Bloco Moderado. Esse bloco que foi feito com seis vereadores e tinha, inclusive, pessoas da base que nós sabíamos que para efeito de votação, agora, ele não funcionaria.

O sr. mencionou o prefeito Iris Rezende. Que avaliação o sr. faz desses cinco primeiros meses da gestão Iris?
Olha, eu acho que as prefeituras passam por uma crise financeira. Todas elas. As folhas de pagamento com o natural crescimento vegetativo não há muito o que fazer porque os benefícios dos trabalhadores não tem como você extinguí-los. Acho que o Iris teve o tempo. Daqui pra frente tem que começar a funcionar. Tem umas pastas que não esperam, por exemplo, a pasta da saúde não espera. Então as ações têm que ser mais efetivas. Eu acho que daqui pra frente ele tem de por tudo em ordem. Ele tem muita experiência administrativa, política. Esse tempo acho que já foi suficiente para ele por a casa mais ou menos em ordem para as coisas começarem a funcionar.

A realização dos mutirões é um sinal que demonstra a retomada das ações do Executivo, o funcionamento pleno da prefeitura?
É uma bandeira que o prefeito tem. Eu acho que os tempos são outros. Acho que o mutirão nos moldes que ele é feito é um retrocesso. Hoje estamos na era da tecnologia. Acho que o primeiro mutirão que tínhamos que ter era o da saúde. Tínhamos que colocar as unidades de saúde em condições de receber as pessoas que estão enfermas. Tínhamos que fazer o que tem feito o João Dória, prefeito de São Paulo, com todas as críticas que tem. Hoje lá eles estão andando atrás das pessoas para fazer consulta. Todas aquelas pessoas que estavam na fila foram zeradas. Eu acho que tem que ser revisto é o modelo.

A Câmara sempre é uma caixa de ressonância de como anda a prefeitura porque ela sempre está aberta para pessoas que aqui vêm diariamente com reclamações, sugestões. Recentemente o vereador Felisberto Tavares entregou o cargo de secretário Municipal de Trânsito. Como o sr. avalia o secretariado do prefeito Iris Rezende?
Olha, eu tenho feito algumas críticas pontuais. A secretária de Saúde, por exemplo, já está em tempo dela mostrar serviço, a que veio. O secretário de Educação também, o Marcelo Ferreira. O que precisamos é de efetividade, de ação. Tivemos que entrar com ação para que a criança tivesse direito a Cmei para que a mãe pudesse ir trabalhar. Acredito que tem que haver uma sintonia maior entre o chefe do Poder Executivo e seus secretários para que os serviços básicos não sejam ceifados.

Aproveitando que o senhor mencionou a saúde, o sr. trabalha muito nessa área e propôs um projeto instituindo o ponto eletrônico para os médicos. Como está isso?
O projeto foi aprovado e transformado em lei e a prefeitura acatou. Se não me engano, já foi licitado o procedimento de implantação das máquinas. Houve uma resistência, mas está aí. Eu entendo que o médico da prefeitura não tem uma renumeração boa, mas quando ele foi pra lá, passou por uma seleção, ele sabia que a renumeração era aquela. Então, ele não pode usar a prefeitura como um bico e sair de lá sem atender as pessoas, sem prestar o serviço para o qual foi contratado. Não pode ser assim. Ele tem que cumprir horário como qualquer trabalhador. Por isso, nós propusemos o projeto, para que haja transparência.

Esse é um problema crônico. O sr. acredita que com uma boa gestão resolveria esses problemas da saúde, atendimento eficaz nas unidades 24 horas?
Eu entendo que sim. Vou citar o exemplo do prefeito João Dória em São Paulo. A secretária Fátima, eu conheço muito pouco, sei que é uma pessoa de muito conhecimento, mas eu sempre a crítico. Acho que falta uma ação mais efetiva, de campo, trazer a comunidade para perto. Ninguém conhece melhor a região do que as pessoas que moram nela. Então é preciso trazer a direção para perto da sociedade.

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