Estudo apontou também que Goiás é o quarto estado mais violento do País. Coordenador da pesquisa ressalta que educação é a solução para a violência

Yago Sales

Patrícia não sabe o que fazer. Dois dos quatro filhos foram assassinados em Novo Gama, Goiás, em um intervalo de nove meses. Os filhos se envolveram com a criminalidade local depois de descobrirem as drogas em frente à escola. “Eu não sei o que fazer com os outros dois, que não param em casa e não me respeitam”, desabafa em uma conversa rápida pelo telefone com a reportagem.
Ela foi morar em Novo Gama, cidade mais violenta de Goiás, segundo Atlas da Violência 2017, depois que o marido foi assassinado em uma disputa por ponto de drogas quando Patrícia estava grávida do caçula, quando a cidade tinha muita promessa de emprego. Deixou o Maranhão com a esperança de não ver mais sangue no chão castigado pela seca.
“Aqui, moço, não sei o que é ter paz”. Ela silencia. Só fala se alguma pergunta ultrapassa os fios do telefone até os ouvidos que a fizeram escutar os tiros que mataram o primeiro filho. “Não consigo dormir mais. Com o segundo morto, eu não tenho mais motivação nem mesmo para acreditar em Deus”.
O estudo, divulgado no início de junho, informa ainda que Goiás é o 4° mais violento. O Estado contou com quatro municípios, com mais de 100 mil habitantes, num total de 204 cidades, para inspeção, por meio de dados oficiais, de vítimas de violência.
O estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) revelou que o município com maior taxa de homicídio em Goiás é Novo Gama, no Entorno, que teve 79 homicídios em 2015, sendo o 20° na lista. Seguido por Luziânia, Senador Canedo e Trindade, em 21°, 24° e 26°, respectivamente.
Em relação às motivações de alta elevação da violência, sobretudo em região mais desassistidas do Estado, é encarado como um problema de gestão. Em entrevista à Tribuna do Planalto, o coordenador do Atlas da Violência 2017,  Daniel Ricardo de Castro Cerqueira, pesquisador do Ipea, esclareceu que existem vários fatores que podem explicar o índice de violência em Novo Gama.
“O primeiro ponto que explica violência e paz tem a ver com a educação. Quanto mais fora da escola, mais crime você vai ter nas cidades”, enfatiza o pesquisador.
Com isso, é possível perceber o desenvolvimento humano vulnerável e política pública sem embasamento em prevenção”, esclarece.
“A confiança, a vigilância mútua, são enfraquecidas.  Uma cidade que cresce rapidamente cria oportunidade para criminosos profissionais e mais chances para eles fugirem da polícia”, explica Daniel Ricardo.
A política local, diz, precisa se basear nos diagnósticos para a prevenção de crimes olhando sobretudo para crianças e jovens. Quanto ao que fazer, o pesquisador é enfático: “Infelizmente no Brasil a Segurança Pública é sinal de repressão, mas deveria estar balizado na inteligência, com ostensivo reativo, levando em conta a vida”. Para ele, o Atlas não traz nada de novo e critica a atenção dada apenas com a publicação do estudo. “Tem que dar atenção à violência todos os dias”.

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