O discurso da inconsequência

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Após a segunda discussão com seu marido, ela pegou suas malas e foi embora de casa. Ele ficou perplexo olhando as contas de água, energia, telefone. Queria apenas sentar e fazer com sua companheira o orçamento, planejar os gastos de casa. A mulher, contrariada, dizendo que não se sujeitaria a tamanha humilhação, fez as malas e partiu. “Papai nunca me fez passar por tamanha humilhação!”, esbravejou ela.
Um dos agentes democráticos da vida é a busca de nosso pote mágico de ouro, o gênio da lâmpada, o sapatinho de cristal, o gorro do Saci, a mega-sena acumulada, um malote de dinheiro perdido, algo que sacie nossos desejos sem esforço, a magia da felicidade. Todo mundo quer ser feliz, do bandido na penitenciária à madame com sua bolsa mágica de quarenta mil reais. É a base de pensamento dos políticos e dos funcionários públicos improdutivos.
Em um universo consumista, a ilimitação é o item mais desejado por todos.
Poder sem limites. Sonho estampado em cartão de crédito, atestado pelo Banco Central, com direito a comprar tudo e quase todos, sem esforços.
Diariamente, na massificação da mídia, neste senso comum operário, o sonho tornou-se onipotência, o desejo intenso de crescer sem limites.
Começa na infância, nas mega-lojas de brinquedos infantis, escorrega para um videogame que dá a sensação de super-poderes, passa pela adolescência no virtual da tecnologia, terminando nos programas de auditório que fazem sonhar com o nada.
A educação dos dias de hoje acentua, em todos os aspectos, o sentimento de onipotência, megalomania, o estado eufórico, a ilimitação. Todavia, fazendo isso criamos quotidianamente nossos monstros modernos: assassinos em série, esquartejadores, assaltantes, dependentes químicos, preguiçosos, enfim, toda uma série de indivíduos que, por não reconhecerem seus limites, quebram aspectos ligados a socialização primária que lhes garante o direito ao convívio saudável em sociedade.
Estamos criando pessoas hedônicas, egoístas, incapazes de lidar com a frustração, com os limites. Indivíduos que não semeiam nada, tampouco colhem alguma coisa. São inconsequentes, embora busquem sua felicidade.
Pessoas improdutivas que inclusive vão contra o sonho eldorado operário de produzir para ter dinheiro para o consumo.
Buscar o caminho de auto-realização, querer encontrar seu processo de individuação, exige esforço, dedicação, persistência, obstinação, percepção da própria afetividade e a busca insaciável pelos dons naturais que todos nós temos.
Todavia, uma pessoa inconsequente desiste na primeira dificuldade que surgir por não ter em sua estrutura de personalidade a condição psíquica para lidar com a frustração. É o mesmo mecanismo que mobiliza um bandido antes de um assalto!

Jorge Antônio Monteiro de Lima,  analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e  mestre em Antropologia Social pela UFG.

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