Carta pro amigo João – sobre o isolamento

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“- Olá, como vai? Eu vou indo e você, tudo bem? Tudo bem eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro, e você ?
– Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranquilo, quem sabe… Quanto tempo… pois é…
– Quanto tempo… Me perdoe a pressa. É a alma dos nossos negócios.
– Oh! Não tem de quê. Eu também só ando a cem Quando é que você telefona?
– Precisamos nos ver por aí pra semana, prometo talvez nos vejamos.
– Quem sabe? Quanto tempo”…

Estes dias recebo uma mensagem eletrônica de um amigo dizendo que estava de cama há 10 dias, e que muitas pessoas não sabiam de seu estado. Pois é quanto tempo… na hora lembrei da música de Paulinho da Viola e me questionei. O que temos feito de nosso tempo? Na pressa dos nossos negócios, no quem sabe da existência…
Hoje, João, reclamamos da violência urbana, da corrupção, do desleixo do bem coletivo, do abandono de nossa cidade largada no lixo.
Meu amigo observamos o isolamento das pessoas, da falta de preocupação com os que estão  próximos, de solidão, de falta de afeto. Porém, hoje tanto na esfera pública quanto na pessoal há um movimento institucionalizado bem característico que pode ser traduzido por egoísmo. Cada um vivendo sua vidinha, cada um em um canto no máximo trocando uma mensagem eletrônica pra lembrar aos outros: estou vivo. Pra não dizer que em muitos dos casos a ideia é: “o que vou ganhar com isto?”.
Na hora que precisamos, da doença, dos problemas mais graves da existência,  o povo some. Ninguém quer saber do problema dos outros, o que vou fazer por aí, se mal dou conta dos meus problemas. Isso quando não emergem as críticas diretas e indiretas que justificam pro próprio indivíduo o afastamento.
Pra que ser solidário, lembrar de telefonar ao amigo,  perder tempo meia hora da semana pra ver como vão as pessoas que dizemos queridas? Um dia distraído você depara em um canto  de rodapé que o amigo se foi, está lá nas notas de falecimento… morreu de que mesmo? Estava doente?
Amigo João, há um intenso encolhimento da sociabilidade entre as pessoas.
Às vezes até encontramos várias delas juntas conversando, discutindo, mas na maior parte das vezes o que impera é a superficialidade. Por isto, vejo tantas pessoas reclamando de dificuldade para se ajustar, de estar no meio de muitas pessoas mas sentindo se sozinhas.
Natural, amigo João, falta alma, contato com a própria essência, amor ao próximo como a ti mesmo. Na atualidade pra muita gente isto é perder tempo. Pra quecumprimentar, elogiar, ser gentil e cordial e trocar carinho, afeto?
Melhor ficar cada um em seu mundinho, com tédio, com a apatia, reclamando da vida infeliz, chata. Quantas vezes não ouço isto em minha prática profissional como analista e psicólogo clínico… solidão e alta tecnologia.
Mas uma hora amigo João vou até ai te dar um abraço e tomar um cafezinho, mesmo sem ser convidado. Não quero ser polido, nem marcar hora. Formalidades excessivas estragam a naturalidade de uma amizade.
Abraço e estamos juntos!

Jorge Antônio Monteiro de Lima,  analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e  mestre em Antropologia Social pela UFG.

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