Morte de radialista ainda sem punição 5 anos depois

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Manifestação realizada na semana passada com a presença de familiares de Valério Luiz, entre eles, o deputado Mané de Oliveira, pai do cronista esportivo. Filho de Valério destaca trabalho para evitar que caso caia no esquecimento

Presidente do Atlético Clube Goianiense e dois policiais militares estão entre os acusados pela morte do jornalista esportivo. Decisão de 2014 determinou que réus vão a juri popular, mas data do julgamento ainda não foi definida

Yago Sales

Desde 5 de julho de 2012, Valério Luiz Filho, até então um jovem advogado tributarista, tem se dedicado incansavelmente para ver na cadeia os assassinos do pai, o cronista esportivo Valério Luiz de Oliveira, que contava com 49 anos, dos quais 35 dedicados ao jornalismo. Na quarta-feira, 5, completaram-se cinco anos do crime, sem a punição dos acusados, data em uma manifestação foi realizada no centro de Goiânia para pedir punição aos apontados como assassinos do radialista.
Segundo investigações da Polícia Civil, Maurício Borges Sampaio, à época vice-presidente do Atlético Clube Goianiense, encomendou o assassinato depois de comentários do jornalista no programa “Mais Esportes”, da PUC TV e na Rádio Jornal 820 AM, agora Rádio Bandeirantes, em desfavor da diretoria do time, especialmente a Sampaio, que nega envolvimento com a morte.
Na tarde do crime, como fazia cotidianamente, o jornalista ficou no ar de 12h às 14h na rádio Rádio Jornal, no setor Serrinha. Na saída do trabalho, ele chegou a dar partida no carro, mas seis disparos de revólver calibre 357 o atingiram dentro de seu Ford K preto, em frente à rádio. Valério morreu antes de o socorro chegar, deixando familiares, amigos de imprensa e fãs do futebol goiano perplexos com a barbárie.
De acordo com a apuração da Polícia Civil, estão envolvidos no homicídio o cabo da PM goiana Ademá Figuerêdo Aguiar Filho, 44 anos, conhecido por Figuerêdo; o sargento Djalma Gomes da Silva, conhecido por Da Silva; o atual presidente do Atlético Goianiense,  Maurício Borges Sampaio, 59; o açougueiro Marcus Vinicius Pereira Xavier, 33, conhecido por Marquinhos; e Urbano de Carvalho Malta, 38.
No artigo intitulado Por que mataram meu pai, que está disonível no site da Ponte (ponte.org), Valério Luiz Filho, advogado de acusação no caso e presidente do instituto que leva o nome do pai, lembra os momentos de angústia quando soube da morte do cronista e dá detalhes do inquérito. “Na véspera ocorrera nossa última conversa. Ele entrara na sala de televisão para me perguntar rapidamente sobre uma empresa que havia me contatado e fora dormir. No dia seguinte saiu cedo, não o vi. Fui almoçar em casa para conversarmos melhor depois do seu programa”, escreveu.
Em entrevista na sacada com vento friorento no 21° andar de um prédio em Goiânia, Valério Luiz Filho explicou à reportagem os motivos da morosidade no processo. “Teve uma decisão que os mandou a júri popular que saiu em agosto de 2014. Desta decisão cabe recurso e eles estão recorrendo”. Ele acredita que os réus vão “apelar para expedientes processuais o máximo que puderem” para adiar a data do julgamento e tentar “amainar a opinião pública, sair da atenção, para o caso ser esquecido”.
“Estamos com um trabalho há muito tempo para evitar que o caso caia no esquecimento, manter as atenções focadas para o andamento do caso, e evitar que a intenção deles se cumpram. A opinião pública propicia que o julgamento do caso corra mais rapidamente e os juízes tendem a julgar melhor e com mais atenção quando o caso tem alta repercussão”, afirma Valério Filho.
O filho do radialista não tem dúvida a respeito do envolvimento dos cinco apontados pelo crime. “Várias ocorrências lhes colocam no local do assassinato. Em primeiro lugar, quem tinha um motivo para o crime era o Maurício Sampaio”.
Nos meses anteriores à morte do cronista esportivo, várias críticas no programa esportivo na TV e no rádio eram endereçadas à diretoria do Atlético Goianiense. “Especialmente ao vice-presidente, que à época era o Sampaio. Críticas muito pesadas, acusando-o de comprar resultados, que os patrocinadores do Atlético eram tenebrosos, com escândalos financeiros, afirmando que o clube funcionava como lavanderia de dinheiro. O clima ficou muito pesado entre meu pai e a diretoria do Atlético Goianiense a ponto de proibirem a entrada do meu pai no clube, por meio de um ofício enviado tanto à Rádio Jornal e à PUC TV, onde ele trabalhava”.
Sob determinação da diretoria, a equipe técnica do time se negava a dar entrevistas a veículos nos quais o cronista trabalhava. “O jornalista Charles, que trabalhava na rádio 730, que tinha como um dos donos o Sampaio, e com meu pai na PUC TV, foi forçado pelo Maurício a deixar o canal. Não admitia que quem trabalhava com ele andasse com seus inimigos”.
Um dos diretores na PUC TV chegou a procurar Sampaio, em seu cartório, para tentar dissuadi-lo de forçar o jornalista Charles Pereira a sair da equipe em que trabalhava o cronista esportivo. “Sampaio ficou irredutível e dizia a jornalistas que iria aposentar meu pai mais cedo. Todo este contexto colocou o Maurício Sampaio como um dos principais suspeitos”, diz.

Valério teve sua morte encomendada após comentários em programa esportivo em desfavor da diretoria do Atlético
Valério teve sua morte encomendada após comentários em programa esportivo em desfavor da diretoria do Atlético

Outro lado
A reportagem procurou os advogados de Ademá Figuerêdo Aguiar Filho, Djalma Gomes da Silva, Urbano de Carvalho Malta, Maurício Borges Sampaio e Marcus Vinicius Pereira Xavier, mas não obteve respostas a pedidos de entrevistas. A assessoria de imprensa do Atlético Clube Goianiense disse que o time não se pronuncia sobre o caso, por se tratar de “cunho pessoal”.

 

 

Cronologia do caso

P11_BOX 1_cena crime

5 de julho de 2012 – Por vo

lta das 14h, o jornalista Valério Luiz de Oliveira deixa as dependências da Rádio Jornal 820 AM, entra em seu carro e é surpreendido por um homem que, montado numa moto, lhe desfere seis disparos de arma de fogo. O jornalista faleceu instantes depois, ainda dentro de seu carro.

10 de julho de 2012 – Carta anônima é enviada a todos os veículos de imprensa e gabinetes de autoridades de Goiás narrando diversos crimes perpetrados por policiais militares, ligando o assassinato de Valério Luiz à diretoria do Atlético Clube Goianiense e apontando o cabo da PM Ademá Figuerêdo como o autor dos disparos.

1 de fevereiro de 2013 – A Polícia Civil de Goiás prende temporariamente o açougueiro Marcus Vinícius Pereira Xavier, o faz-tudo Urbano de Carvalho Malta e o sargento da PM Djalma Gomes da Silva, que atuava no Comando de Missões Especiais.

2 de fevereiro de 2013 – A Polícia Civil de Goiás prende temporariamente o então tabelião e vice-presidente do Atlético Clube Goianiense Maurício Borges Sampaio.

14 de fevereiro de 2013 – O cabo da PM Ademá Figuerêdo Aguiar Filho, que também atuava no Comando de Missões Especiais e já se encontrava preso preventivamente por suspeita de envolvimento em uma chacina, é interrogado na sede da Delegacia Estadual de Investigação de Homicídios (DIH).

26 de fevereiro de 2013 – A Polícia Civil de Goiás finaliza o inquérito, indiciando Marcus Vinícius Pereira Xavier, Urbano de Carvalho Malta e Djalma Gomes da Silva como articuladores do homicídio, Ademá Figuerêdo Aguiar Filho como autor dos disparos e Maurício Borges Sampaio como o mandante do crime.

27 de fevereiro de 2013 – O Ministério Público do Estado de Goiás denuncia os cinco indiciados por homicídio duplamente qualificado.
28 de fevereiro de 2013 – Maurício Sampaio consegue habeas corpus na 1° Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Goiás.

1 de março de 2013 – O juiz Lourival Machado, da 2ª Vara Criminal de Goiânia, converte em preventiva as prisões temporárias de Marcus Vinícius, Urbano Malta e Djalma da Silva, bem como decreta prisões preventivas para Ademá Figuerêdo e Maurício Sampaio, que retorna ao complexo prisional no dia seguinte.

5 de março de 2013 – Em novo habeas corpus, Maurício Sampaio é solto por decisão liminar do desembargador Gérson Santana Cintra.

14 de março de 2013 – No julgamento deste segundo habeas corpus pelos outros desembargadores, acaba vencido o entendimento de Gerson Santana e a prisão preventiva é convalidada. Itaney Campos, muito criticado por não ter votado em 28 de fevereiro, desta vez conduz o voto contrário ao pedido do cartorário, que, naquela tarde, se recolhe ao Núcleo de Custódia pela terceira vez.

4 de abril de 2013 – Um delegado do 4º Distrito Policial de Goiânia, Manoel Borges de Oliveira, toma depoimento de um dos réus, o açougueiro Marcus Vinícius, fazendo fraudulentamente constar que Maurício Sampaio não teria participação no crime. A defesa do cartola impetra novo habeas corpus.

P11_Box 3 - Maurício Sampaio21 de maio de 2013 – Tribunal de Justiça de Goiás acata o pedido de Maurício Sampaio e o coloca em liberdade. Ele não mais seria preso preventivamente depois desta data.

23 de maio de 2013 – O delegado Manoel Borges é afastado das funções por suspeita de irregularidades na oitiva de Marcus Vinícius Pereira Xavier.

29 de maio de 2013 – O juiz Antônio Fernandes de Oliveira revoga as prisões preventivas de Urbano Malta, do cabo Ademá Figuerêdo, do sargento Djalma da Silva e do açougueiro Marcus Vinícius.

24 de março de 2014 – Marcus Vinícius é declarado fugitivo da justiça e, com evidências de que teria deixado o Brasil, o juiz Lourival Machado requer a inclusão do nome do réu na lista de procurados da Interpol.

3 de junho de 2014 – O delegado Manoel Borges de Oliveira é denunciado pelo Ministério Público por falsidade ideológica (fazer inserir declaração falsa em documento público).
8 de agosto de 2014 – Em cumprimento de mandado internacional, Marcus Vinícius é capturado na região de Caldas da Rainha, Portugal, e devolvido ao Brasil.

12 de agosto de 2014 – O juiz Lourival Machado manda a júri popular todos os réus: Marcus Vinícius, Urbano Malta, Ademá Figuerêdo, Djalma da Silva e Maurício Sampaio.

5 de janeiro de 2015 – Maurício Sampaio assume a Presidência do Atlético Clube Goianiense, time contra o qual Valério Luiz teria desferido as críticas que lhe custaram a vida.

23 de outubro de 2015 – O caso Valério Luiz ilustra audiência temática sobre violência contra jornalistas realizada na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em Washington, D. C., nos Estados Unidos.

12 de dezembro de 2016 – Maurício Sampaio é reconduzido a mais um biênio na Presidência do Atlético Clube Goianiense.

Marcus Vinícius, Djalma Gomes da Silva, Urbano de Carvalho Malta e Ademá Figuerêdo
Marcus Vinícius, Djalma Gomes da Silva, Urbano de Carvalho Malta e Ademá Figuerêdo

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