Naturalmente corrupto

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A naturalização do fenômeno da corrupção é um dos processos da pós-modernidade transoceânico que deixaria de cabelos arrepiados Nicolau Maquiavel. Foi decretado lícito ao político ser e viver de forma corrupta, em uma das inversões de valores presentes na civilização da pós-modernidade. O bem privado coletivo transformado em forma de enriquecimento lícito, e o ilícito maleável dentro de uma conveniência.
Observando os dois últimos pleitos regionais deparei com um cenário interessante: rara pessoa digna, com ideologia partia para o rumo da política. Vi vários casos de desempregados, agiotas, de trapaceiros, de caloteiros conhecidos mais que de repente aparecerem dentro do horário da propaganda eleitoral prometendo o mesmo de sempre: que iriam trabalhar pela família cristã, pelo combate da violência, por mais emprego pela educação e melhoria da qualidade de vida.
Questionei publicamente o processo das campanhas eleitorais que não dão direito a voz e a manifestação de plataformas claras de campanha. Vi vários candidatos prometendo absurdos, como vereadores prometendo mudar tributos federais, coisa muito longe de sua alçada administrativa.
Percebi que muito eleitor, além de corno, ama ser traído para depois justificar seu calvário, reclamando eternamente de uma raça política que ele próprio persiste em eleger. Em quem foi que você votou nas últimas eleições? O que seu candidato fez? Seu nome está envolvido em algum dos escândalos da atualidade?
Hoje, diariamente nos noticiários leio notícias de políticos envolvidos em escândalos de corrupção. Mas pior que isto é ver que boa parte da população está acostumada com o absurdo da roubalheira, já não mais existindo a indignação diante dos fatos que são absurdos, evidenciando a naturalização do fenômeno da corrupção que alguns dizem ser normal no meio da política.
Piora quando querem justificar o ato de roubar e/ou de desviar verbas por ideologias: todo mundo rouba por que o do meu partido não pode roubar? A construção deste discurso atual chocaria Michel Foucault numa normalidade anormal. Uma comédia do absurdo sem graça.
Nós nos acostumamos no Brasil a viver em um cenário exploratório. Brasil que jamais deixou de ser colônia ou subdesenvolvido. Todavia, acentua nos últimos tempos a quantidade de subterfúgios existentes, criados como leis para safar bandidos de crimes ligados à política: imunidade parlamentar, e tantas outras brechas legais existentes para tudo acabar em impunidade.
Tudo certo, ninguém preso nem Lula, Fernando Henrique, Aécio, Temer… todo mundo solto, pronto para voltar ao poder no próximo pleito, não interessa quanto de verba tenha sido desviada. Mas o pior não é este fato cruel da impunidade, é a conveniência e acomodação de um povo sofrido, que hoje acha normal e natural roubar, pagar impostos altíssimos para sustentar mordomia de políticos…

Jorge Antônio Monteiro de Lima, analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e mestre em Antropologia Social pela UFG.

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