Contradição

0
405

“Pra pedir silencio, eu berro”…e vamos suspender os jardins da babilônia! Ela pedia carinho evitando estar perto. O governo quer diminuir a inflação aumentando os impostos da gasolina. Ele fala de ideologia mas na prática não aplica nada do que prega… Ela fala de relacionamento sério e brinca com os sentimentos de quem a ama.
Contradição é a marca do espelho borrado da pós- modernidade que não se presta mais a evidenciar a identidade, mas tão somente a denotar a imagem para a observação do outro em pleno narcisismo. O reflexo que não gera consciência e auto-observação. Hoje não é raro encontrarmos militantes de esquerda praticando a cultura neoliberal, ou encontrarmos religiosos capitalistas no mais profundo culto à incoerência, no antagonismo, no tudo misturado.
Qual é sua contradição?
No eixo neurótico da pós-modernidade, na constelação dos Complexos, na cultura da ansiedade, na volatilidade de valores em que vivemos é natural que a confusão torne-se o altar dos paradigmas existenciais. Discurso de bonança, prosperidade, “me dei bem” contrapondo uma prática de vida sofrida, sofrimento por ideal, convicção, estilo de vida. E o que fazer da vida no dia em que não sofrer?
Um processo autofágico hoje extremamente presente nas vivências coletivas. Falamos de autocuidado, de sucesso, de crescimento e ao mesmo tempo vivenciamos a auto-destrutividade de forma ampla. Um exemplo: no Brasil por uma década se postulou o voto ficha limpa, que deveria retirar do pleito eleitoral políticos corruptos; corrupção se tornaria crime hediondo. Todavia, na última eleição a população elege mais de 50% de candidatos que têm ficha policial corrida, o bandido no poder!
Cultuar e enamorar bandidos lhes dando poder e depois reclamando da sorte de um cenário construído pelo próprio cidadão: brevê de otário é titulo de eleitor! Em quem mesmo que você votou nas últimas eleições? Em quantos escândalos seu candidato está envolvido?
Nelson Mandela em sua Carta a Effie Schultz afirmou:
“As contradições são uma parte essencial da vida e nunca deixam de dividir a pessoa”… O conflito moral, ético e de identidade está na tentativa de unificar os preceitos do inconsciente tornando-os consciência, trazer à luz aspectos instintivos da vida, em uma busca de coerência. Coerência esta que detém a chave da evolução. A dualidade arquetípica na vivência de opostos quando erigida no radicalismo ou na falta de diálogo entre estes opostos gera psicopatologias e na atualidade as vivemos no cenário ideológico, político, religioso, administrativo, nos relacionamentos interpessoais.
Em meu consultório não é raro receber pessoas levantando bandeiras, vivenciando “-ismos”, sujeitos posicionados que apregoam uma ideologia mas que embora vivendo uma identidade de grupo, um movimento social, na prática estão muito aquém do que pregam, por vezes não acreditando na própria ideologia que apregoam. É hora de fitar os próprios olhos no espelho e se redescobrir… buscar a coerência para sobreviver na turbulência dos tempos atuais.

Jorge Antônio Monteiro de Lima, analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e mestre em Antropologia Social pela UFG.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here