MEC prepara matriz curricular do novo ensino médio

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Ao propor a flexibilização da grade do currículo, o novo modelo permitirá que o estudante escolha a área de conhecimento para aprofundar seus estudos

Neste momento a reforma do ensino médio aguarda a definição da nova Base Nacional Comum Curricular, que dará orientação a toda a formação dos currículos

Fabiola Rodrigues
e Manoel Messias Rodrigues

Criticada no meio acadêmico, a reforma do ensino médio definida pelo Governo federal é vista por uma parte dos educadores como um avanço e como retrocesso para outros. No entanto, essas modificações estão estagnadas, aguardando a definição da nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC). A reformulação das matérias obrigatórias, chamada matriz curricular, norteará todas as demais mudanças no ensino médio.
Coordenador-geral do Ensino Médio do Ministério da Educação (MEC), o goiano Wisley Pereira acredita que a reforma está sendo realizada em um momento crucial da educação. Ele esperava por este momento há anos.
“As melhorias acontecerão para o estudante e professor. Todos serão incentivados a viver um modelo melhor de ensino, quanto a isso não tenho dúvida. Os benefícios serão desde o material didático, a maior capacitação dos professores ao ministrarem aulas. E a implantação do novo modelo de ensino, com certeza será estabelecida em cada estado de acordo a realidade dele”, afirma, confiante, o coordenador.
A reforma do ensino médio foi proposta pelo presidente Michel Temer em setembro do ano passado e foi aprovada pelo Congresso Nacional, em meio a críticas, em fevereiro deste ano, quando foi sancionada pelo presidente da República. A aplicação de boa parte das medidas mais importantes – como redução do número de disciplinas obrigatórias, flexibilização da grade curricular, aumento da quantidade de aula, ensino regular aliado ao técnico – deve ocorrer ao longo dos próximos anos. Mas o passo crucial para a implantação das medidas nas escolas em 2018 depende da definição BNCC, que no momento está em discussão – explica Wisley Pereira.
“A matriz curricular agora passa por elaboração. E a previsão de encaminhamento para o Conselho Nacional de Educação é no final deste ano. A matriz curricular é fundamental para garantir uma formação sólida a todos os estudantes”, frisa o coordenador.
Para Wisley Pereira, a reforma no ensino é o resultado de discussões feitas há quase duas décadas por educadores e governo. A medida visa combater o fraco desempenho dos estudantes do ensino médio, medido pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), e a evasão escolar nessa etapa da educação.
“Os resultados do aprendizado dos nossos estudantes do nível médio nos últimos anos apresentam uma estagnação e a dificuldade de atingir as metas previstas. Ao mesmo tempo, constata-se a necessidade de atender de forma mais efetiva tanto aos anseios e necessidades dos jovens quanto as demandas profissionais. Neste sentido, as alterações propostas preveem um currículo escolar que garanta oferta de diferentes itinerários formativos”, diz o coordenador.
A esperança de um ensino melhor é o que motiva Wisley Pereira a persistir na jornada de mudanças. Ele deixa claro que a flexibilidade de escolha das matérias garantirá mais sucesso na carreira estudantil dos alunos.
P4-MONTAGEM“Possibilitar que cada um deles realize seu itinerário de formação com foco em uma das áreas do conhecimento ou por curso técnico profissional, tendo como base seus interesses e necessidades, consequentemente refletirá na vida social, acadêmica e na sua inserção no mercado de trabalho”, observa o coordenador.
Quanto aos educadores que vão contra a reforma, Wisley Pereira encara com naturalidade. Ele ressalta que em momentos de transformações existe opiniões diferentes. E deixa claro que quando as escolas forem experimentando as mudanças os esclarecimentos surgirão.
“Acreditamos que ainda existem muitas dúvidas em relação à estrutura do novo modelo de aprendizagem, o que é compreensível, pois toda mudança, em qualquer área, acaba gerando dúvidas. A partir do momento que for iniciada a implementação do currículo, acredito que dúvidas serão sanadas e os aspectos positivos poderão ser percebidos por todos os professores, estudantes e sociedade em geral. Questionar é um direito de todos”, ressalta.

“O perfil do estudante mudou, ele quer liberdade de escolha”

A coordenadora da Escola Estadual José Lobo, localizada no Setor Rodoviário, em Goiânia, Ailde Alves, está convicta de que o ensino médio deve ser reestruturado, se adequar ao perfil do estudante, que mudou, ele deseja liberdade de escolha e maior oportunidade para se tornar um profissional qualificado.
“Temos um novo tipo de estudante. Eles estão buscando uma formação mais focada na profissão. Nem todos querem cursar uma faculdade, mas sim desenvolver suas habilidades profissionais para atuar no mercado”, observa.
A coordenadora considera a flexibilização curricular um grande avanço, já que oferece escolhas ao estudante.
“Sabemos que muito ainda precisa ser feito para melhorar o aprendizado, mas vejo na possibilidade de escolhas profissionais um dos maiores avanços. Pois tudo evolui. Os estudantes almejam no mento praticidade, agilidade. Isso é perceptível”, conta Ailde Alves.

Professor considera mudanças desnecessárias

Além de estimular a formação profissional técnica, o novo ensino médio deve ficar mais flexível, possibilitando ao estudante seguir vários caminhos na sua formação educacional e para o trabalho. Mas para o professor de Educação Física Daniel Mozarc, que dá aulas em escolas de Goiânia, acredita que as modificações do ensino não são uma boa saída para melhorar a educação escolar.
“A maior dificuldade que o ensino público enfrenta diz respeito às baixas condições de estrutura e desvalorização dos professores com alta carga horária de trabalho e baixa remuneração. Não precisa inventar muita coisa, basta investir de verdade em quem ensina. E consequentemente o estudante será mais incentivado. O líder é quem conduz seus liderados ao fracasso ou ao sucesso”, observa o professor.
Daniel Mozarc questiona a instabilidade das matérias que farão parte da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e tem receio que em algum momento a formação em educação física seja desperdiçada.
“Na prática a realidade é outra. Se o Ministério da Educação resolver hora ou outra destituir minha área de atuação como uma das matérias obrigatórias, coloca em risco meu esforço e profissionalismo de anos. E não acredito que a mudança para o ensino siga por este cainho. Existem outros meios que funcionam”, desabafa o professor.
Experimentar benefícios para a educação é o sonho de todo educador que preza pela sua carreira. Daniel Mozarc relata que para mudar o ensino do país é necessário investir em infraestrutura escolar, na qualificação dos professores, no bem-estar do aluno através de projetos motivadores para juventude.
“Um adolescente talvez não saiba ainda em qual carreira ele quer atuar. O mais recomendável não é flexibilizar o currículo escolar, mas oferecer orientação profissional. Abrir diálogo de debates e discussões. Para que reinventar a roda? Basta dar manutenção nela, que já está pronta. Assim acontece com o processo educacional. Precisa é de qualificação do profissional, infraestrutura, inclusão de alguns conteúdos nos projetos pedagógicos, preenchimento do quadro de professores. Isso sim é mudança”, diz.

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