Quem ainda lê hoje em dia?

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A era digital modificou nossa vida, e com a leitura não é diferente. A mudança repentina nas formas criou um alarmismo que se alastra e a morte da literatura é anunciada com frequência. Mas o que dizem os dados a respeito da leitura?

Italo Wolff (Jornalista)

A influência da digitalização na literatura tem sido estudada há mais de 20 anos. Em 1994, o acadêmico americano Sven Birkerts publicou o livro “O destino da leitura em um mundo digital” (tradução livre), em que lembra da experiência de lecionar a disciplina “O Conto Americano’’ e ver os universitários odiarem clássicos aclamados, livros que foram sucesso de público quando lançados. A culpa, segundo Birkerts, era das novas tecnologias. Ele afirmou que aqueles que tinham muito contato com TV e vídeo estavam apartados do mundo escrito:
“[Eles] Tinham dificuldade de desacelerar o suficiente para se concentrar em prosa de qualquer densidade; eles tinham problemas com o que pensavam ser uma dicção arcaica, com vocabulário que parecia ‘pretensioso’; eles estavam particularmente desconfortáveis com passagens indiretas e digressões da trama principal; e eles se desconcertavam com tons irônicos porque a inflexão de superioridade fazia eles sentirem que estavam perdendo algo”.
Desde Birkerts, muitos vêm contando suas impressões de como a qualidade da literatura está caindo, como ninguém mais lê, e como são gloriosos os tempos que não conhecemos. O artigo “pode a literatura inteligente sobreviver na era digital?”, do portal britânico Independent expressa abertamente a nostalgia pelos tempos vitorianos em que “os leitores ingleses se deixavam levar nas longas tardes pelas obras ‘Torres de Barchester’ ou ‘Nosso Amigo Comum’”.
O autor não menciona que na era vitoriana eram comuns jornadas de trabalho de 16 horas, sete dias por semana, até para as crianças, e que a maior parte da Inglaterra era analfabeta. Tampouco que aqueles com tardes ociosas liam tanto por falta de opção. Assim que o rádio e a TV surgiram tornaram-se os meios de comunicação favoritos. Além disso, 40% da população mundial hoje tem acesso à internet (no Brasil são 58%), e como a maior parte dela é constituída de texto escrito, hoje lê-se mais do que em qualquer outra época.
A questão não parece ser se lemos ou não, mas a qualidade do que lemos; e embora evidências anedóticas não provem muita coisa, há relatos o suficiente para nos questionarmos se algo está acontecendo. O artigo de 2008 do The Atlantic, “O Google está nos deixando estúpidos?”  inspirou blogueiros a contarem suas histórias de dificuldades com concentração na era digital. Leitores e escritores reportaram como venceram as distrações desconectando o cabo de rede do computador. Além disso, as vendas de e-readers inúteis para redes sociais, bem como a de processadores de texto que emulam máquinas de escrever sem conexão à rede vêm crescendo muito ultimamente.
Se o fator limitante é nossa atenção diante das novas tecnologias, então a questão “a literatura sobreviverá?” tem uma resposta comportamental. Mas quando a discussão engloba a literatura, merece um capítulo para si só por envolver um elemento novo: a pergunta “nossa distração vai matar as coisas que valorizamos?”
Faltam estudos para provar que a internet piorou nossa capacidade cognitiva. O que temos são evidências de que a quantidade de informação modificou a forma como lemos e escrevemos. Pesquisa da University College London analisou o comportamento do internauta nos sites da Biblioteca Britânica. O resultado:
“Uma nova forma de busca de informação, caracterizada como horizontal. […] Os usuários vêem apenas uma ou duas páginas de um site acadêmico, então saltam para outro artigo. O tempo médio que gastam nos sites de e-book e e-journal são muito curtos: quatro e oito minutos, respectivamente. […] Os usuários não estão lendo on-line no sentido tradicional. Há sinais de que novas formas de  leitura estão emergindo com usuários podendo navegar horizontalmente através de títulos, páginas de conteúdo e resumos, buscando ganhos rápidos.”
Foi modificada também a forma de distribuição da literatura. A última edição da pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, reportou que o setor editorial livreiro continua a sentir os impactos da retração econômica: as vendas em 2016 foi 11,02% menor que em 2015. Já a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró Livro em 2016, revelou que temos 107 milhões de leitores – 6% a mais do que a mensuração anterior. Quer dizer, as vendas caíram, mas o país lê mais.
Como? A Retratos da Leitura revela que em 2015 o percentual de leitores que já havia lido um livro digital foi de 34%. E apenas 4% dos leitores utilizou leitores digitais. Mais da metade baixou o arquivo em formato pdf pelo celular, e só 15% pagou pelo download. Agora, adivinhe qual o gênero de livro favorito para download… 47% afirmou que o gênero de livro digital lido foram os de contos, romances ou poesias.
Se a internet facilita o acesso aos livros, essas pessoas se preocupam é se os livros físicos vão continuar lucrativos. Nenhum profissional entrevistado por Kate Burt teme a morte da literatura, todos entendem que é uma atividade fundamental da vida humana cuja demanda nunca será suprida.
Para que fique claro, não estou defendendo o trabalho escravo de escritores: os empreendedores entrevistados, além de terem pensado em maneiras novas de contar histórias, pensaram em formas de ganhar dinheiro com elas. Jeremy Ettinghausen, editor digital da editora Penguin afirmou à Kate Burt: “Não acreditamos que os livros desaparecerão – 99% da nossa receita ainda vem da tinta no papel – mas a maneira como as pessoas leem mudará. Elas não querem mais ser passivas. Nossa wiki novel, “A Million Penguins”, foi escrita pelo público recebendo 11.000 edições em cinco semanas. Com “Telling Stories’”, unimos autores e designers de videogames para contar histórias: você poderia seguir o personagem ao redor do Reino Unido com o Google Maps.
A escritora Tracy Chavalier diz: “Não sei se a tecnologia mudará a maneira como escrevo um livro. Alguns autores, eu sei, ficam consternados com a ideia. Penso que é mais uma questão de ampliar os tipos de livros que estão escritos, enxergar essas novas formas como outro gênero. Temos a novela literária, as histórias de detetive, terror, o romance, os westerns. O e-romance será apenas outro gênero e isso trará a geração mais nova para dentro da literatura”.
O receio das mudanças são compreensíveis, mas nos atendo aos dados e às opiniões dos profissionais da comunicação percebemos que o alarde da morte da literatura é obscurantista. Não faltam pesquisadores da área que atestem os benefícios da digitalização, como a preservação, interatividade, universalidade, publicização, diversificação e democratização dos textos.
Quanto à queda vertiginosa da qualidade da literatura, novamente, não há dados para afirmar isso. Escrever ficção literária “séria” nunca foi uma carreira promissora. Edgar Allan Poe, Emily Dickinson, Lima Barreto, Herman Melville, e uma infinidade de outros grandes escritores morreram pobres, tendo vendido pouquíssimas cópias. Além disso, comparando a edição de 2016 da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil com aquela publicada em 2008, vemos que as categorias que mais vendem são a religiosa e a auto-ajuda. Na categoria ficção, em ambos os anos apenas literatura de gênero ou infanto-juvenil estão entre os mais vendidos. O Código Da Vinci e O Segredo em 2008; Cinquenta Tons de Cinza e A Culpa é das Estrelas em 2016. Mesmo antes da internet ser o que é hoje, a qualidade da literatura lida pela maior parte das pessoas não era excepcional.
Apelar para a culpa das pessoas é inútil. Alegações como “se você não ler bons livros eles vão parar de ser escritos porque a raça dos escritores está ameaçada pela fome” são mentiras e não convencem a ninguém. Há uma contradição nessa afirmação: se a leitura é tão divertida e edificante por que temos de promovê-la tão agressivamente? Por que precisamos defender a literatura se ela traz tantos benefícios? O óbvio é que não precisamos. Professores e críticos literários já têm um trabalho árduo o suficiente colocando as pessoas em contato com o lado bom da literatura para tentar preocupá-las com o lado ruim da tecnologia. Da mesma forma, nosso foco deve ser propor formas práticas e interessantes de continuarmos lendo num mundo com crescente número de atrativos; ao invés de romantizar a falta de atrativos.

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