Suicídio

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Em duas semanas dois cantores de renome internacional, um médico cirurgião plástico, um artista de seriado… Estes dias recebo a ligação de uma mulher chorando em desespero algo indescritível, agonia personificada… sem ver saída para sua situação, a chegada no fundo do poço e a idéia fixa em uma ilusão de por fim ao sofrimento diante de uma vida sem graça, sem sentido de corpo presente e alma ausente… É contraditório sentir o afeto à flor da pele, choro convulsivo, fragilidade extrema e, ao mesmo tempo, estar fechado para o diálogo, para outras pessoas, para se expressar, pedir apoio e ajuda. A tendência suicida começa no isolamento.
Todo caso de suicídio reflete uma solução extrema diante de uma experiência também extrema, agonia e intensidade de sofrer, em muitas das vezes calado e apático, corpo presente mas ausente. Discutir suicídio é complexo e complicado na proporção em que trata se de um tabu, tema temido. Todavia é necessário conscientizar a sociedade e as pessoas para se tentar prevenir diante do aumento expressivo dos casos em nossa atualidade.
Hoje vivenciamos um aumento expressivo de transtornos mentais: ansiedade, depressão, e podemos observar facilmente que a vida foi plastificada. Está sem graça, uma boa parte das pessoas vive sem alma personificando o sentido mítico do Zumbi que sai dos quadrinhos e das telas de seriados e eclode na vida pós-moderna. Emoções terceirizadas, relacionamentos frios e distantes, incompreensão, intolerância, extremo racionalismo e crítica, egoísmo, apatia e materialísmo – em um tempo no qual foi colocado até preço de conta de energia para se iluminar.
Hoje a alma grita e o inconsciente cobra um alto preço diante de um esvaziamento do sentido de vida. Tudo tem início na rigidez da Persona e do empobrecimento do Ego, em que se vivencia mais a aparência do que a essência. Nesta dinâmica a identidade é implodida… “Quem um dia fui”?
“Para que”? A Sombra associada à intolerância joga atributos e virtudes em um calabouço e as coisas boas que sustentam a personalidade naufragam diante da critica e apatia… Uma estrutura psíquica de auto-boicote ganha força em conjunto com vários complexos que passam a ser ativados negativamente. Raiva e incompreensão, cristalização, aspectos da neurose determinam na vida de quem sofre a idéia de situação extrema e sem solução, caminhos fechados, sofrer para sofrer…
Em casos em que se perceba a vontade de morrer é importante pedir ajuda aos familiares e a profissionais de saúde mental. O pior erro é negligenciar um pedido de ajuda. Pessoas que se isolam, fogem dos vínculos sociais já evidenciam este pedido de ajuda. Carinho, diálogo,  afeto são fundamentais para evitar este mal crescente na sociedade. É possível prevenir o suicídio se dialogarmos a respeito e se exercitarmos a solidariedade, gentileza, os maiores atributos de nossa humanidade.
Jorge Antônio Monteiro de Lima,  analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e  mestre em Antropologia Social pela UFG.

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