Dia dos Pais, dia de reflexão

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Neste domingo, 12, comemora-se o “Dia dos Pais”. Sei que muitos dizem se tratar de uma data comercial. Outros costumam dizer que todos os dias é “dia dos pais”, assim como da mãe, da mulher, dos avós, da criança… Tendo a concordar. Porém, nada mais gostoso que o pai receber cumprimentos e presentes nesse dia.
É certo também que o conceito de pai mudou muito, assim como a função que ele tem exercido. Hoje, essencialmente, ele deve ou já está desenvolvendo a função de cuidado (outrora exclusiva das mães), além da da de provedor.
Contudo, há sérias e complexas indagações colocadas para os pais nesses tempos pós-modernos ou neomodernos. Entre elas: a) quem é pai de hoje? b) ele deve ser amigo dos filhos? c) como enfrentar a alienação parental? d) como a mãe deve relacionar-se com os seus filhos, quando ela é mãe solo, seja porque o pai biológico não participa da educação dos filhos ou a mãe decidiu ter o filho sozinha? e) o que fazer quando os filhos perguntam sobre o pai? f) como lidar com pais idosos ou pais-avós? g) quem é o pai: o biológico ou aquele que cria e educa? h) como trabalhar com a ausência de autoridade dos pais (ou negação do seu exercício), sobretudo com os seus reflexos na escola? i) como lidar com o excesso de proteção dos pais com os filhos? j) por que os pais resistem em colocar limites? k) como a escola deve proceder em relação ao Dia dos Pais, quando o aluno desconhece ou foi abandonado pelo pai?
As respostas não são fáceis e dependem, em parte do referencial adotado por especialistas. Para os propósitos desse pequeno ensaio, teço considerações sobre as consequências do excesso de proteção dos pais.
Estudos têm evidenciado que, diferentemente de outras épocas, os pais não estão deixando as crianças e os adolescentes “caminharem com as próprias pernas”.
A justificativa: evitar que eles sofram violências (sequestro, pedofilia, atropelamento…). Postulo, que também está implícito um novo valor atribuído aos filhos. Antes, estes eram vistos como força de trabalho na labuta da terra e garantia de melhores condições de vida à família. Isso com relação às famílias de camadas sociais menos favorecidas. Quanto aos das classes julgadas dominantes, os pais queriam que estudassem para levar os negócios da família a bom termo. Entretanto, com a redução do número de filhos e a ida da mulher ao mercado de trabalho, os pais adotaram novas formas de cuidado e educação.
Em outros tempos, o número elevado de filhos e a vida no campo, os pais costumavam educar o primogênito para exercer a função de educador dos demais.
A redução da prole foi acompanhada por uma flexibilidade no ensino e na exigência de condutas morais e éticas. Acrescente-se, ainda, que os pais passaram a se negar a impor limites, em grande medida, movidos pelo sentimento de culpa de ter que deixar os filhos sob a responsabilidade de outras pessoas, creches e escolas. Como resultado, temos a criação de pessoas insolentes.
Esse excesso de proteção é acompanhado pelo medo do novo. Os pais, amparados nos argumentos apresentados sobre a violência, têm manifestado ou escamoteado persistentes condutas de proteção aos filhos de qualquer novidade. É como se eles não desejassem o crescimento de seus rebentos por estarem satisfeitos com a dependência total que estes têm deles (e o contrário também é verdadeiro). Por conseguinte, o desenvolvimento – possibilitado, em parte, pelo contato com o novo – acabou barrado com a justificativa de que isso impediria pais e filhos de serem felizes. Mas só aprendemos por meio da experiência, incluindo as experiências negativas. É por meio do fracasso que aprendemos a enfrentar as dificuldades.
A esse respeito, em determinadas situações, o erro é preferível ao acerto imediato, por desencadear o processo de compreensão e, consequentemente, de construção de novos conhecimentos. Já o acerto faz cessar tal processo. Agora, como crianças e adolescentes podem errar se lhes é negado o contato com o novo? Para vários pais, esse processo de experimentação tem sido compreendido como démodé: apesar do fato de tentativa e erro serem os verdadeiros “pais” do sucesso, os pais estão se dando muito trabalho para remover os erros dessa equação.
Parece-me, dessa forma, que a família – especialmente os pais – tem funcionado para amplificar o desejo dos filhos de viver o presente, de satisfazer os próprios prazeres a qualquer custo. Essa é a opinião de vários especialistas sobre o atual desinteresse dos jovens pela produção de conhecimento. Isso significa que os estudantes até chegam a ter vontade de produzi-lo, mas falta-lhes a “força de vontade”. Entretanto, sem desconsiderar um caso ou outro relacionado a essa busca de prazer, esse movimento está amparado no deslocamento dessa força de vontade para o cuidado do corpo, por exemplo.
Dessa forma, as pessoas não deixaram de alimentar a demanda por desenvolvimento. Ela está ligada às novas mídias e/ou à busca do ideal da perfeição corporal e, consequentemente, à protelação do processo de envelhecimento. Isso não quer dizer que, efetivamente, a maioria da população está concretizando essa aspiração. Na verdade, temos dois movimentos concomitantes: um deles, representado por essa busca (somos campeões em cirurgias estéticas) e outro, pela obesidade (o Brasil é um dos países com maior número de pessoas acima do peso).
Por isso, sugiro aos pais que – depois de receber os cumprimentos e os presentes – que se coloquem a pensar: estou a produzir um filho para mim ou para a vida? Esse foi um dos grandes ensinamentos do meu saudoso e querido pai, Sr. Pedro, que procurou sempre me mostrar e ensinar-me a caminhar com as próprias pernas.
Prof. Dr. Nelson Pedro-Silva é Psicólogo e Docente da Unesp, em Assis.

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