O publicitário Gustavo Araújo Mendes mostra marcas da agressão praticada pelo segurança do Pão de Açúcar

Erro em máquina de cartão de crédito causou confusão e provocou agressão. Mesmo depois de constatada a inocência do cliente acusado de furto, vítima teve de pagar fiança para ser libertado e agora  responde por desacato à autoridade

Yago Sales e Cris Soares
(especial para a Tribuna do Panalto)

Depois de um erro na impressão de uma máquina de cartão de débito em uma unidade do Pão de Açucar, em Goiânia, o publicitário Gustavo Araújo Mendes, 32 anos, foi acusado de roubo, agredido por um segurança e preso violentamente por um sargento da Polícia Militar do Estado de Goiás (PMGO). O fato aconteceu no dia 10 de junho de 2017.
Vizinho do hipermercado no setor Bueno, de classe média alta na capital goiana, ele foi ao estabelecimento comprar dois pães e um bolo de mandioca para a mãe, de 58 anos, que necessita de cuidados especiais, e a avó, de 90.
Gustavo não demorou muito para escolher os quitutes e passou no caixa o cartão de débito o valor de R$ 10,41. A compra foi aprovada e chegou a imprimir uma via. A caixa do hipermercado, contudo, pegou o papel, passou os olhos e jogou no lixo. Disse que o cliente teria de efetuar o pagamento novamente, sem mais explicações.
“Havia digitado a senha normalmente. Abri o aplicativo do banco e vi, online, que havia sido debitado o valor. O extrato do banco constava o débito. Falei para a moça do caixa que havia sido cobrado e não pagaria de novo”, relata.
A fiscal de caixa da unidade, Adriana Moreira Santos, reforçou que “o problema estava no sistema” e que o publicitário deveria fazer o pagamento novamente. “Mostrei pra ela o aplicativo”. Adriana ignorou o celular e informou que ele deveria pagar e esperar até 72 horas para que o valor fosse devolvido. O publicitário não aceitou.
Ele ia a pé pela calçada do hipermercado quando foi interpelado pelo segurança Ézio Júnior Gama Pereira, 28, que o seguia, e chegou já acusando o cliente: “Cadê o comprovante, seu ladrão, bandido”’. Ao que Gustavo, com mãos para os altos, pediu: “Não encosta a mão em mim. Eu fiz o pagamento”. Ele continuou andando e Ezízio derrubou a sacola de compras no chão. Quando Gustavo se virou para trás, o segurança começou a agredi-lo com socos.
“Ele é segurança, com porte de segurança. Eu, que nunca havia brigado na vida, apanhei muito”. Neste momento, transeuntes ajudaram o segurança nas agressões. “Sou sargento. Ladrão tem que apanhar mesmo”, gritava um homem careca, de meia idade, dando tapas em Gustavo.
O segurança, que trabalha há nove meses na empresa 5 Estrelas, nega esta versão. Ele disse à reportagem que, naquela unidade do Pão de Açucar, era possível flagrar “até cinco furtos por dia”. Quem os comete, segundo ele, “são trambiqueiros e nóias”. “Tratei ele com muito respeito, mas ele nem me escutava. Foi por isso que joguei a sacola no chão e o bolo dele ficou no chão. Ele tentou me morder e dar um soco no meu rosto”, alega.
Antes de trabalhar como segurança, Ezízio foi um dos soldados da Polícia Militar pelo Serviço de Interesse Militar Voluntário Estadual (SIMVE).Pela inconstitucionalidade, o SIMVE foi obrigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a dispensar os prestadores de serviços que eram reservas do Exército, Marinha e Aeronáutica que passaram por prova teórica e prática, tendo, inclusive, porte de arma. O Estado de Goiás, por sua vez, foi obrigado a convocar PMs aprovados em concurso, à época.

Depois da agressão, cliente ainda é levado preso

Enquanto o publicitário era agredido pelo segurança que, para a Tribuna do Planalto disse estar se defendendo “da injusta agressão”, por isso teria dado “três murros e uma gravata” no cliente do supermercado, mulheres tentavam socorrer Gustavo. “Pare de bater no moço, ele não é bandido, olha pra roupa dele, olha”, uma delas tentava argumentar, ao mesmo tempo em que o publicitário estava sendo espancado.
Uma vizinha tentou defender o jovem. “Eu pago o que ele ‘roubou’. Eu pago”, ela dizia, enquanto Gustavo tentava escapar de uma gravata.
Ele quase estava desmaiado, mas ainda conseguiu gritar por socorro. A poucos metros dali, em um posto de gasolina, uma viatura da PM-GO abastecia. O sargento Eder Lino Bispo, 36 anos, pediu para o segurança o largar. “Eu me enconstei na grade do estacionamento do Pão de Açucar e não consegui falar nada, sem fôlego”. O policial perguntou o que teria ocorrido e o segurança Ezio Junior Gama Pereira, aos gritos: “É um ladrão, um bandido”.
O publicitário calçava as havainas quando o sargento Eder o jogou violentamente no chão. “Ele me derrubou. Caí com o rosto no chão e o sargento pisou em mim. Ele puxou meu braço para trás e queria que eu colocasse o outro para trás também, mas eu estava deitado sobre ele. Eu dizia que ele estava pisando no meu braço”, reforça. Sob protestos de mulheres, o sargento o algemou.
O segurança, em resposta às mulheres, dizia que “se tivessem com dó de bandido, levassem pra casa”. E emendava: “Essas madames vivem roubando do Pão de Açucar”. As acusações foram atestas por duas testemunhas e o próprio publicitário.
Gustavo foi colocado no camburão, levado ao 4° Distrito Policial, mas permaneceu na viatura. “O sargento Eder desceu, foi à delegacia e trouxe um papel”. No carro, ficou o cabo Paulo César Moreira da Silva. O publicitário, mesmo algemado, conseguiu mostrar o comprovante no aplicativo do celular. “O cabo até me tratou melhor depois de comprovar que não roubei nada, mas o sargento me tratava com muita agressividade, me chamando de bandido, me humilhando”. Quando voltou à viatura, o sargento Éder tomou o celular de Mendes.
No caminho ao Instituto Médico Legal (IML), o publicitário escutava do sargento: “Não precisava roubar pão para sua mãe comer”. Em uma cela e com algema muito apertada, ele chorava, sem assimilar ainda como teria se envolvido numa situação vexatória.
O relatório médico do IML, a que a reportagem teve acesso, dizia que o jovem apresentou “escoriação em cotovelo direito; eritema em lombar direira, escapular esquerda, deltoide esquerda, lesão contusa; escoriação na perna direira; e esquinose arroxeada na orelha esquerda”. O policial e o segurança não apresentaram nenhuma lesão.
Em seguida, Gustavo foi encaminhado à Delegacia Central de Flagrantes da Polícia Civil. “Eu precisava desmarcar uma reunião e, quando tentei avisar o que havia ocorrido no hipermercado, tive meu celular apreendido de novo”.
No Termo Cirscunstanciado de Ocorrência número 161/2017 consta que “o delegado não verificou a ocorrência do crime de furto praticado pela vítima”. Mesmo assim, o publicitário foi autuado em flagrande por resistir à prisão e por desacato à autoridade. Ainda teve de pagar R$ 930 como fiança. “Se não pagasse, teria de dormir na delegacia. Consegui o valor emprestado”.
Contudo, no mesmo Termo, é possível ler: “Diferente do que foi alegado pelos policiais militares, a vítima não resistiu à sua condução, até porque não tinha condições físicas, para tanto como pode comprovar pelo relatório médico do Instituto Médico Legal”.

Respostas
À Tribuna, o porta-voz da PM goiana, Marcelo Granja, informou que, “se a vítima se sentiu injusticada, deve ir à Corregedoria levando os documentos para apurar eventuais abusos dos PMs que o prenderam” e que “é procedimento levar à delegacia qualquer suspeito pego em flagrante delito”.
Em nota à imprensa,  o Hipermercado Pão de Açucar diz que o “consumidor se exaltou com o segurança local e as autoridades competentes o encaminharam à delegacia”. E continua: “A rede continua à disposição do cliente para prestar novamente qualquer esclarecimento sobre o ocorrido”.

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