Não olhe para trás. A neurose

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Está em Gênesis 19: 15:
“E ao amanhecer os anjos apertavam com Ló, dizendo: ‘Levanta-te, toma tua mulher e tuas duas filhas que aqui estão, para que não pereças no castigo da cidade’.
Ele, porém, se demorava; pelo que os anjos pegaram-lhepela mão a ele, à sua mulher, e às suas filhas, sendo-lhe misericordioso o Senhor. Assim o tiraram e o puseram fora da cidade.
Quando os tinham tirado para fora, disse um deles: ‘Escapa-te, salva tua vida; não olhes para trás de ti, nem te detenhas em toda esta planície; escapa-te lá para o monte, para que não pereças’ (…)
Tinha saído o sol sobre a terra, quando Ló entrou em Zoar. Então o Senhor, da sua parte, fez chover do céu enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra.
E subverteu aquelas cidades e toda a planície, e todos os moradores das cidades, e o que nascia da terra.
Mas a mulher de Ló olhou para trás e ficou convertida em uma estátua de sal”.

O mitologema hebraico de Ló no Antigo Testamento nos traz, em contexto simbólico, uma profunda reflexão sobre a vida cotidiana, as transformações de vida e os embates do ser humano com a psique. Fala abertamente sobre mudanças e destruição.
Hoje não é raro ligarmos a televisão e encontrarmos pessoas que se vangloriam de um passado perverso, mais ou menos assim: “quando eu era prostituta…”, “quando eu era traficante…”, “quando eu era estelionatário…”
Este é o uso do discurso que mantém vivo o passado na mente, de forma real, ativo, presente e com glamour. O olhar para trás que petrifica e não permite a evolução.
A neurose, enquanto processo patológico, para nós denota a cristalização da energia da psique. Nosso ego torna-se incapaz de agir ou mediar as forças da consciência e do inconsciente. Fica paralisado, preso, usando então todos os mecanismos de defesa, especialmente a racionalização para justificar sua prisão.
A psicologia moderna, lamentavelmente, especializou-se em estimular os mecanismos de racionalização, distanciando o ser humano de sua essência. O homem  moderno justifica e entende tudo, mas não muda. A consciência do passado deve existir em nossas vidas como agente de aprendizado e não como justificativa para alienação e nossos problemas. Tendemos a justificar nossos fracassos, nossos problemas, nossa devassidão, e diariamente este é um discurso estampado na política e em quase todas as áreas na mídia.
Em todos os lugares há muitas justificativas e explicações, e pouca ou nenhuma ação. Por quê? Paralisia, neurose. É o homem preso e apático acerca de seu próprio destino. Este é o comodismo do viver mal para estar bem.
Como a mulher de Ló, não respeitamos as regras destinadas pela espiritualidade. Saímos das encrencas da vida, porém, insistimos em olhar para trás com saudosismo, fazendo um altar para nossos traumas e o passado. Não é raro ver pessoas que justifiquem, até com agressividade, os fracassos de sua vida: “Sou um excluído!”. São como a esposa de Ló: tornam-se estátuas, e se mantêm presas eternamente em um ciclo vicioso.
Como exemplo podemos falar da vida afetiva. Existem pessoas que sabem tudo sobre seus fracassos afetivos, dão aulas a respeito do tema, têm todas as explicações e até mesmo chegam a ser convincentes, mas repetem a mesma problemática, não saindo do lugar.
Na Grécia antiga a mesma temática da paralisia é narrada por mitólogos nos mitologemas das Gorgonas ou Medusa. Em outra parte na história de amor entre Eros e Psique, esta curiosa em sua quarta tarefa abre a caixa da beleza eterna de Persefone e vira uma estátua.
Por fim, a paralisia reaparece no mito de Orfeu e Eurídice, uma história de amor com fim trágico.
Orfeu vai até o mundo dos mortos resgatar sua amada e Hades, o rei desse mundo, comovido com a história de amor, permite que Eurídice retorne ao mundo dos vivos com Orfeu. Uma condição, entretanto, é posta por Hades a Orfeu: que, ao voltar com Eurídice, Orfeu  não pode olhar para trás. Iniciada a volta, uma forte dúvida se abate sobre Orfeu e ele olha para trás, perdendo sua amada para sempre. Ele ainda tenta resgatá-la mais uma vez, em vão.
Os gregos já sabiam do problema da inação e da paralisia na vida e o quanto elas pode tornar-se patológicas e problemáticas. O problema da neurose é quando esta torna se um hábito. Às vezes tão arraigado, tão integrado, que um indivíduo não consegue conceber sua vida sem ela.
E a neurose torna-se uma amante, amiga, confidente, uma parte integrante da personalidade. E funda clubes, comunidades de Orkut, estimula hierarquia social.  Vira parte da persona do indivíduo, dando sentido à sua identidade. Muitas vezes é o que resta a nosso ser humano de plástico, a última forma de expressão possível.

Jorge Antônio Monteiro de Lima,  analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e  mestre em Antropologia Social pela UFG.

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