Dona Lourdes das Neves, a mulher sobrevivente do Césio 137. Perdeu tudo, menos a esperança, a fé

Yago Sales

Lourdes das Neves Ferreira. Ela tem 65 anos hoje. Quando me encontro com ela em um sábado quentíssimo de agosto, depois de algumas semanas de negociação para uma entrevista, ela é um silêncio só. Espera que eu pergunte. Mas me afundo naqueles dois olhos que viram o azul assassino descaracterizando seu futuro. “Era uma coisa que brilhava”, lembra. Trinta anos depois que sua vida foi devassada por uma coisa azul, que brilhava e abobalhava a todos, o que poderia perguntar sem que a ofendesse? O silêncio dizia mais.
É que, de tão delicada, com voz muito infantil, dona Lourdes é, quiçá, o rosto mais reconhecido quando se fala em radioacidentados e parece suscentível a ofensas. Engano. Ela é doce demais para ofensas. Ela, que mora sozinha, precipita dentro da gente com aqueles olhos. Na verdade quer falar. Quer relembrar, sim. Mesmo depois de, ao conceder duas entrevistas no mesmo dia, quase ter um infarto, aceita falar um pouco mais para ver se a enxergam. “Disse para o Odesson que não vou mais dar entrevista. Só este ano. Eu fico muito emocionada”.
Ela não se importa. Mas falta memória em Goiânia. Quem vem à cidade pela primeira vez, nem sabe por onde passear para, pelo menos, ver o percurso do césio. A memória concretada. Nem placa em Goiânia tem. Nada que evoque a tragédia. Não para comiseração, mas para evitarmos que algo assim ocorra novamente. Talvez por isso ainda há tanto preconceito. Preconceito que alcança os ouvidos e olhos dos que viveram a violenta descontaminação naquele setembro de 1987…
Dona Lourdes sepultou a filha, Leide das Neves, de seis aninhos. Mãe de uma menina que, três décadas depois, ainda é revisitada para trazer algum sentimento ao recrudescimento da memória da tragédia que acometeu a família Ferreira e Fabiano. A menina com vida roteirizada pelo pó químico que a consumiu por dentro, mas não conseguiu dilacerar seu sorriso. Como atestam fotografias da menina dando adeus enquanto subia no avião, indo para o Hospital Marcílio Dias. Para morrer. Para morrer longe de sua mãe. E, como dona Lourdes, cavoucava por dentro, atrás de forças e esperanças.
Hoje dona Lourdes é o exemplo mais evocativo do que é sobrevivência. Nem o caixãozinho branco a menina teve direito, mas um caixão de 700 quilos. Nem ao último afago da mamãe. O abraço. O beijo que estalava na casinha simples. Mãe e filha, sem choro, mas gritos, paus e pedras. É preciso lembrar. Goianienses gritaram e jogaram cruzes em seu caixão inocente. É preciso lembrar.
Dona Lourdes se apega à principal demanda: cuidar das plantinhas. São várias. Daria uma enciclopédia. É comum lermos textos em jornais que a descrevem neste ambiente. Mas queria contar uma coisa que ninguém percebeu. Dona Lourdes sofre, claro, por não ter dinheiro para comprar os remédios que o Estado não disponibiliza mais. Mas tem um outro problema: ela não tem máquina de lavar porque não tem dinheiro. Para ela, que tem mãos que adormecem, que doem, que ardem, que atrofiam aos poucos, seria importante. E é tão comum uma máquia de lavar trinta anos depois quando ali naquele quintal, ela lavava o corpo rasgado pela radioatividade do marido com água que ela puxava de um balde de alumínio de dentro do poço.
Esta é uma narrativa incomum sobre a vida de Dona Lourdes. Um nome de incontáveis que sofreram com a mentira do brilho do césio 137, que entrou sutilmente, mas, como um demônio, devastou-lhes tudo. Com muita força. Com horror. E pior tem feito quem pretende sufocar a memória… muito pior.

Jornalista relembra cobertura do acidente, 30 anos depois

Rachel Azeredo quebra uma promessa que durou dez anos nesta entrevista exclusiva à Tribuna do Planalto. Ela negou pedidos de entrevistas, mas decidiu falar do maior acidente radioativo em local urbano do mundo. Aos 62 anos, conta em detalhes como foram os dias em que trabalhou na cobertura do acidente com o césio 137 em Goiânia, em setembro de 1987. Ela investigava, para o programa Goiânia Urgente na TV Goyá, que depois se tornaria a Record TV, um surto de meningite. Ela escutou, pela brecha da porta do então secretário de Saúde Antônio Faleiros, que pacientes apresentavam “radiodermite”. Ela foi atrás.

Como você chegou à história do césio 137?
Minha chefe de reportagem era a jornalista Malu Longo. Ela me deu uma pauta sobre um surto de meningite em uma das creches da Febem, no setor Universitário. Eram muitas crianças e muitas denúncias. Entrei nesta creche com câmera oculta e filmamos a confirmação do surto por uma moça que informou que havia sido proibida de falar pelo secretário, mas que tinham tomado providências. Mas ninguém havia ido lá e perguntei pra ela: “a providência é mandar você calar a boca?”. Depois de cumprir horário no Jornal “O Popular”, onde eu também trabalhava, liguei pra Malu mandar o cinegrafista na secretaria para falarmos com o Faleiros. Tinha um tumulto no gabinete dele. O chefe do gabinete me perguntou se eu já sabia. Eu disse que sim. O que ele perguntou e o que eu sabia eram coisas diferentes. Ele pediu para eu aguardar, mas que o Faleiros ainda não estava falando. O secretário estava no telefone acionando a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), brigando com pessoas e dizendo que precisava isolar porque era muito grave. A única coisa que ele sabia era que um atendimento feito tinha constatado radiodermite. Quando escutei isso bati na porta e ele disse que não ia gravar. Falei que queria saber que peça era aquela. E me disse que havia determinado o isolamento e que a peça estava na vigilância sanitária de todos os endereços. Pedi alguns e ele me passou os principais, que eram as ruas 57, 26-A [onde ficava o ferro-velho]. Liguei pra Malu, falei que estava ocorrendo coisas mais graves porque estavam isolando ruas. Ela mandou eu correr para as ruas. Não sabia o que era césio.

O que encontrou?
Estava tudo cercado com cordas, sem nenhuma sinalização, com galhos de árvores cortados e pendurados. Qualquer um passava e entrava nos lugares contaminados. Eu mesma passei e fui até o capitão, chefe dos bombeiros em frente à Vigilância Sanitária que estava isolada. Perguntei o que estava acontecendo. A gente estava gravando quando ele me respondeu que achava que era um gás e disse para eu sentir o cheiro. Não tinha cheiro. Não sei o que ele sentiu. Depois fui para a rua 57. Lá tinham dois guardas. Eu conhecia todo mundo da PM da época porque o Goiânia Urgente era muito conhecido. As pessoas entravam e tiravam as coisas. Perguntei para os dois guardas se não teria problema, mas me responderam que ninguém havia falado nada sobre isso. Quis saber qual era a principal casa, onde a cápsula foi aberta. O objeto ainda estava lá. Tinha uma mangueira muito grande, um tapete. Para diminuir o barulho das marretadas eles usavam o tapete. No lote tinham barracões. Depois descobri que um dos homens que pegaram a peça morava ali e foi o grande sinal para o Faleiros. Fizemos cenas da casa, do tapete. As pessoas estavam sendo encaminhadas para o Hospital Geral de Goiânia (HGG). Contei tudo para a chefe e falou para eu correr para o Morro de Mendanha e falar para o jornal em rede nacional. Falei para a redação deles que acontecia algo grave em Goiânia e que cinco ruas estavam interditadas, pessoas hospitalizadas, uma delas com a radiodermite, que procuramos no dicionário o significado: queimaduras. A TV Anhanguera não havia dado ainda porque estava editando a matéria, esperando o Faleiros falar. Eu não esperei.

Você não tinha medo dos riscos?
Corria risco, mesmo assim não fui uma repórter burocrática. O repórter burocrático escutaria a conversa no gabinete do Faleiros, mas não soltaria a matéria, ficando elaborando a matéria. Notícia é notícia. O setor Aeroporto inteiro sabia que duas ruas estavam interditadas, o antigo Bairro Popular também. O povo queria entender. Era preciso contar.

Por que você se tornaria uma das jornalistas mais importantes nesta cobertura?
Tentei estudar a linguagem da CNEN, que era muito difícil. Queria explicar isso para as pessoas. O físico Valter Mendes, que alertou o Faleiros, vinha falando grego. E eu o chamava e pedia para ele explicar melhor. E ele me dizia que não sabia. E foi por meio de comparações que ele foi me explicando. Falava: olha, você precisa traduzir para as pessoas, para a empregada doméstica, pro catador de papel o que é isso que está acontecendo. Eles tentaram explicar. Olha, 50k equivale você encostar o ferro de passar roupa a 200 graus e provocar uma queimadura muito grave, só que é interno. De dentro para fora. Eu nunca soube que isso era radiodermite. Ela bate no osso e vem. Por isso dos enxertos, por causa da carga da radiação que a pessoa recebe. É uma queimadura por dentro, do órgão ficar preto. Começamos esta tradução.

A imprensa foi irresponsável, ao dar informações equivocadas…
Os jornalistas vinham de fora e passaram a dar manchetes alarmantes. Falaram que alguém jogou uma pedra contaminada na boca de lobo, por exemplo. O grande gênio do Jornal do Brasil deu que essa água pluvial foi parar no Rio João Leite que ia parar no Meia Ponte. A manchete era que a água de Goiânia estava toda contaminada, junto com o subsolo e todo o lençol freático. O Henrique Santillo [Governador de Goiás] ficava louco. O físico Rosental, que era um pai para a imprensa, e já morreu, perdeu dois dias da vida dele dando aulas para jornalistas, no auditório do que hoje é o INSS. Participavam médicos e físicos também.

Quando surge a expressão Césio?
Fui a primeira a usar o nome césio, pois os outros jornalistas continuavam esperando a confirmação dos físicos do Rio e de São Paulo. Eu liguei para o meu pai, que era médico, e expliquei que tinha um produto provocando radiodermite, que provocava queimadura e ouvi falar em brilho azul. Contei para ele que abriram a peça. Perguntei pro meu pai o que era aquilo. E ele respondeu: “uma cápsula de césio”. E ele me explicou que era usado para tratamento de radioterapia. Alguém achou isso em Goiânia. Ele me disse: “filha, afasta-se, tome muito cuidado porque é muito perigoso”. Eu já tinha um caminho. O Valter Mendes chorava copiosamente por causa da menina. Quem entendia o que era entrou em choque, com cara de estupor mesmo. Falei para o Valter que meu pai havia dito que era césio. E ele me confirmou, que a cápsula estava abandonada por médicos, que brigavam na Justiça pelo terreno. A história estava pronta. A Malu Longo me colocou apenas nesta história. Fiz algumas outras menores. A média de produção da TV Goyá à época era de 11 reportagens por dia e ainda chegava para a apresentação. Era tudo direto, eu não tinha edição. Narrava tudo. Entrevistava os técnicos da CNEN, ia andando, mostrando os lugares, sem edição. A cidade toda participando. Era só cortar e colocar no ar. Eu tinha uma ideia do tempo porque era fita ainda.

O que mais te emocionou?
O Antônio Faleiros avisou que o Rosental, chefe da CNEN, chegaria de manhã. O Valter Mendes confirmou. O Rosental ligou para o Faleiros e pediu para que colocassem todo mundo em um lugar só. E a gente escolheu o Estádio Olímpico, onde o Exército montava as barracas. Fui para o Estádio Olímpico, me apresentei a ele e disse que não tinha autorização para entrar lá e ele me chamou para entrar com ele. As barracas estavam montadas e encontrei pessoas que eu conhecia. Eu me lembro da dona Marieta, uma senhora negra de cabelo branco que não tinha noção do que estava acontecendo e estava contaminada. Ela morava na divisa do muro com o Roberto. O Rosental entrou, encostou no portão do Estádio Olímpico, foi contando as barracas. Nisso, saiu uma menina de uma barraca para outra, bem pequenininha. Rosental procurou uma pessoa sobre o número de pessoas que estavam ali, mas não me lembro quantas. Mas chegavam muitas pessoas. Ele perguntou se já tinham providenciado água, café da manhã. As pessoas não comiam desde o dia anterior. Então o Rosental sentou-se no chão e chorou. Um negócio de dar dó. As pessoas estavam ali 24 horas sem tomar banho, sem comida, sem informação, sem casas, sem futuro. Perderam tudo e não sabiam o que faziam ali. O olhar dessas pessoas me marcou. As pessoas confiavam muito no que eu falava, um negócio do Goiânia Urgente. Eles largavam os outros repórteres e me procuravam para eu explicar. Mas eu dizia que não conseguia, mas o que eu sabia era que tinha um aparelho de raio-x, que tinha uma substância chamada césio, que tratava câncer. Este equipamento foi quebrado e lá tinha 10 gramas de césio, sendo que uma grama poderia pôr a cidade inteira a perder. Aquilo equivalia a uma colher de chá rasa. Quando Rosental viu a Leide, eu o vi chorar de novo. Era uma meninazinha muito alegre, dando tchau, andando avião pela primeira vez, sendo contaminada comendo ovo com césio.

Como essas histórias chegavam para vocês?
A gente vai criando fontes no meio das fontes. Antes de embarcar, minha maior fonte era o Roberto, depois a mãe da Leide, dona Lourdes e Odesson. Eles falavam muito em dor, muito constante, que vinha do osso. Eles iam nos contando e íamos criando a narrativa. A menina comeu minúsculos “posinhos” do césio com ovo. Todos os órgãos ficaram pretos. Eu vi a autópsia no Rio quando estavam criando formas de atendimento às vítimas, como manter uma fundação de assistência. Fui  várias vezes a convite da Comissão de Energia Nuclear, enviada pela TV Record… Fui pelo menos cinco vezes. Inclusive fui em Congressos sobre Goiânia, até internacional.

Como foi sua participação do programa da Hebe para falar sobre o césio em Goiânia?
Na época fui com o jornalista Weber Borges. Lá, ele já se apresentou como chefe de reportagem. Eu era o papel secundário, a simples repórter que cumpriu uma pauta entre as duas filas de convidados. Fiquei atrás e o Weber ficou em uma poltrona. Quem falou de forma exagerada, que ofendeu o Santillo e levou a Hebe a ter uma briga com ele, foi o Weber. A Hebe intimou o presidente da República vir a Goiânia porque o governador não fazia nada. Eu fiz um relato pra ela sobre a situação das vítimas. Eu disse que havia descoberto e Hebe: “mas você cumpriu a pauta”. Mas eu respondi: “não, foi acidente, soube por acaso”. Estava falando sobre as vítimas. Quando desci no aeroporto de Goiânia, eu já estava demitida porque a entrevista deixou o governador extremamente irritado. Eu e Heber estávamos demitidos. Ainda assim, fui à TV. Conversei com a Malu e com o diretor da TV. Eles disseram que o Santillo queria matar a gente. Eu sabia que não tinha falado nada. Todos confirmaram que eu não fiz nada, não falei nada de mais. Mas o Weber foi demitido. Depois, ele pegou outro caminho. Ele apoio o exército, fazendo filmagens. Era conhecido como o homem que descobriu o césio. São coisas que ele criou. A gente não briga com um colega, ninguém quer mérito de algo tão ruim. É por isso, e outras coisas coisas, que não gosto de falar sobre o assunto.

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