O dedo podre

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Boate e balada! Casa noturna cheia. Mais de 5 mil frequentadores. Espaço sobreposto a cotovelada e pisam no pé. Na noite, centenas de rapazes e moças disponíveis na caça. Com quem vou ficar hoje? Será que vou encontrar meu grande amor? Ela ali, vai toda produzida tentar-se a tentar. Olhares, dança, tudo tornando o corpo em vitrine.
Mas na lei de Murphy e da vida, ela acaba sendo atraída no meio da multidão pelo que menos deveria gostar: o estelionatário posando de milionário clonando cartão de crédito ou o pequeno agressor egoísta que vai lhe pisar no calo durante os dois próximos anos. Por que seu desejo lhe trai?
Dedo podre é quem gosta de andar mal acompanhado para não ficar só,  quem gosta de viver de migalhas quando a temática envolve relacionamentos. É quem vive em um masoquismo, acreditando que amor é sofrimento.  Dedo podre traduz a falta de amor próprio, a necessidade de sofrer para se sentir vivo, o auto boicote advindo de péssimas escolhas afetivas.
Quase todo mundo com dedo podre acha o seguinte: “Um dia ela vai mudar”; “Comigo vai ser diferente”; “Ele me trata mal porque no fundo gosta de mim”… Enfim, a pessoa, além de se boicotar, acaba bancando a cega, se negando a perceber os defeitos alheios. É um intenso processo de racionalismo no qual sempre tem uma desculpa, justificativa para suas ações e escolhas erradas, ou sempre um álibi para quem o tortura. Será que isto traduz o que poderíamos chamar de gostar de sofrer?
A falta de amor próprio por vezes é tão interessante que muitos indivíduos acreditam piamente que só atraem parceiros errados por azar. Mais uma desculpa. Todavia o auto boicote enraizado no inconsciente afasta pessoas boas, parceiros ideais, o verdadeiro amor e o romance com final feliz.
Outra forma de viver com o dedo podre é o convívio intenso com quem não presta, com quem só faz asneira. Sabe aquele seu amigo que já capotou o carro oito vezes? Você vai deixá-lo dirigir seu carro? Vai pedir para o “chegado” totalmente enrolado com dívidas para retirar o dinheiro em sua conta, lhe informando sua senha? Você vai realmente pedir conselho afetivo para a sua amiga encalhada que não dá certo com ninguém? Dedo podre é falta de consciência crítica aliada ao auto-boicote. Traduz a vida instintiva em armadilhas criadas pela própria pessoa, negando a si mesma uma vida tranquila.
Muitas pessoas, por não saberem falar não, por ter dificuldade em colocar limites, acabam criando armadilhas intensas na vida, sempre refletindo a falta de amor próprio e autocuidado. São pessoas que pecam por omissão, por negligência, por apatia frente à própria vida. Erro no qual a pessoa persiste depois de entrar em um problema por convívio, negando ainda sua própria responsabilidade frente a sua ação errada. Normalmente projeta-se no outro toda culpa por sua falta de amor próprio e auto-boicote.
Lembrei de um rapaz indignado que conheci. Ele reclamava da sorte na vida afetiva. Para ele toda mulher era ordinária. O mesmo rapaz só se sentia interessado em se envolver com prostitutas. Dizia que elas escolhiam essa vida por necessidade. Ele sempre era vítima de alguém que não presta, que o iludia e depois o detonava. Outro exemplo foi o citado no início deste artigo. Quantas mulheres são atraídas por este tipo que faz tão bem o estereotipo do milionário sem emprego ou o estilo Badboy de periferia?
Para mudar esse tipo de atitude é necessária uma reformulação de toda estrutura afetiva, começando pelo inconsciente. Um trabalho que exige esforço, mas que tem sua recompensa. O indivíduo deve primeiramente rever o que representa para ele sua forma de amar.
Depois perceber sua estrutura interna de auto-boicote e a reverter com a ajuda de um profissional.

Jorge Antônio Monteiro de Lima,  analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e  mestre em Antropologia Social pela UFG.
Site: www.jorgedelima.com.br

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