Ensino especial avança em meio ao preconceito

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Fabiola Rodrigues

Mesmo enfrentando preconceitos quotidianamente, crianças e adolescentes especiais estão mais presentes no ambiente escolar. A procura por vagas para estudante especial nas intuições convencionais aumentou consideravelmente na última década. É o que conta Gisella Almeida, mestre em Educação Especial e professora nessa área há 26 anos. Ela fala sobre o papel da escola no processo de inclusão social e revela que o bullying é um problema social crônico.
Ao contrário do que muitos pensam, incluir um deficiente, seja criança, adolescente ou adulto, em escola pública ou particular deve ocorrer de forma natural. Nesse sentido, uma das funções dos educadores é justamente promover interação entre os alunos “normais” e os especiais – diz Gisella Almeida.
“Uma coisa que precisa ficar clara urgentemente é que toda escola, pública ou privada, tem obrigação, por lei, de receber o estudante com deficiência, indiferente de qual seja a limitação. Ninguém tem autonomia ou autoridade para não fazer a matrícula desse estudante. A aceitação dos colegas de sala acontece quando o professor estabelece conceitos de igualdade”, frisa a professora.
Os resultados do Censo Escolar da Educação Básica em 2008 apontaram um crescimento significativo nas matrículas da educação especial nas classes comuns do ensino regular. O índice de matriculados passou de 46,8% do total de alunos com deficiência, em 2007, para 54% no ano seguinte. Estavam em sala de aula desde então estudantes com deficiência intelectual, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, síndrome de down, autistas, cadeirantes e outras deficiências.
A professora lembra que implementar a lei de inclusão na escola é um avanço e que resultados estão sendo anualmente mais positivos.
“O lançamento em 2008 da política nacional de educação especial na perspectiva da educação inclusiva, aprovada por meio de emenda constitucional, assegurou sistemas educacionais inclusivos em todos os níveis de escolaridade no país. E posso afirmar que só tem aumentando esse perfil de aluno nas escolas”, ressalta Gisella Almeida.
A professora relata que é fundamental o cuidado com o estudante especial, pois o bom tratamento a ele incentiva outras famílias a buscar a inclusão por meio da escola.
“Educadores de um modo geral, sejam professores, coordenadores ou diretores, todos precisam lutar para fazer com que o aluno especial seja bem atendido na escola”, diz.
Gisella Almeida trabalha na rede municipal de Goiânia, como apoio aos professores. Ela ressalta que, mesmo com o avanço no ensino especial, ele está sendo debatido atualmente.
“Estamos inclusive em um momento de reescrita do estudo referente ao ensino fundamental com o Ministério da Educação, para dar melhor suporte ao estudante deficiente, para que ele tenha maior suporte ainda dentro do ambiente escolar. A política nacional caminha na perspectiva de atender cada vez mais o aluno especial na escola dando o suporte necessário, independentemente do grau de deficiência”, conta a professora.
Estão matriculados na rede municipal de Goiânia mais de 105 mil estudantes, sendo que mais de 3.050 têm deficiência.
“Estamos trabalhando para que todos sejam bem atendidos. Todos são incluídos normalmente em sala”, relata Gisella.

Aceitação
O preconceito com as pessoas deficientes ainda existe, mas segundo professora é um problema social que ultrapassa os muros da escola.
“Ele existiu e vai existir infelizmente. O estudante se torna receptivo a um aluno especial dependendo da maneira que é orientado pela direção da escola. Quando a equipe pedagógica faz um bom trabalho, a classe o recebe com carinho. Antigamente crianças e adolescentes com deficiência eram excluídos dos meios sociais. Estamos contribuindo para que isso mude”, ressalta Gisella Almeida.
O trabalho contra o bullying deve ser realizado na escola com a família frequentemente.
“As pessoas deficientes têm o direito de aprender, trabalhar, passear e viver normalmente e precisam ser vistas assim. Alguns de repente jamais terão condições de serem alfabetizados, então não dá para ficar insistindo nisso. O que deve ser feito é dar condições de trabalho, para que ele desenvolva da maneira dele e saiba se posicionar e ter raciocínio crítico. Uma pessoa que não tem capacidade de formação acadêmica nunca poderá ser reconhecida como incapaz de desenvolver habilidades. Cada um tem uma maneira de desempenhar talentos, basta incentivo. Eles precisam ser revestidos de conhecimento, já basta”, afirma a professora.
Para Gisella discutir sobre rumos do ensino especial é uma necessidade educacional.
“Quando falamos de deficiência e aprendizagem, consequentemente falamos de estratégias educacionais. Discutirmos sobre isso nunca será demais até mesmo porque contribui significativamente para quebrar estereótipos”, finaliza.

Criança com deficiência consegue desenvolver o aprendizado em sala de aula convencional
Criança com deficiência consegue desenvolver o aprendizado em sala de aula convencional

“Não basta matricular a pessoa com deficiência, é preciso ter acessibilidade”

Nos últimos anos a educação da pessoa com deficiência tem obtido avanços, mas existem vários pontos a serem melhorados. A coordenadora de Atendimento Educacional Especializado do Centro de Orientação Reabilitação e Assistência ao Encefalopata (Corae), em Goiânia, Élida Ferreira, relata que existe dificuldade de inclusão em algumas escolas, mesmo com o processo de inserção crescente.
“Hoje se fala de escola para todos, ou escola inclusiva, onde todos podem se matricular. Isso sem dúvida é um avanço, mas temos visto algumas dificuldades que nem sempre são discutidas. Não basta matricular a pessoa com deficiência, é preciso ter acessibilidade arquitetônica dos prédios escolares, formação continuada de professores, cuidadores, comunidade escolar e pais e/ou responsáveis, acessibilidade de conteúdos e métodos de ensino e formas diferentes de aprendizagem. Acessibilidade tecnológica, entre outras”, frisa.
Para Élida Ferreira, a educação especial na perspectiva da educação inclusiva ainda precisa caminhar muito no sentido de ser tratada com mais naturalidade.
“Essa inclusão acontece por força de lei, nenhuma escola pode negar a matrícula a nenhuma pessoa com deficiência, seja qual for a deficiência. Porém temos acompanhado por meio de depoimentos informais de pais dos nossos alunos, que dizem ter tido dificuldades em matricular seus filhos em outras escolas. Isso não pode acontecer”, ressalta a coordenadora.
Élida Ferreira observa ainda que o preconceito é fruto da falta de informação e analisa a escola como um reflexo da sociedade.
“Infelizmente podemos afirmar que o preconceito é presente em todos os espaços sociais, incluindo o ambiente escolar. Falar sobre, inclusão, exclusão é necessário para termos maior quantidade de estudantes e pessoas tendo acesso à informação e, por consequência, uma diminuição de atos preconceituosos”, diz a coordenadora.

 

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