Os novos desafios da educação de bebês

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A aprendizagem acontece em momentos de brincadeira e interação

Nos últimos anos, as descobertas da ciência mudaram o entendimento sobre os bebês: eles são muito mais inteligentes do que se supunha, e capazes de aprender e se comunicar desde muito cedo. O entendimento acerca dos saberes das crianças de até 18 meses mostra que elas são cientistas em potencial: adquirem conceitos cotidianos da física ao observarem como os objetos se movem, ou da biologia, através da observação dos seres vivos, por exemplo.
Na escola, a socialização entre si e com outros adultos que não seus pais demonstra a capacidade de linguagem. Como define o pedagogo Paulo Fochi, especialista nessa faixa etária, “os bebês são pop”.
“Talvez eles nunca tenham aparecido tanto quanto agora. Isso é bom porque estamos tornando-os visíveis, tirando-os da invisibilidade”, define Paulo.
As descobertas realmente são recentes e, por isso mesmo, desconhecidas até mesmo por educadores.
“Até os anos 70 compreendíamos os bebês como sujeitos muito passivos, mas os estudos atuais mostram que eles chegam ao mundo com um equipamento muito completo para realizar ações neste mundo”, resume a professora Maria Carmem Barbosa, pesquisadora e docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e uma das maiores especialistas em educação de bebês no Brasil. O novo entendimento sobre a primeiríssima etapa da infância, no entanto, tem refletido em como a sociedade e a própria escola veem os bebês.
“Ao mesmo tempo que os bebês estão se tornando visíveis, há uma preocupação acerca dos discursos que decorrem dessa ‘popularidade’”, reflete Paulo.
O especialista se refere ao discurso da estimulação precoce, consequente, principalmente, das recentes descobertas da neurociência.
“Nesse sentido há dois pontos de vista: o de que o bebê não é frágil, com o qual concordo, e o discurso de antecipar o desenvolvimento para dar mais subsídios à criança no futuro, sobre o qual sou contra. Precisamos dar tempo para os bebês serem bebês”, defende.
“Uma pessoa que se propõe a estar com bebês tem de ter a esperança da espera: é preciso ver se ele responde. É ter esperança para ver o que ele vai fazer”, define.

Cérebro em formação
Partindo do princípio da educação feita a partir e para a criança, as descobertas acerca do desenvolvimento dos bebês podem ser de grande valia para os educadores e a escola. A neurociência mostra que uma criança chega ao mundo com incríveis 100 bilhões de neurônios. Mais importante do que a quantidade é o que será feito deles. Até os 18 meses, os excessos são podados e as sinapses começam a ser construídas. Até os 3 anos, o cérebro está em formação. É nesses primeiros três anos de vida, portanto, que a interação com o ambiente e a estimulação permitem a construção das sinapses – que é o mesmo que dizer a construção do aprendizado.
“Quanto mais cedo um bebê é estimulado, mais rápido se formam as sinapses”, explica a neuropedagoga Irene Maluf.
“E quanto mais sinapses eu tenho sobre determinado assunto, mais facilidade terei nele no futuro.”
Aos 18 meses, mesmo sem falar, os bebês já têm um vasto repertório de experiências. A psicóloga Alison Gopnik, da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA), queria saber o quanto os pequenos entendiam o outro. Num teste feito com bebês de 15 e 18 meses, sua assistente oferecia a eles um pote de bolachas e outro de brócolis. Todos optavam pela bolacha (em formato de peixinhos). Mas ao demonstrar – fazendo cara de prazer – que ela gostava mais de brócolis, os bebês lhe ofereciam o pote de brócolis. Para Alison, ficou claro que eles entenderam o gosto do outro.
Os pequenos também são altamente solidários. Cientistas italianos colocaram gravação com choro de outros bebês para ver a reação dos pequenos ouvintes. Eles abriam o berreiro quando ouviam o choro do outro, mas não quando o choro era deles mesmos. Empatia pura. Indo mais além, uma pesquisadora da Universidade de Washington testou a atenção de crianças de nove meses para língua estrangeira. Quando eles ouviam um DVD com outra língua, não notavam, depois, quando alguém falava nesse outro idioma. No entanto, quando eles eram estimulados por uma professora de língua estrangeira, passaram a perceber quando as pessoas ao seu redor não estavam falando sua língua natal. A conclusão é que o aprendizado para línguas só funciona quando há interação social.
Há ainda estudos que mostram a precoce aptidão para a matemática. Crianças de sete meses foram testadas na Universidade Duke, na Carolina do Norte (EUA), com vídeos e uma caixa de som. Em um monitor, elas viam duas mulheres conversando. No outro, três. Da caixa de som, ouviam ora duas mulheres ora três conversando. Os bebês se voltavam para cada tela conforme as vozes variavam. Kerry Jordan, um dos coordenadores da pesquisa, concluiu que eles conseguiram entender a equivalência entre o número de faces e o de vozes.
Novidades como essas vão, aos poucos, ajudando os pedagogos e educadores a perceber que educar um bebê vai muito além de trocar a fralda. Eles podem, e devem, ser olhados como pequenos aprendizes. A principal diretriz que os educadores têm, até hoje, sobre as capacidades dessa faixa etária provém da teoria dos estágios, de Jean Piaget (1896-1980). O primeiro estágio, das crianças de 0 a 2 anos, é o sensório-motor, fase na qual o bebê busca ter controle motor e aprende com os objetos ao seu redor.

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