Esgoto e a crise hídrica

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Este artigo foi escrito em 2014. Mas o tema continua bem atual: crise hídrica!

Após receber milhares de comentários sobre a crise hídrica, da água potável no Brasil, resolvi dar meu pitaco sobre o tema, especialmente por que percebo uma bela manipulação da opinião pública sobre o assunto, com reprodução a exaustão de opiniões que não falam o cerne da questão.
Vamos iniciar fazendo contas. Em minha conta de água pago, em cima de seu valor total, metade deste como taxa de esgoto. Assim, se pago 100 reais de conta de água, 50 reais referem-se à taxa de esgoto. Moro e trabalho no mesmo local em um setor de classe média. Se no bairro em que moro todas as casas pagassem o mesmo valor, teríamos a cifra aproximada de 500 mil reais pagos mensalmente em apenas um bairro da nossa Capital. Uma cidade como Goiânia teria uma arrecadação aproximada de 8 milhões de reais mensais. Detalhe: estou fazendo contas sem números exatos, sendo esta arrecadação maior que as minha estimativa. Tudo vai para empresas públicas que cobram, multam e que impõem ao cidadão estes valores.
Porém você, eu e toda a sociedade pagamos por um serviço que não é cumprido há décadas. O esgoto é coletado, mas não é tratado em quase todo território nacional. Na falácia dos políticos existe o discurso de que nosso esgoto é tratado, que há obras sendo feitas. No entanto, na prática, basta chegar perto de um rio que rapidamente é perceptível a realidade: não existe tratamento do esgoto urbano. O total arrecadado – dinheiro cobrado e que nós pagamos –, é desviado para outros fins. Obras são superfaturadas, empreiteiras lucram muito, políticos enriquecem e a verba com um fim específico some entre o nada e o lugar nenhum.
Isto atinge municípios, Estados e a nação como um todo. A água que poderia ser tratada e voltar à natureza potável é desperdiçada.
Um algo indizível surge desta realidade que se multiplica em várias frentes. Quantos impostos não são por aqui desviados de seu fim específico? Para que serve o judiciário? Para que existe o código de defesa do consumidor? Hoje a máquina pública é especialista em cobrar, extremamente ágil e punitiva contra o cidadão. Mas quem a pune quando desvia, quando torna a corrupção parte de sua estrutura operacional?
Psicologicamente vivemos uma era na qual existe a certeza da impunidade junto ao crime organizado, em especial quando ele está presente na estrutura política. Algo que sobrevive em nosso imaginário e que nos envolve entre a apatia, a raiva e a alienação.
A crise política gerada pelo problema da água não é regional ou estadual, mas de todo Brasil. Reflete ainda todo desmatamento recorde feito nos últimos anos, após a reforma florestal com o descumprimento de todos os tratados internacionais assinados na última década. O problema não é a falta de chuva, mas nossa política e políticos. Os problemas são a falta de planejamento e os desvios bilionários, nosso esgoto!

Jorge Antônio Monteiro de Lima,  analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e  mestre em Antropologia Social pela UFG.
Site: www.jorgedelima.com.br

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