HGG, o gigante da saúde humanizado

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Marcelo Rabahi: “Gerenciar um hospital é um desafio; não se lida com um produto homogêneo, cada pessoa é de um jeito” (Paulo José)

Criado na década de 1950, inicialmente como um hospital privado, o Hospital Geral de Goiânia  Alberto Rassi se tornou público e, posteriormente, já na década de 1980, passou um período fechado. Naquele período, quando a saúde pública era vinculada ao antigo Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps), precursor do SUS, o HGG foi responsável pela formação de muitos médicos e era o hospital do Estado com maior abrangência e, principalmente, qualidade no atendimento. Depois do período em que foi fechado, passou por uma reestruturação no seu quadro de pessoal. E, nos últimos cinco anos, vem sendo administrado pelo Instituto de Desenvolvimento Tecnológico e Humano (Idtech), que foi a organização social contemplada no processo de escolha de quem faria a gestão do HGG. Desde então, vem ampliando seu atendimento e já é referência em várias áreas, como transplantes. O gigante da saúde funciona de portas fechadas, o que quer dizer que recebe somente pacientes encaminhados pelo regulador do SUS, vindo, por exemplo, das unidades municipais de saúde para serem internados. Para falar sobre a qualidade e a capacidade de atendimento da unidade, a Tribuna do Planalto conversou com o médico Marcelo Rabahi, coordenador do Centro de Terapia Intensiva do hospital. A unidade hoje conta com 1.273 colaboradores, aí inclusos profissionais da saúde, administrativos etc, sendo que parte dos servidores tem vínculo com o estado e outra parte é celetista, contratada pelo Idtech. Com a gestão sob comando da OS, o hospital criou o Núcleo de Apoio ao Paciente Paliativo, para casos em que a cura está praticamente descartada. E nesta semana fará o lançamento do Serviço Especializado do Processo Transexualizador, que tem como objetivo oferecer atendimento ambulatorial e cirúrgico para transexuais e travestis.


Daniela Martins
e Manoel Messias Rodrigues

Tribuna do Planalto – Qual o tamanho do HGG?
Marcelo Rabahi – O HGG é um hospital que tem aproximadamente 250 leitos, entre leitos de CTI, clínica cirúrgica, clínica médica e hemodiálise, que seriam as quatro grandes áreas do hospital. Tem quatro unidades de ambulatório, que funcionam dentro de um projeto novo chamado Ambulatório de Medicina Avançada. Nele nós temos toda uma parte de ambientação para que os pacientes possam ter uma espera agradável, dentro dos atendimentos no ambulatório, que giram em torno de 10 mil atendimentos por mês. Esse é o público, digamos assim, de atendimentos externos. São atendimentos nas mais diversas áreas: todas áreas das clínicas médicas – cardiologista, gastroenterologia, pneumologia, reumatologia, endocrinologia, algumas com muita expressão –, e os ambulatórios cirúrgicos, com os pacientes que são encaminhados para a avaliação do tratamento cirúrgico. Além disso, existem os ambulatórios com os programas específicos, como Programa de Odontologia, para atendimento de cirurgia buco-maxilo em crianças especiais. Aqui é o único lugar que faz esse atendimento, de alta complexidade. Existem os programas de cirurgia de obesidade. E o grande perfil dos atendimentos que aqui chegam são os doentes crônicos, as doenças crônicas não transmissíveis, que, por uma particularidade, costumam atingir as pessoas mais idosas. São doenças crônicas não transmissíveis como diabetes, insuficiência cardíaca, bronquite crônica, enfisema. Então, os portadores dessas doenças são encaminhados pela rede para atendimento aqui no hospital. E até em função desse perfil de doenças crônicas em população mais envelhecida, temos aqui, de forma pioneira, uma unidade de Cuidados Paliativos.

Como funciona essa ala de Cuidados Paliativos?
Atendemos pacientes que, muitas vezes, têm várias doenças e que, em determinado ponto, requerem mais atenção humana do que atenção tecnológica. Então, aliamos as duas coisas aqui no hospital. É um local onde tratamos e cuidamos desses pacientes. É importante entender que uma unidade de cuidados paliativos não é um espaço onde a pessoa espera para morrer. Pelo contrário, é alguém que recebe todo o cuidado necessário para morrer com dignidade e respeito. Essa é uma particularidade. Essa ala tem uma equipe própria, multidisciplinar, que é o Núcleo de Atenção ao Paciente Paliativo. Ao identificar um paciente com essas características no hospital, essa equipe é chamada para oferecer todo o atendimento especializado.

Há cinco anos, o HGG passou a ser gerido por uma organização social, o Idtech, mas ele já estava reativado há mais tempo? De lá pra cá, o atendimento tem sido ampliado?
Há um aumento crescente dos atendimentos. Porém, mais do que os números, o que realmente marca a gestão do Idtech é a qualificação e a qualidade desses atendimentos. Hoje, o hospital já é acreditado no nível 2 da ONA [Organização Nacional de Acreditação] e já estamos pleiteando o nível 3, que é a excelência máxima dos hospitais. ONA é uma agência certificadora. Na época que o HGG alcançou o nível 1, ele foi o primeiro hospital público da região Centro-Oeste a ter a acreditação da ONA. Então, esse é um marco importante para o hospital. Digamos que a capacidade de atendimento do hospital aumentou do ponto de vista da complexidade. Hoje atendemos pacientes mais graves do que há alguns anos. Aumentou o número de leitos de CTI, antes eram 10, agora são 30. O atendimento aumentou em relação aos números, mas esse não é nosso objetivo principal, porque, apesar de termos metas a ser cumpridas em termos de números de internação, mais do que cumprir as metas, nós prezamos pela qualidade do atendimento.

Em agosto, o Sarau HGG completou quatro anos de existência. Como surgiu a ideia de incluir projetos culturais no ambiente hospitalar e como esses projetos têm influenciado na assistência aos pacientes?
Além de toda essa perspectiva de termos um atendimento com muito respeito a todos os pacientes, essa é uma preocupação desde o início do nosso trabalho. De forma intuitiva começaram a surgir projetos relacionados a artes e músicas no hospital. Isso foi de forma completamente intuitiva, não houve um planejamento inicial de transformar o HGG num hospital humanizado. Mas, aos poucos, fomos percebendo o quanto isso impactava dentro do atendimento. E isso passou a ser um projeto global dentro hospital. E hoje temos um projeto real, atividade de música semanalmente, artes, exposições de artistas plásticos goianos e Oficina de Arte, em que os pacientes vão para fazer as pinturas. Além disso, temos o projeto Riso no HGG, com comediantes, e o projeto Dose de Letras, com a disponibilização de livros para os pacientes. Há toda uma preocupação com a ambientação no hospital, os ambientes são mais abertos, com cores nas paredes. Tudo isso faz parte do projeto de humanização do HGG. Porque a gente entende que humanização não é só fazer rir, fazer graça, mas gerar um bem-estar para os pacientes e para toda a equipe que está envolvida no atendimento.

Unidade fará cirurgia de mudança de sexo

Em breve a unidade passará a fazer atendimento para cirurgia de troca de sexo. Como funcionará?
Como são poucas instituições públicas que fazem atendimento a esses pacientes, há uma carência grande por esse serviço. Em Goiânia, tem no Hospital das Clínicas (HC), da UFG, e houve uma demanda para que criássemos esse serviço aqui, o que estamos desenvolvendo de forma muito responsável, criando inicialmente o ambulatório. É um tratamento muito polêmico e precisa de ter segurança tanto da equipe profissional quanto do paciente. O ambulatório já está atendendo alguns pacientes, mas ainda não fizemos nenhuma cirurgia porque existe uma recomendação para que essa cirurgia seja feita apenas dois anos depois do paciente estar em acompanhamento. A ideia é que o paciente passe aqui por uma avaliação multidisciplinar e que seja dada sequência no processo aqui. Já há profissionais capacitados e estamos trabalhando com a cooperação técnica do HC.

A unidade também é hospital-escola?
Sim. O estado de Goiás tem dois hospitais-escola. Um é o Hospital das Clínicas da UFG e o outro é o HGG. É muito importante o papel do ensino e pesquisa no hospital. Temos programa de residência médica, com treinamento em várias especialidades, acolhimento de alunos de faculdades de medicina, que fazem estágio na unidade, residência multidisciplinar para não médicos (fisioterapeutas, enfermeiros, nutricionistas). Desenvolvemos também muitas pesquisas, desde as mais simples até as mais complexas, acadêmicas, trabalhos de mestrado, doutorado.

“Fizemos a mensuração da ansiedade daqueles que foram expostos ao programa de humanização”

Além dos pacientes, esses projetos tm conseguido também amenizar a rotina estressante dos servidores do hospital?
Esse é um objetivo também. Há colaboradores que vêm pra cá durante a folga para tocar, se expressarem. E a gente entende isso como uma forma de cuidar do paciente. Estamos finalizando, até o final deste ano, uma pesquisa de mestrado, que estou orientando, que vai nos permitir ter uma avaliação do impacto do projeto de humanização nos pacientes. Fizemos a mensuração, em uma escala, da ansiedade daqueles que foram expostos ao programa de humanização e daqueles que não foram expostos para saber qual deles teve uma redução no nível de ansiedade. Então esta é uma medida concreta que teremos. No processo de humanização, temos também o projeto Voz do Paciente, que contempla canais de comunicação do paciente com a instituição, como a ouvidoria presencial e a ouvidoria virtual, WhatsApp, os tótens, o correio eletrônico e um formulário que o paciente preenche.

Nesse processo, os acompanhantes também fazem parte do projeto de humanização?
Sim. Os acompanhantes são um grande desafio. Nós, profissionais da área de saúde, somos treinados para cuidar do paciente. Não somos treinados para falar, interagir com os familiares. Isso é uma dificuldade grande para as duas partes: médicos e acompanhantes. O paciente tem um pouco mais de proximidade com o médico do que o familiar. O acompanhante, eventualmente, nunca foi à consulta com o paciente, que é internado e, então, ele chega de repente para acompanhar. Cai de paraquedas no hospital, e quer saber tudo, entender tudo. Há a troca de acompanhante, e você passa informação para um e para outro… Então, é um desafio e temos muita preocupação com isso aqui no HGG.

“Cada paciente deve ser tratado sem perder a personalização”

O que falta ao HGG, quais são os desafios, para atingir o nível máximo na acreditação da ONA?
O desafio é justamente é essa interação com os familiares, melhorar a comunicação com os familiares, mostrando a importância dessa interação. Essa é uma das exigências para o nível de excelência. Outro dos desafios que temos é o de uniformizar os protocolos. Devido ao grande número de especialidades que temos, esta não é uma tarefa simples, mas estamos caminhando. Isso quer dizer que cada paciente que tem determinada doença deve ser tratado de acordo com normas do hospital, mas sem perder a personalização. Além disso, na época que assumimos o HGG, não tinha nada funcionando de forma eletrônica. O arquivo era um verdadeiro perigo, e hoje está tudo informatizado. Parafraseando Juscelino Kubitschek, temos um salto de 50 anos em cinco. Isso foi realmente um dos grandes desafios que a gente enfrentou e conseguimos superar.

Mas ainda há muito o que evoluir…
Sim. Gerenciar um hospital é provavelmente uma das áreas mais difíceis de se fazer, porque não se lida com um produto homogêneo, cada pessoa é de um jeito. Então poder contar com o feedback, com essas informações, é o que torna nossa gestão aqui humanizada, porque nossas atitudes não são baseadas simplesmente naquilo que a gente acredita que é o melhor, mas a gente utiliza as informações da expectativa do paciente para que a gente possa executar nossas ações. E aí a gente mede também para saber se as nossas ações atenderam às expectativas dos pacientes. Esse é o raciocínio porque essa gestão do hospital é considerada humanizada.

O contrato com a OS é reajustado constantemente?
Ele tem uma reavaliação anual, é revisto a cada ano.

As melhorias são incorporadas ao patrimônio do hospital?
Sim, tudo é incorporado ao hospital. Toda ação feita com recursos oriundos do Estado é incorporado ao Estado, inclusive os projetos desenvolvidos pelo Idtech no HGG são, sim, do hospital.

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