Família deve estar atenta aos sinais da depressão

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Crianças e adolescentes também são vítimas de doenças emocionais agressivas que, se não cuidadas a tempo, podem ser fatais

Fabiola Rodrigues

A depressão leva muitas pessoas ao suicídio e um grande alerta está sendo feito aos pais, pois não para de crescer o número de crianças a adolescentes que estão apresentando essa doença. Para enfrentar o problema, está sendo realizada há dois anos no Brasil uma campanha, denominada Setembro Amarelo. Identificar o quadro depressivo na juventude ainda é um problema. A descoberta dos sintomas o quanto antes é fundamental para o tratamento seja feito. A psicóloga Heloisa da Silva, especialista em neuropsicologia, explica sobre gravidade, causas, tratamento e preconceito existentes sobre a doença, que pode levar à morte.
“Crianças e adolescentes têm sido afetados pela depressão. O grande desafio dos familiares é entender o que eles estão sentindo, porque eles aceitam os sintomas como fatores naturais e muitas das vezes não falam, embora estejam sofrendo. Retraem-se e os pais, demoram a perceber que o filho precisa de ajuda”, diz a psicóloga.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão será a doença mais impactante na saúde da população mundial até 2020. Entre os anos de 2005 a 2015, sua incidência cresceu 18,4%, atingindo 322 milhões de pessoas em todo o mundo. Portanto, discutir o assunto do é extremamente relevante, já que ainda existe muita desinformação a seu respeito. A psicóloga diz que diferentes motivos levam uma pessoa a ficar estagnada emocionalmente, acarretando instabilidade mental.
“Podemos observar que fatos como a perda de um emprego, doenças, acontecimentos marcantes como divórcio, fim de um relacionamento amoroso, bullying, ausência de familiares, situações que favorecem o estresse prolongado, discussões frequentes no trabalho ou em casa, tudo isso pode levar à depressão, porque faz com que a pessoa passe a duvidar de si mesma e de suas capacidades, diminuindo sua autoestima”, observa Heloisa da Silva.
É importante ressaltar que cada caso ocorre de forma singular e o que causa depressão em uma pessoa pode não causar a outra.
“Ainda existe preconceito em torno das questões psíquicas e infelizmente o estigma abala a autoestima das pessoas e fazem com que boa parte delas demore a buscar ajuda e tenha resistência ao tratamento, o que acaba agravando o quadro. O desconhecimento real do funcionamento desse transtorno afetivo é o principal responsável por um dos maiores problemas para quem sofre com a depressão: o preconceito”, relata.
Segundo a psicóloga o diagnóstico da doença é clínico e feito pelo psiquiatra e requer a presença de sintomas que provocam distúrbios e prejuízos na área social, familiar, ocupacional e outros campos da atividade diária. O tratamento deve combinar a ajuda profissional, apoio social coletivo e mudanças no estilo de vida.
“Quanto mais informações todos tiverem sobre a doença fica menos difícil de tratá-la. Há uma necessidade de falar sobre, justamente para conscientização à prevenção do suicídio, com o objetivo de alertar a respeito dessa dolorosa realidade. Ajudar a quem precisa e entender a gravidade da situação é essencial”, ressalta Heloisa da Silva.
Cuidar das emoções requer cuidado corporal também. A psicóloga esclarece que tem como prevenir sentimentos depressivos através de exercícios.
“A saúde emocional passa pelo corpo, que precisa de cuidados, atividades, boa alimentação, para assim desenvolver e agir antes do adoecimento. É importante promover a qualidade de vida e elevação da autoestima, que estando baixa representa risco de decadência para tristeza profunda” diz.
Para deixar as pessoas mais longe da doença, é necessário criar o hábito de reflexão diária, além de reservar tempo para o autoconhecimento.
“É necessário refletir sobre a própria existência. Quem se fecha infelizmente abre espaço para conflitos internos, que podem, em muitos casos, sufocar a mente, causando dores até mesmo na parte física do corpo. Assim a pessoa se torna totalmente enferma”, esclarece a psicóloga.

“Doença começa a ser tratada em casa pelos familiares”

Os sintomas da depressão em crianças e adolescentes são diferentes dos observados em adultos. A psicóloga Mariana Abbot, especialista em Gestalt-terapia, que atende adolescentes, casais e famílias, diz que quanto mais nova a pessoa, menos característicos serão os sintomas e que muitas vezes a criança é tratada como se estivesse com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Por isso é preciso atenção dos pais na hora de identificar um possível quadro depressivo do filho.
“Ao contrário do que se pode se pensar, o diagnóstico começa a ser tratado em casa a partir da observação dos familiares atentos ao adolescente. Os sintomas de pressão mais comuns nas crianças e adolescentes são raiva, irritabilidade, agressividade, tristeza, sensação de culpa, melancolia, choro fácil e isolamento. E não podem ser confundidos com fraqueza ou outras doenças. Nessa fase se eles isolarem muito existem problemas emocionais graves e que necessitam de acompanhamento”, explica Mariana Abbot.
Segundo a psicóloga, os gatilhos desencadeadores desse mal nessa faixa etária são vários, como uma situação ou experiência frustrante em que se deparam, separação dos pais, morte de alguém próximo. O fator genético também é um grande desencadeador do transtorno, embora ele não seja determinante. Ela orienta os pais a sempre jamais ficar atentos a qualquer comportamento diferente do filho, se isso acontecer o melhor a ser feito é buscar ajuda.
“Detectando algo, o psicólogo ou psicoterapeuta possibilitará meios para que o adolescente expresse suas emoções e facilitará o desaparecimento dos sentimentos ruins. Tristeza, irritabilidade ou alguns dos sintomas citados acima são normais na infância ou juventude, mas se tornam preocupantes quando frequentes”, ressalta.
Para Mariana Abbot, o aumento do número de crianças e adolescentes ansiosos é reflexo de uma sociedade altamente competitiva, que impede viver o presente.
“Essa pressão acontece em uma fase aonde ainda não existe o auto-suporte consolidado para enfrentá-la adequadamente. A ansiedade é um problema emocional diferente da depressão, mas que em crianças e adolescentes traz sintomas parecidos como os já descritos. E tanto uma quanto outra levará a ações extremas, incluindo o suicido” esclarece.
Como a depressão traz consigo sintomas como dificuldade de relacionamentos e falta de concentração, a doença acaba atrapalhando o rendimento escolar. Mas existem várias formas de prevenir o surgimento dos transtornos.
“Os familiares devem prestar mais atenção às necessidades dos adolescentes. Só assim possibilitarão uma rotina mais harmônica e dentro dos limites deles. Além disso o filho deve ser poupado de conflitos”, frisa Mariana Abbot.
Muitas vezes o sofrimento emocional é silencioso. Daí a importância de campanhas como o Setembro Amarelo, para alertar a população para a gravidade da depressão.
“O ser humano diagnosticado depressivo não tem condição de cuidar-se, precisa de ajuda e cuidado externo. E precisamos estar atentos para ajudá-lo e acolhê-lo e evitar que o mal irreparável aconteça. O suicídio pode ser evitado se a doença for identificada e tratada com antecedência”, lembra a psicóloga.

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