Ternura

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Onde esta seu carinho? Em que lugar enfiaste sua ternura? Pode me dizer onde habita sua suavidade? Por que tens coração duro, de pedra, frio? O que tens ganhado com toda sua razão, discursos, vontade de independência? Quantas coisas e pessoas perdeu na vida com agressividade, rispidez, crítica, dureza e belicosidade? Giovanni Pico Della Mirandola traduziria onde está seu reino angelical?
A crise de afetividade de nossos dias é raiz, matriz geradora de boa parte dos conflitos afetivos de nosso tempo. Especialmente fomentando o egoísmo, dificuldade de comunicação, isolamento, agressividade, competição, falta de respeito, crítica exagerada, impaciência, irritabilidade e agressão entre as pessoas. O absurdo de Camus hoje é revivenciado nas histórias do amor. Mas quem quer amar?
Hoje, nos consultórios, é comum ouvir histórias de crise de relacionamento. Primeiro é que transformamos na pós-modernidade o amor em objeto, produto de mercado, onde coisas e pessoas viraram mercadoria. O segundo aspecto é a crise da ternura, do sensível, do romance, da suavidade e da delicadeza , ao qual vou me ater neste ensaio. Amor é cuidado, zelo, carinho, respeito vontade de estar junto de querer ver o outro bem e fazer bem a pessoa com quem estamos.
A ternura é a base constitutiva do envolvimento a dois. É o que nos traz a dignidade do humano, o melhor que podemos ser e oferecer, é a base para nossa individuação. O amor constitutivamente suaviza o espírito, enlaça, reflete o que podemos ter de melhor miticamente, é o canto de Orpheu que, por amor, apazigua as feras, deuses, e monstros, que se prostram diante da magnitude do belo. O canto que ao cantar encanta por que vem do coração.
Este  belo na pós-modernidade se perdeu. É criticado, espezinhado, ridicularizado porque na atualidade o amor tornou se disputa de poder, controle. Prevalecem a vaidade, o orgulho, que se reproduz no isolamento, na solidão e na dissolução dos vínculos. Amor e controle são incompatíveis… e pobre do ser que racionalizar seu amor. C. G. Jung dizia que o amor é sombra do poder e vice-versa. Onde existe um não há espaço para o outro. Certeiro e cruel na sina da desventura de nossa atualidade.
Afeto milícia do pranto da eternidade que se consola com o sorriso divino. O elementar colapso da razão que se dá quando toda forma de controle se perde:”seu afeto me afetou é fato” canta o Teatro Mágico. Afeto é palavra tão dita, repetida, mas tão pouco compreendida. O abissal insondável da psique humana, com razão e vontade própria…
“Não existe razão nas coisas do coração” postulava o apóstolo Paulo, recantado por Renato Russo. Mas a onipotência do ser humano na pós-modernidade,  o emponderamento, a resiliência, a belicosidade, discursos pré-fabricados a serviço de um mercado da insatisfação, produtor de ilusões, hoje tão propalado, retira do indivíduo a sua ternura, suavidade, graça, leveza. E prepara-o para uma guerra interna contra os próprios sentimentos, contra a entrega, a paixão, o romantismo com o que poderia ser bom. Posteriormente a guerra estende se a quem está ao lado, ao parceiro ao romance… e a vida  torna se árida, seca vazia…
O produto direto deste cenário é uma legião de pessoas frustradas, arrebentadas afetivamente, duras e críticas, solitárias, depressivas, amarguradas. Um ótimo perfil para um mercado consumidor que se alimenta dos modismos… pessoas satisfeitas, bem resolvidas não consomem. O desamor neo liberal.
O que você tem feito de sua ternura, docilidade e carinho?

Jorge Antônio Monteiro de Lima,  analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e  mestre em Antropologia Social pela UFG.
Site: www.jorgedelima.com.br

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