O homem DVD

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Ele é bom de cama e de língua! Inesquecível! Jamais uma mulher, após uma noite de amor, o esqueceu. Atlético, viril, um típico macho, daqueles em extinção.
O sorriso dele, ao se olhar no espelho estufando seu peito com botões abertos mostrando um amontoado de pêlos, traduz sua autoconvicção. Ele próprio se apelidou de gostoso! Conhece alguém assim?
Após o delírio de megalomania, no qual a virilidade tomou posse do espírito, quando a vida prática bate à porta, a rotina dá o ar da graça e o par de chifres torna-se impossível de ocultar, ele talvez se perceba como alguém não tão interessante: “Credo! Apenas mais um?! Será?”
Ele é bom de garganta porque conta muita vantagem, faz mais promessas que político.  É bom de cama porque é o famigerado “DVD – Deita, Vira e Dorme”. Mas é importante lembrar de suas pequenas flatulências e de seu famigerado ronco. Frustrada, sua nova companheira, olha pro teto e indaga a Deus: “O que fiz de errado? Devo ter passado roupa na tábua dos Dez Mandamentos”.
Este é o problema de sexualidade mais comum entre os homens, copiado por muitas mulheres: a falta de sintonia e de tesão frente a própria sexualidade em um mundo materialista, em que o coito tornou-se uma expressão mecanicista, por falta de entrega, amor, sintonia.
Lamentavelmente, falta tesão pela vida na maior parte das pessoas, até para que haja realização no amor. Como a vida tornou-se um agente “de plástico”, superficial, vida em terceira pessoa, vazio e apatia comuns – como quase tudo, hoje há um kit mágico de receitas prontas –, deixando o ser humano ainda mais preso a uma série de estigmas toscos, preso a artificialidade. Tudo isso engessou a sexualidade. Mas por que tornou-se apelo de marketing?
Para completar o lodo, virou moda o exibicionismo. Não basta transar: tem de mostrar publicamente como é que se faz. Tudo agora é uma engrenagem patética, uma receita às avessas de insatisfação plena, compartilhada por milhares de casais. E dá-lhe chifre e separação! Exagero?
O quadro piora muito quando tudo vem camuflado, travestido, na fachada de que é um casal fogoso, cheio de aventuras e satisfação mútua. Quem realmente “é” não necessita ficar falando aos quatro ventos! Ao contrário: quem muito fala aqui é político.
A necessidade de justificativa social extrema, com exposição da intimidade acentuada, reflete a mais pura insatisfação. É a moda do relacionamento de fachada.
Um indivíduo DVD é, em verdade, o antigo campeão de masturbação da escola, um egoísta extremo, daqueles que não se preocupam nenhum pouco em dar prazer a seu parceiro. Um dia, duas semanas, dois anos e o referido egoísta ou DVD logo ganha a comenda “Euclídes da Cunha”, o troféu de corno do ano.
Boa parte dos adultérios deve-se exclusivamente a falta de assistência ao parceiro. E isso ocorre com homens e mulheres indistintamente, pois o que falta em casa, sobra a rua. Exigir cuidado de quem não se cuida direito ou de uma pessoa egoísta é falta de observação na escolha de um parceiro. Um erro comum citado invariavelmente na frase: “um dia ele muda!”
Na prática clínica notamos que mudanças ocorrem, geralmente motivadas pelo fim de um relacionamento, ou seja, quando já é tarde demais e a relação foi para o espaço. Egoísmo e ansiedade tiram o tesão de qualquer relação. Mas fica uma dúvida: por que esperar acabar para se cuidar? Por que, com tantos lares desfeitos, ainda persiste na negação de problemas de sintonia entre casais? Por que hoje em dia usamos da projeção de culpa para colocar a falha em nosso parceiro? Por que usamos da fuga como subterfúgio para a falta de sintonia? Por que é que, com tantos livros de auto-ajuda, com milhares de programas televisivos sobre o tema, o mesmo erro continua comum?
A sexualidade reflete a essência humana. O egoísmo moderno reflete-se na relação íntima, torna-se uma masturbação coletiva, fazendo a apatia tão comum à nossa volta. Você vai ser mais um?

Jorge Antônio Monteiro de Lima,  analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e  mestre em Antropologia Social pela UFG.
Site: www.jorgedelima.com.br

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