Bullying

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Jorge Antônio Monteiro de Lima: "Não gostaria de mandar minhas filhas para a escola de colete a prova de balas! Uma reflexão sobre o atentado de 20 de outubro de 2017, na cidade de Goiânia. A intolerância venceu a alegria!" Foto: paulo josé/Tribuna
Jorge Antônio Monteiro de Lima: “Não gostaria de mandar minhas filhas para a escola de colete a prova de balas! Uma reflexão sobre o atentado de 20 de outubro de 2017, na cidade de Goiânia. A intolerância venceu a alegria!” Foto: paulo josé/Tribuna

Lamentável a tragédia que selou a vida de um adolescente,agora um assassino, dois jovens de 13 anos mortos e de quatro crianças feridas. Vivemos a era da intolerância, da agressividade, do “sincericídio”, da falta de respeito e compaixão. Nossa vida é permeada por ataques diários de pessoas que não têm educação, respeito, capacidade de convívio social, porque nos tornamos frios e distantes do outro, de nosso irmão que esta a nosso lado. Esta tragédia deixa evidente que não sabemos mais brincar, não temos mais a capacidade de levar na esportiva certas ofensas ou de revidar com inteligência.

 

Eu sofri bullying toda minha infância, adolescência e agora na vida adulta. Sempre existiu um espírito de porco para me atentar, falar maledicências e me atacar.  O bullying que sofri me fez ficar mais esperto, me fez aprender a lidar com os problemas, a tirar onda e a brincar com quem também provocava, não peguei em arma para assassinar ninguém.

 

Mas em nossa conjuntura atual perdemos a graça, a capacidade de brincar e de levar as coisas na esportiva. Em meu bairro, na cidade de Goiânia, existem mais igrejas que locais de diversão. E imaginava que pessoas mais religiosas deveriam se tornar mais tolerantes, com mais compaixão, mas o que vem ocorrendo é o contrário. Existe muita igreja e rara tolerância ao próximo, às diferenças, ao erro do outro. Não sabemos mais brincar sem apelar e agora nossa criança é um assassino contumaz, que promete matar e mata. Onde que se perdeu a inocência da juventude?

 

Hoje nossos jovens brincam com games que banalizaram o assassinato. Na TV escuto uma doida parlamentar falando de armar o povo de forma ensandecida. Vejo candidatos falando de luta armada e o ódio distribuído na sociedade por todos.

 

Este atentado lamentável em nossa bela cidade evidencia seu lado sombrio, o da violência  enrustida feita pela intolerância e pela falta de respeito. Falta educação, falta aprender a cumprimentar os colegas, a servir, a ser prestativo, cordial, a ter compaixão. Existe ainda nesta cidade muitas pessoas arrogantes que acreditam estar acima da lei, isto começando por nossos governadores e políticos, que evidenciam diariamente sua intolerância.

 

Em nosso Instituto, diariamente atendemos pessoas vítimas de violência social, doméstica e vários traumatizados sofrendo porque foram vítimas da falta de respeito. Esta é uma tragédia lamentável, uma das várias para as quais não quero me acostumar. Quero acreditar que nossa cidade pode ser civilizada, com pessoas educadas, que se respeitam. Uma cidade com pessoas de bem. Quero acreditar que ainda podemos ter alegria pra brincar sem medo de levar um tiro de alguém que se ofende… É hora de pensarmos nossa raiva, mágoa e intolerância, se pretendemos viver em um ambiente sadio.

 

Jorge Antônio Monteiro de Lima é analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e  mestre em Antropologia Social pela UFG. Site: www.jorgedelima.com.br

 

1 COMENTÁRIO

  1. Concordo com a sua análise e acrescento que os jovens de hoje estão aprendendo desde cedo a serem extremamente competitivos, o que na minha opinião acentua o individualismo já tão patente em nossa sociedade. Estamos perdendo de fato o sentido mais amplo de solidariedade e cada vez mais queremos o nosso, e que se danem os demais. Só posso entender esse crime absurdo sob essa ótica, a do individualismo extremo que levou o garoto a desconsiderar totalmente os seres humanos que eram os seus coleguinhas de turma. A desvalorização máxima do próximo como ser humano, ser que se tornou elegível para ser abatido a tiros por motivo fútil. Extrema intolerância, como tem sido a nossa sociedade.É esse modelo de sociedade que queremos para os nosso filhos, baseada apenas na competicão e no individualismo exacerbado? Creio que este modelo cansará e um dia voltaremos a ser mais solidários e mais preocupados com o próximo!

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