Carlos André: “A escola hoje tem muito conteúdo e pouca qualidade”

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Entrevista foi publicada  no jornal impresso do Tribuna do Planalto

Entrevistado: Carlos André
Por: Daniela Martins e Manoel Messias Rodrigues

Após passar por grandes escolas de Goiânia, o professor Carlos André e sua mulher fundaram o Instituto Carlos André, especializado em Língua Portuguesa e Redação. Nos seus bancos, sentam aqueles que buscam o conhecimento para passar em vestibulares, concursos públicos ou atualização jurídica. Autor dos livros “A nova ortografia da Língua Portuguesa” e “Na ponta da língua”, ambos editados pela Kelps, Carlos André também é advogado e conselheiro da OAB Goiás. Na sua trajetória, ele constatou a falta de uma tradição do ensino de Língua Portuguesa, principalmente no tocante à gramática normativa e à leitura. “Em Goiânia, observamos uma propensão para Exatas e Biológicas. Por isso fundamos o Instituto, com a finalidade de fazer com que alguém efetivamente leia, para que possa escrever e saiba gramática. A minha grande luta é para que nosso estado de Goiás passe a ser um estado de leitores, leitores fervorosos. Quereria que as pessoas se voltassem mais para o estudo da língua, porque língua é poder”, diz.

ESCOLA – O sr. é um crítico da qualidade do ensino no Brasil, de forma geral. O ensino da Língua Portuguesa recebe esse reflexo da baixa qualidade?

Carlos André – Numa escala de 1 a 10, eu daria no máximo dois para a qualidade do ensino. Na verdade, o ensino hoje, em termos de Língua Portuguesa, é efetivamente voltado para a prova. Não é um ensino voltado à aprendizagem. Mas quem critica diz: “Não, mas tem que fazer um ensino voltado para a prova senão o aluno não passa”. Eu digo que não! Quem ensina para que efetivamente alguém aprenda, essa aprendizagem dá a ele a capacidade de reflexão. Hoje, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não aceita mais decoreba e as escolas continuam da mesma forma, ensinando regras que, de repente, não é o que o Exame quer. O Exame quer reflexão.

Principalmente com relação à Língua Portuguesa…

Sim. Veja, por exemplo, quando alguém vai aprender concordância verbal ou nominal, qual a finalidade? Primeiro é entender que o processo de concordância é um processo sociológico. Quando alguém diz, por exemplo, “nóis vai”, eu não posso dizer que esse alguém está falando errado. Eu preciso entender de onde esse alguém vem, ter a percepção de qual é o meio social em que ele vive para ter a percepção de que aquela concordância que ele acabou de usar é uma concordância coloquial e que vai, de certa forma, ou demonstrar a classe social dele, ou demonstrar um determinado regionalismo e entender, ao mesmo tempo, que isso é poder. Que quem usa isso, por exemplo, em um tipo textual de argumentação dissertativa, esse alguém certamente será cobrado socialmente. Ensinar Língua Portuguesa não é ensinar somente Língua Portuguesa. Você veja que temos livros de Filosofia, Sociologia aqui, eu leio Sociologia para ensinar para os meus alunos. Tenho uma gramática, mas, ao lado, tenho livro de Sociologia, Literatura… O problema está aí: lê-se muito pouco. O ensino da gramática hoje é só por meio da gramática, e nós não aceitamos isso aqui no Instituto Carlos André. Temos que saber muita gramática, mas por meio de conceitos sociológicos, literários.


O professor é o elemento-chave ou o sistema educacional é que tem que mudar para chegar a esse novo estágio de ensino da Língua Portuguesa?


Vivemos a sociedade do espetáculo. Guy Debord [filósofo e escritor francês autor do livro “A Sociedade do Espetáculo”] fala sobre isso. Na sociedade do espetáculo, alguém tem que ser visto. Daí eu digo: a culpa também é do professor. É do sistema, que é caótico, que não dá ao professor a oportunidade de um trabalho digno. É fato isso. Porém, não se tem a menor dúvida de que muitos colegas também têm certa culpa nisso. Temos, vamos colocar para nós todos. Precisamos ter a atenção dos alunos e, às vezes, infelizmente, para ter a atenção do aluno, o professor teoricamente é levado a ter um ensino apenas pontual. Acho isso um problema muito sério, no sentido de que ele ensina de maneira espetaculosa, sem passar o conteúdo como deveria ser passado. O sistema não auxilia e o professor, me parece, se rende a um sistema que não é bom, não é eficaz.

“Quando a hierarquia deixa de existir, a grande tendência é o desrespeito”

As diretrizes atuais do sistema de educação possibilitam a realização, naturalmente, de aulas voltadas para essa formação integral, mais completa. É preciso aplicá-las. Dentro desse contexto, a reforma do ensino médio que está em curso contribuirá para a melhoria da qualidade do ensino da Língua Portuguesa?

Eu fico impressionado com quem critica essa reforma. É claro que ela tem problemas, mas é impressionante como traz exatamente o que acabamos de falar, o aspecto da interdisciplina, que é fundamental. Como um professor de Língua Portuguesa não tem especialidade também em Literatura e Arte? A primeira coisa que fui fazer como professor de Português, para que eu pudesse dar aula de produção textual e redação, foi entender arte, fazer um mestrado em Crítica Literária para compreender como a Língua efetivamente está na Literatura. O Enem já se adiantou à reforma. O Enem cobra, na prova de Linguagem, Códigos e suas Tecnologias, essa interdisciplina. Depois vem o MEC [Ministério da Educação] e confirma isso com a reforma. A reforma é extraordinária, e acredito que se for bem aplicada pelo governo será fundamental para que o professor veja isso. Agora, o professor tem que estudar. Nós temos que estudar.

A flexibilização da grade curricular, prevista no novo Ensino Médio, é positiva?

É totalmente positiva.

O excesso de conteúdo é um problema na formação do aluno?

Não quero ser desrespeitoso, mas, um aluno que tem que estudar briófita, pteridófita e será de Relações Internacionais… Ele tem que saber a lógica das plantas por questões de uma política de sustentabilidade. Quem tem de saber isso é alguém da área de botânica. O excesso de conteúdo é revoltante. Agora, dois assuntos que tem que aprofundar mesmo, nível de profundidade máxima: matemática e linguagem. Essas disciplinas têm que ser tratadas com profundidade e são tratadas superficialmente.

Com relação a conflitos que chegam a gerar situações de violência verbal e até física em sala de aula, o sr. declarou recentemente que a postura do professor tem gerado uma aproximação que leva à falta de respeito por parte dos alunos. No entanto, vivemos tempos de mais aproximação, inclusive por conta da internet, redes sociais. Qual deve ser a postura do professor na sala de aula?

Esse é um dos temas mais incríveis, é uma das perguntas mais interessantes… Saber lidar e debater esse tema resolverá os problemas do ensino no Brasil. Leandro Karnal falou uma coisa interessante: com as novas tecnologias acabou a hierarquia de pensamento. Isso é grave, é muito grave. Por mais que tenhamos bons alunos, que podem contribuir para determinada aula, o orientador, o professor, teoricamente, é aquele que tem que ter um domínio maior do conteúdo. Note, tem que haver essa divisão, por óbvio obrigatória, entre aquele que tem mais experiência em termos de conteúdo e de raciocínio e aquele que, portanto, tem que aprender, embora possa auxiliar. O que aconteceu com a sociedade do espetáculo? Como eu tenho falado, como tudo é um espetáculo, o professor tem que cumprir um papel de gestão em sala de aula, de orientação, que é o que se quer. Essa hierarquia deixou de existir e a grande tendência é o desrespeito, a falta de disciplina. Então, surgem alunos que não se comportam em sala de aula, que desrespeitam o professor por meio de uma mera opinião. Veja, o professor tem cientificidade, estudou anos para aquilo e o aluno, com uma opinião, tenta mostrar que sua opinião é hierarquicamente mais importante que a opinião do professor. Mas ele tem que refletir que existe uma hierarquia de pensamento, em tese, a opinião do professor seria mais relevante, pela experiência e pelo estudo que ele tem. Falar isso na era do politicamente correto é complexo, mas eu reafirmo, existe uma hierarquia sim em termos de pensamento.

Muitos professores permitem isso…

Alguns professores ou são despreparados, e por ser despreparados se aproximam do aluno não no aspecto da inteligência cognitiva, mas da inteligência emocional. Ou seja, ele não faz o papel do orientador intelectual, mas está com o objetivo apenas do aspecto emocional. Não quer que o aluno aprenda com ele, mas que o aluno goste dele. Isso é errado, o Brasil está passando por problemas por conta disso. Na Coreia não foi assim, no Japão não foi assim. E nós temos hoje uma filosofia de apenas investir na inteligência emocional, virou certo exagero. Então, para confirmar o que estou querendo colocar, por que a culpa é do professor? Porque ele está mal preparado, e quer ganhar o aluno apenas por meio da inteligência emocional. O professor não pode esquecer que tem de passar conteúdo, além da inteligência emocional. É claro que ele tem que passar a lógica da amizade, mas se o aluno não vir no professor o indivíduo que tenha mais conhecimento do que ele, com certeza haverá desrespeitos. Ele vai bater no professor, que é o que acontece na escola pública, vai chamar o professor de “velho”, vai enfrentar o professor. E não existe educação salutar sem hierarquia. Não existe. Prova disso é que, lamentavelmente – e me perdoem por usar esse advérbio –, as escolas militares estão aí tomando conta do ensino público. Por quê? Porque as escolas não estão conseguindo responder nem a esse aluno que exige disciplina. A culpa é do professor.


“Por mais que tenhamos bons alunos, que podem  contribuir para determinada aula, o orientador, o professor, teoricamente, é aquele que tem que ter um domínio maior do conteúdo”



E os pais, onde entra a responsabilidade deles?

É engraçado, pensando em Aristóteles, na questão da educação primária e da educação secundária, e a Constituição fala no artigo 205, a família é o primeiro passo. E o primeiro problema são os pais que querem, como todos sabem, transferir essa lógica de disciplina para a escola. Só que, por motivos sobre os quais já falei, o professor não tem nenhum compromisso com isso, está fragilizado pela sociedade do espetáculo. Na escola particular principalmente, porque na particular ele é mandado embora se o aluno não gosta dele. Então, para a sobrevivência, digamos assim, ele se alia a esse sistema que é desastroso. Portanto, os pais têm tanto ou mais culpa que os professores.

Com relação aos professores e à escola, a correção estaria na formação acadêmica do docente ou na gestão escolar?

Primeiro, a gestão. A gestão da escola tem que ser rígida, e humana, porque rigidez e inumanidade não têm relação, ao contrário. Gestores humanos podem ser rígidos. Aliás, é da natureza humana, quem estuda psicologia para a lógica do início e do fim da adolescência, sabe que o adolescente precisa de disciplina, isso está provado. O gestor tem que deixar isso muito claro. E o professor, portanto gerido por esse gestor que deixa isso muito claro, tem que ratificar isso, confirmar isso em sala de aula. Isso que vai gerar efetivamente uma resolução nessa problemática toda. Há um nome que me incomoda muito. Estão tirando o termo “professor” e colocando o termo “facilitador”.

Na era do conhecimento, o contato excessivo com as novas tecnologias (tablets, smartphones) dificulta o aprendizado da redação?

Fernando Pessoa dizia que o ser humano é poliglota dentro da sua própria língua. Ele tem que ser. Meu filho usa muito a internet, mas tirou uma nota 956 na redação da UnB, porque desde criança ele lê bons livros, faz redação conosco e tem por óbvio a linguagem nessa nova tônica ligada a aplicativos etc., ou seja, o que quero colocar é que [o uso das tecnologias] pode não prejudicar, mas beneficiar aqueles que entendem que em cada meio existe uma linguagem específica. O grande problema é que a família não cumpre esse papel social de estimular a leitura. Quantas crianças chegam em casa e veem a mãe lendo? Eu diria que em Goiás, pouquíssimas; mas veem a mãe com o celular. Então qual a linguagem que elas aprendem ou apreendem? Essa linguagem, por exemplo, do whatsapp. Quando eu ministro aula pra eles, é quase que a descoberta de um novo mundo. E o professor sofre com isso, não sabe lidar com isso. Então ele teria que ser rígido no sentido de exigir que o estudante saiba concordância, saiba regência, mas o que o professor faz? “Não, realmente, não é importante, não. Isso já é arcaico. Qual a importância de se colocar a vírgula depois de um vocativo?” Aí é que está o erro. Essa tentativa de, para ganhar o aluno, dizer aquilo que ele quer ouvir. Essa é a lógica do ensino do espetáculo, eu chamo de a sociedade do espetáculo ter um ensino do espetáculo. Então eu penso que quem tem família sólida linguisticamente a tecnologia só auxilia. Mas quem não tem, e ainda tem uma escola que confirma isso que estamos falando, está completamente perdido. Sou presidente da Comissão de Exame de Ordem da OAB. A taxa de reprovação da OAB no último exame foi de 86% na segunda fase. Conclusão: os bacharéis de direito não sabem escrever. (Leia mais trechos da entrevista com Carlos André no nosso portal)

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