EXCLUSIVO: “O conhecimento linguístico é poder”

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Leia trechos exclusivos da entrevista que o professor Carlos André concedeu a versão impressa do jornal Tribuna do Planalto.

ESCOLA – O excesso de informação, que pode ser um problema, também apresenta pontos positivos, como o fácil acesso a livros, artigos…

Carlos André – Pode auxiliar demais. Outro dia fui dar aula em Manaus. Para preparar a aula para determinado assunto, eu teria de ler vários livros, mas hoje posso ter todos no meu iPad. Ora, se eu tenho a quantidade de informações, para mim, que já tenho certa experiência de saber como ler, isso pode ser muito interessante. Veja que hoje há uma nova forma de ler. Antigamente se lia um livro inteiro; hoje se lê instrumentalmente. Eu leio o capítulo oitavo de um livro, abordando o tema justiça, para relacioná-lo, por exemplo, com um trecho de um livro de biografia. Então acho que mudou-se a forma de ler. Hoje é importante a capacidade de relacionar. Então, muita informação só é boa com muita relação. Se a pessoa não souber relacionar o que lê, é um desastre, é desesperador.


Como aprender a relacionar?

Pois é. Isso é uma vida. Primeiro é ter percepção. Percepção de que uma coisa está ligada a outra, sempre. As coisas estão sempre interligadas. Se vou ler um livro, “O triste fim de Policarpo Quaresma”. É literatura. Mas se eu leio, por exemplo, Boris Fausto, sobre a República Velha… Pronto, pego “O triste fim de Policarpo Quaresma”, que vai literariamente falar sobre a República Velha, e Boris Fausto, que no livro dele de história também vai falar sobre a República Velha. O assunto é o mesmo, mas com bases intelectuais diferentes, um literário outra histórica, faça a relação. Essa é a capacidade de relacionar, é pegar ciências diferentes, autores diferentes, e fazer com que eles se dialoguem entre si.


Isso tem sido feito em sala de aula?

Isso não é comum em sala de aula. Fazer algo diferente disso não é mais leitura. Eu tenho falado muito isso. Professor de português que não sabe história não pode ser professor de português. Um professor de língua portuguesa que não sabe literatura, não pode ser professor de português. Porque ele não serve nem pra ensinar o aluno a passar no Enem.


Saber gramática normativa continua sendo essencial?

Sim, tanto que o Enem mudou agora. A competência 1 do Enem criou agora os chamados erros graves. Se o aluno escrever “apartir” tudo junto, ele não pode ter mais nota máxima no Enem, é impossível. Antigamente, se aceitava. Alguns argumentam que isso seria muito duro com o aluno. Não, não é, porque se trata de um momento de aprendizado com a língua. O conhecimento linguístico é poder. É nesse momento que se tem mais que cobrar do aluno. Nós ridicularizamos a inteligência dos adolescentes. Dou aula para adolescentes e sei que muitos pegam muito mais rápido um assunto do que um adulto. Nós infantilizamos o adolescente, isso é muito grave. O Brasil infantilizou a capacidade intelectual de um menino de 16 anos, que tem condições, por exemplo, de usar mesóclise. Têm acontecido casos aqui de alunos bons leitores que usam a conjunção, por exemplo, “porquanto” numa redação pesada e o professor diz “Não use porquanto, use ‘porque’, porquanto é muito clássico”. Poxa, vida! É um desserviço, é lamentável, eu fico doente com isso.


A constante e dinâmica evolução da língua não caminha no sentido oposto à gramática normativa?

Interessante sua colocação. Não caminha, porque essa linguagem (normativa, padrão) continuará sendo usada em determinados momentos. Um advogado jamais falará na tribuna como ele escreve nas redes sociais. Essa é a diferença. É como se eu dissesse que a partir de 2025 as pessoas só pudessem ir à Tribuna de biquíni. Não vai acontecer. As pessoas vão continuar indo à Tribuna com uma roupa mais formal do que vão à praia. E é da natureza humana essa continuidade. Hoje temos a moda retrô. Por quê? Porque isso é pendular. Essa ideologia de que a norma-padrão da língua portuguesa vai acabar, deve ser extinta, isso é coisa que veio lá da Alemanha e da Inglaterra, final do século XX, com determinadas doutrinas que até hoje perduram aqui e no mundo e que, se não acabarem, na minha opinião, elas vão acabar com a gente.

(Leia a entrevista publicada na versão impressa do jornal Tribuna do Planalto)

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