Rubens Otoni: “O PT pode indicar o vice (ao governo) de quem apoiar Lula em Goiás”

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Deputado Federal Rubens Otoni (PT)

O deputado federal Rubens Otoni, um dos principais nomes do PT no Estado, diz que o apoio a Lula presidente é condição inegociável para se ter o apoio de seu partido nas eleições de 2018. Realista, ele acredita que por isso nem PSDB nem PMDB serão parceiros no próximo ano. O momento, segundo Otoni, é de conversa com partidos que estão alinhados com o PT nacionalmente. Para que apoiem e façam palanque para o ex-presidente, o partido está disposto até a abrir mão da cabeça de chapa para o governo de Goiás na próxima eleição. O deputado recebeu a Tribuna na quinta-feira, 26. A seguir, a íntegra da conversa.

Tribuna do Planalto – O presidente Temer se livrou mais uma vez das investigações e permanece no governo. Como é que fica o País?

Rubens Otoni – Na prática este governo já acabou. O que está em jogo na luta política brasileira é o que virá após o governo. Tem gente que quer que esse modelo continue e não necessariamente com eleições diretas. Prefere que haja uma sucessão onde o poder seja decidido por meio de eleições indiretas, como foi o caso do presidente Temer, mas a sociedade não vai admitir isso e vai cada vez pressionar mais.

Há algum risco de não termos eleição direta no ano que vem?

Risco sempre existe. É o desejo daqueles que hoje estão no poder. Esses que estão no poder optaram pelo golpe porque tinham perdido a eleição em 2002. Perderam em 2006, em 2010 e, ao perderem a eleição em 2014, perceberam que não valeria a pena esperar mais tempo, mais quatro anos. E aí optaram pelo golpe. Houve uma união com Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o que viabilizou a vitória de Cunha para presidente da Câmara. A partir dali começou a grande conspiração que prejudicou o país.

O Temer, naquele momento, fazia parte dessa conspiração?

Não necessariamente. Mas, a partir do momento em que ele seria beneficiado, passou a fazer. Essa aliança Aécio/Eduardo Cunha começou a trabalhar para ganhar apoiadores. No primeiro momento, parecia fantasiosa. Depois foi ganhando adeptos e o próprio vice-presidente acabou aderindo à proposta.

O PT errou onde? Ou não errou?

Um partido como o PT tem falhas, limitações. Não foi só um erro. Foram vários erros. Isso faz parte também. A questão é que você não deve perder o controle mesmo quando erra, e nós perdemos o controle do Congresso Nacional. Ao perder essa maioria, você fica fragilizado e refém do grupo que, tendo a maioria, controla.

Vemos agora um processo de desmoralização do Congresso, onde o sr. está. Isso é irreversível ou passa?

Na vida tudo passa. Tudo depende da maneira como você trabalha. Hoje, no Brasil, a gente vive um momento em que não há nada mais desgastado, nada mais desmoralizado, do que a política e os políticos. Isso fez parte do script daqueles que queriam chegar ao poder. A partir do momento em que você desmoraliza a política, fica mais fácil vender ilusões e saídas fáceis. Aqueles que estão no poder hoje, se tiverem uma brecha para justificar não ter eleição no ano que vem, não tenham dúvida, vão trilhar esse caminho.

Qual seria esse cenário?

Isso que eu digo é: se eles enxergarem um caminho de não ter eleição no ano que vem. Eu não acredito (nessa hipótese). O povo brasileiro não vai entender isso. Mas eles poderiam inventar alguma coisa assim: “Ah, podemos até tirar o Temer. Substituímos o Temer por via indireta, e aí, como está muito próximo para se fazer uma eleição, quem sabe podemos dar um tempo maior. E a eleição, ao invés de ser 2018, pode ser em 2022.” Isso eu já ouvi. Mas eu não acredito.

Mas o que gera essa discussão?

O fato de Temer não ganhar a eleição em 2018.

Essa mudança no jogo nacional criou desequilíbrio no jogo de força aqui no Estado de Goiás?

Sim. O jogo político nacional fragilizou as forças do campo popular, do campo democrático; as forças que sempre trabalharam com políticas sociais. No debate atual, ficamos na defensiva nacional. O governo Temer já veio determinado a fazer a tarefa rapidamente. Esse governo é como o ladrão que entra numa casa. Ele (o ladrão) tem que entrar rapidamente, pegar tudo que precisa pegar, fazer tudo que precisa fazer e sair mais rápido ainda, antes que o dono chegue. É mais ou menos isso que aconteceu na política. Isso desequilibrou o jogo nos estados porque as políticas públicas foram atingidas. O compromisso deles era com o capital financeiro internacional. Não era com o povo. Tanto é verdade que esse governo tem 90% de rejeição e não está nem um pouco preocupado com isso.

O PT teve o governo federal, a prefeitura de Goiânia e a prefeitura de Anápolis. Não conseguiu chegar ao governo de Goiás. O que o PT vai fazer agora que não tem mais nada disso?

O trabalho é normal. A retomada do trabalho já está sendo feita. Na política, estamos acostumados com isso. Cabe a nós continuar fazendo o trabalho. O PT é um partido muito sólido em Goiás porque a gente não trabalha muito com barulho, tentar ganhar visibilidade a todo custo. A professora Kátia Maria dos Santos (PT), que foi eleita agora presidenta do partido, está liderando um trabalho muito importante e assumiu o desafio de chegar ao final de 2017 com o partido organizado em todos os 246 municípios. Depois disso, teremos outros desafios.

União PT e PMDB dá liga no Estado?

Vai depender do PMDB. A liga é o Lula. Vamos conversar e dialogar com quem apóia o Lula.

 Há conversa entre PT e PMDB? Entre o sr., Antônio Gomide (PT) e Daniel Vilela (PMDB)?

Não. Não. Conversas individuais têm em todo lugar. Agora, a conversa será feita pelo partido. A executiva só vai dialogar com quem ceder palanque ao ex-presidente Lula. Não tem sentido trabalharmos com alguém que esteja contra o nosso projeto nacional. Com aqueles partidos que sinalizarem a possibilidade de estar juntos conosco, o PT vai conversar. Neste momento o partido já está dialogando com aqueles que estão sinalizando no Congresso Nacional com posições que convergem com a nossa em nÍvel nacional, por exemplo PCdoB, PDT, Psol, PSB. Esses são os partidos com os quais inicialmente estamos dialogando.

Há possibilidade de diálogo com o PSDB ou com outros partidos da base do governo no Estado?

Não. Aqui em Goiás, não, porque o que determina para nós é o cenário nacional. No cenário nacional, os nossos adversários estão bem determinados. São aqueles que estão dando respaldo ao governo Temer.

Mas o PMDB não é adversário nacional?

Pois é. Nós não estamos conversando com o PMDB, por sermos adversários nacionais. Poderemos conversar, desde que eles tenham uma mudança na posição.

Em Goiás, com o Maguito Vilela, essa possibilidade seria mais viável?

Não sei, porque teria de ter maioria. A conversa não é com liderança, é com o partido. Se ele falar pelo PMDB, pode ser que sim.

PT e os partidos de esquerda têm nomes para lançar para o governo de Goiás no ano que vem?

Sim. Essa não é a dificuldade. A questão é ver a conveniência e a necessidade de fazer (isso). Por exemplo, na eleição passada nós lançamos candidato ao governo sem aliança.

Mas houve a tentativa de aliança?

Sim. Mas, mesmo não tendo aliança, lançamos candidato a governador. Garantimos nossa representação na Assembleia e na Câmara. Cumprimos o nosso papel.

Que nomes o PT teria?

Vários. Mas não nos interessa essa discussão agora. A discussão que nos interessa agora é ver quais partidos estariam dispostos a ceder o palanque ao Lula. Esses que vierem, podem apresentar suas sugestões de nomes, seja para governador, seja para o Senado, para vice-governador ou para as disputas para deputado. Hoje, por exemplo, PT, PCdoB e PDT estão votando juntos na Câmara. Na eleição passada, esses três partidos tiveram cerca de 500 mil votos.

Mas o PDT é da base do governador Marconi Perillo.

Pois é, eles vão ter que fazer a opção. Vamos caminhar com quem fizer palanque para o Lula.

 O trunfo do PT é Lula. Há certeza da candidatura dele?

Sim. Isso é definido. Hoje o que sobrou para os nossos adversários é tentar criar a dúvida sobre a candidatura do Lula. Não existe mais tempo, mais espaço jurídico, para conter a campanha do Lula. No PT, de A a Z, o plano é Lula.

Com tudo que o PT viveu, o partido sendo ligado a corrupção, não existe o temor de perder nomes, na janela de filiações?

Não. Mas, se tiver que perder, é vida que segue. Cada um tem o direito de fazer o que quer e sofrer com as consequências das opções que faz.

 O sr. participou da tentativa de unidade de partidos da oposição em Goiás para o governo. Para o ano que vem, temos a seguinte situação: PMDB de um lado, PT de outro lado e o DEM, de Ronaldo Caiado, que também é oposição, de outro. Significa que a oposição estará novamente desunida?

O segundo turno existe para isso, para dar essa unidade, para que forças que não têm como se unir no primeiro turno possam se unir.

Isso não é mais um passo para uma nova derrota?

Depende. Cada eleição tem sua história. Eu sou daqueles que sempre se esforçam para fazer a unidade. Mas você tem toda razão. O cenário hoje aponta para que haja candidaturas diferenciadas no primeiro turno.

Dá para ganhar assim do governo?

Dá. Depende da maturidade, de como trabalhar. O resultado do jogo não depende só da nossa boa vontade. Depende do jeito que a gente joga e depende do jeito que o adversário joga. Temos que errar pouco e torcer para que o adversário erre mais.

PSDB dando apoio a Temer é bom, do ponto de vista eleitoral, para a oposição em Goiás, para o PT, no ano que vem?

A tendência é que essas forças que apóiam o presidente Temer sigam para o processo eleitoral do ano que vem tentando se esconder do governo que defendem. O meu entendimento é que o governo não vai fazer esforço para atender as forças políticas que estão disputando em seus estados. O Temer, nem candidato tem condições de ser.

Anápolis tem sido o fiel da balança nas últimas eleições estaduais. Sem Marconi Perillo e sem Iris Rezende, esse jogo pode mudar?

Acho que Anápolis sempre jogou um papel muito importante na política estadual, sempre jogou e vai continuar jogando. O PT é forte na cidade. Governamos por dois mandatos na cidade com muito êxito. Tenho convicção de que nas próximas eleições teremos condições de retomar a cidade, pelo trabalho que fizemos.

 Iris Rezende foi o fator de aproximação entre PT e PMDB no Estado, mas depois houve rompimento entre ele e Paulo Garcia. Da para retomar a conversa com o Iris?

Em algum momento dependia mais do relacionamento municipal ou estadual. Agora, não depende mais. A nossa situação já está resolvida. Temos a oportunidade de, em 2018, virar essa página de crise que começou em 2014, quando não ficaram satisfeitos e não nos deixaram governar. As conversas aqui no Estado se farão com quem estiver disposto a virar a página da política nacional junto com a gente.

O PT é oposição a Iris e a Marconi?

Hoje, é. O PT, aqui em Goiânia e também no Estado, está em campos diferentes.

Há criticas sobre a oposição feita pelo PT, de que é uma oposição que pouco aparece.

Não é.

 Não é uma oposição tímida?

Não. É o jeito de trabalhar. O jeito que sempre trabalhamos, que fez com que a gente avançasse. Temos a nossa posição. Somos da oposição e desenvolvemos nossa oposição com muita responsabilidade.

Marconi Perillo e Ronaldo Caiado são adversários e críticos de Lula. Com eles, há conversa também ou não?

Existe uma tese e a tese é que vamos buscar diálogo com os partidos que tenham interesse em apoiar o presidente Lula. Mas há posições que são cristalizadas. Nesse caso que você cita, não há chance nenhuma.

O PT vai construir uma agenda para Goiás?

Sim. Já estamos fazendo.

Uma agenda de propostas para 2018?

Sim, exatamente. Fizemos a renovação do diretório estadual. Nossa presidenta (do PT) já visitou mais de 150 municípios. Já começou um planejamento estratégico, com o auxilio da nossa direção nacional, para discutir o nosso programa para o Estado de Goiás. É um trabalho que já está em curso.

O PT tem um pré-candidato a governador?

Não. Hoje o PT não tem um pré-candidato ao governo estadual. Fizemos, inclusive, questão de não ter, para que, neste momento, sejam discutidas propostas.

Para ter palanque para Lula, o PT abriria mão de ter candidato ao governo?

Sim. Já estamos deixando de lançar nomes ao governo para ter palanque para Lula. Mas, se for preciso ter um nome para indicar palanque, nós indicaremos.

Para uma aliança que beneficie Lula, o PT pode lançar nome para o governo, para o Senado…

Sim. Uma chapa completa.

O PT pode indicar o vice do PMDB ou do PDT, por exemplo?

Sim. Podemos indicar o vice de alguém que apóia o Lula, claro. Em 2010, lançamos Pedro Wilson numa chapa que apoiava a Dilma. Então, não tem problema.

O Rubens Otoni é mais candidato a governador, a senador ou a deputado federal?

Eu já defini. Serei candidato a deputado federal.

Daniela Martins, Fagner Pinho e Vassil Oliveira

 

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