Educação começa na creche

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O Brasil não vai cumprir a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) no atendimento escolar de 50% das crianças de zero a três anos. É o que aponta o levantamento realizado pela Fundação Abrinq e pelo movimento Todos pela Educação sobre as creches no país, divulgado recentemente. De acordo com o PNE, essa meta deveria ser atingida em 2024, mas apenas em 2042 o Brasil deve conseguir oferecer creches para metade das crianças brasileiras nessa faixa etária.

Atualmente, apenas 30% das crianças de zero a três anos têm acesso à escola na primeira infância. Apesar de pouco, esse índice representa um crescimento significativo, considerando que, em 2001, apenas 13,8% das crianças dessa faixa de idade frequentavam a escola.

Mas, infelizmente, o aumento no número de creches não beneficia todo o grupo de crianças brasileiras porque o avanço se deu de forma desigual tanto regionalmente, como em relação à classe social. Uma desigualdade que tem impacto no desenvolvimento do país, condenando as regiões mais pobres a permanecerem na miséria e criando mais oportunidades para as mais ricas.

Nas regiões Sul e Sudeste, 41% das crianças tinham acesso à creche em 2015, quando a pesquisa foi feita. Já nas regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte esse índice era de 24%, 21% e 11% respectivamente. Em relação à renda da família, a distribuição dessas escolas também apresenta profundas desigualdades. Entre os filhos dos mais ricos, que representam uma parcela de 25% da população, mais da metade (52%) têm acesso às creches. Entre os pobres, esse percentual é de 21,9%, aponta o estudo.

A educação infantil é uma prioridade relativamente recente no país, que até poucos anos atrás oferecia ensino a partir dos 7 anos de cidade. O governo percebeu tardiamente a importância da escola de primeira infância no desenvolvimento da pessoa.

Muitas vezes, os esforços do governo para corrigir essa defasagem em relação à meta do PNE não são atingidos. Haja vista a construção de 12.925 creches em todo país previstas no Programa de Ações Articuladas (PAR) e Proinfância, das quais apenas 37% foram concluídas em dez anos; 4.453 estão atrasadas ou paralisadas e 642 foram canceladas, segundo levantamento da Transparência Brasil de agosto deste ano.

Estudos apontam que para se tornar um adulto bem-sucedido a criança precisa, entre outras coisas, desenvolver sua capacidade cognitiva desde a primeira fase da infância. É por volta dos dois anos de idade que o cérebro atinge o pico de sua atividade e é nessa fase que se formam as bases de aprendizado que serão utilizadas ao longo de toda a vida.

A negligência ao ensino na primeira infância tem impacto no desenvolvimento da criança e também do país, refletindo nos diversos campos da atividade humana; trabalho, pesquisa, tecnologia e também comportamental. Ao deixar de priorizar a primeira infância, impomos ao País uma dificuldade a mais em seu desenvolvimento.

Estudos comprovam que o investimento nos primeiros cinco anos de vida das crianças pode aumentar em até 60% a renda da população e reduzir problemas de baixa escolaridade, violência e mortalidade infantil. Por outro lado, crianças que não recebem estímulos na primeira infância têm maior probabilidade de se tornarem adultos pobres.
Para reverter esse quadro e passar a contar com todo o potencial cognitivo de suas crianças precisamos priorizar a base da educação, que é construída nas creches.

Lúcia Vânia é senadora e presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado

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