Demóstenes Torres: ‘Quero ser senador’

0
300
Demóstenes Torres

Por Daniela Martins,
Manoel Messias e
Vassil Oliveira 

Ex-senador, aguardando a possibilidade de retomar seu mandato ou de ser candidato mais uma vez ao Senado, mas também lembrado para vice de José Eliton (PSDB), ou ainda candidato a deputado federal. Esse é o perfil de Demóstenes Torres (PTB), nome certo [ele garante] para a disputa no pleito do próximo ano. Nesta entrevista exclusiva à Tribuna, ele fala sobre o que o levou a perder o mandato, as possibilidades na base aliada, oposição, partidos e temas variados. Confira!

Tribuna do Planalto –
Ex ou futuro senador?
Acho que as duas coisas, se depender de mim. Estou tentando a possibilidade de me candidatar. Isso é líquido e certo. O Senado não tem como fugir, nem o Supremo [Tribunal Federal], que me deu uma decisão [favorável]. Então, é cumprir uma decisão que já foi dada. O Senado é uma casa também de conveniências políticas. E, afinal de contas, tem outro senador que foi convocado para exercer o cargo e está lá desde 2012. Então, é uma situação difícil. Mas espero que o Senado resolva e, se não resolver, vamos para o Supremo de novo.

Há uma conversa sobre o senhor ser vice de José Eliton?
Essa conversa sobre para onde vai o PTB e qual cargo o partido terá numa chapa, ficará a cargo de Jovair Arantes. Mas, se depender de mim, estaremos numa chapa com José Eliton, e eu sendo o candidato a senador.

Há possibilidade do PTB se aproximar do PMDB?
Em política você não pode dizer nunca. Mas seria muito estranho. A vida toda nós – o PTB e eu, quando era do DEM – estivemos dentro deste bloco [do governo]. Quando saímos, foi para um enfrentamento direto, um contra o outro. Então, acho que a tendência natural seria estarmos com José Eliton.

Mas há uma discussão em Brasília que envolve a reorganização das alianças. Lá, PTB e PMDB são aliados. Isso pode afetar a disputa em Goiás?
Não acredito que afete. Brasília sempre teve um arranjo diferente dos estados. Acredito que todos os arranjos que serão feitos nacionalmente podem até incentivar que os partidos locais sigam a mesma tendência, mas jamais haverá uma vedação.

Quando eleito senador, o sr. começou a campanha como o segundo voto [eram duas vagas]de muitos eleitores e terminou como primeiro. Foi decisivo o fator novidade. O que tende a definir o voto no ano que vem?
A minha segunda eleição já foi uma consolidação [de voto]. Hoje há o fato de o Judiciário ter decidido sucessivas vezes a meu favor; há uma perícia do Ministério Público que me inocenta. Como parlamentar, fiz leis boas para o Brasil. Acho que a única pessoa prejudicada com minha atuação fui eu mesmo.

O sr. reconhece que errou?
Claro, sem dúvida. Como já disse outra vez, a mulher de César, além de ser honesta, precisa parecer honesta.

Com olhar de hoje, o que o sr. teria feito de diferente?
Na condução, não teria feito diferente, porque não havia o que fazer. Na realidade, eu não tive apoio de ninguém. No episódio Renan Calheiros, fui para cima do Renan. No episódio do Sarney, fui para cima do Sarney. Só que, por ter ficado a ideia de punição aos colegas dentro do Senado, isso, na hora H, reverteu-se contra mim.

E o discurso da moralidade, pesou?
Como disse o Eunício Oliveira, numa entrevista, naquele tempo, “ao pecador, você oferece o perdão; ao pregador, o porrete”. Foi o que ofereceram a mim.

O Senado tem sofrido desgaste muito grande nos últimos anos. É um Senado muito diferente?
É óbvio que o Senado tem, digamos assim, um problema grande para enfrentar, porque há uma desmoralização crescente da classe política. Acho que é um erro das pessoas apostarem nisso. Não há salvação sem política. Mas, com isso, o Senado ficou intimidado, sem grandes líderes. Mas começou a reagir, como poder. O episódio [da votação a favor] do Aécio Neves foi determinante. Houve uma reação jurídica e também uma reação política. A Constituição prega o equilíbrio e a harmonia entre os poderes. Não há como ter com a classe política desmoralizada.

Grande parte dessa desmoralização não seria culpa dos políticos?
Sem dúvida, mas à medida que você coloca a classe política numa situação genérica de desqualificação, corre o risco de eleger o Lula. Se ninguém presta, então, ao menos na época do Lula, você tinha bolsa. Esse é o discurso que vão fazer.

A alternativa é Bolsonaro.
Pois é. Costumo dizer o seguinte: quem não vai votar no Lula, vai votar em quem? Corro o risco de votar no Bolsonaro, e não acredito nas propostas dele. Mas não vou votar no Lula, que contribuiu decididamente para o Brasil chegar a esse nível.

Bolsonaro seria um ‘mal menor’?
Quando você fala ‘mal’, significa que é alguém que você não queria para o país. Gostaria de ter um Arthur Virgílio, um Tasso Jereissati, em quem poder votar.

E por que não tem uma alternativa dessas?
Dos grandes nomes da política com quem convivi, Antônio Carlos Magalhães com certeza foi o maior, em termos de atuação na defesa do seu Estado. Um exemplo, nesse aspecto. Tem vários defeitos, mas aqui não vou abordar defeito de ninguém. Aluízio Nunes, intelectualmente, o mais preparado. Marco Maciel, uma enciclopédia. Esses grandes políticos, infelizmente, se foram. Temos que buscar uma alternativa. E vamos lembrar que o PT já foi uma falta de alternativa. Quando se votou no PT, o partido já tinha perdido eleições ao longo dos anos. Hoje parece que o Brasil também está nessa falta de alternativa. Então, corre-se o risco de um político chegar, vir presidir o Brasil, para depois as coisas voltarem à normalidade. Isso pode acontecer também no Estado de Goiás. Por exemplo, Marconi tem 20 anos. Meu nível de relacionamento com Marconi é protocolar, mas não posso deixar de reconhecer que foi um grande governador. Em 20 anos, ele melhorou, e muito, o Estado de Goiás. Isso tem que ser reconhecido também com relação ao Iris. O Iris está indo embora por conta da idade. Essa trajetória chega ao fim. Agora, o Marconi está com o ciclo esgotado, mas, dependendo do governo que for colocado [na sequência do atual], ele – que ainda está vigoroso, com quase 60 anos – pode voltar a governar Goiás. Essa história de escolher um governante pior não faz com que haja evolução.

O sr. acredita que é o fim de um ciclo em Goiás?
Há um desgaste. O desafio do governo é mostrar que o candidato a governador José Eliton é uma renovação dentro do que existe.

O sr. acha que é?
Acho que é.  José Eliton é uma pessoa de personalidade. É competente, estudioso. Se ele for debater, vai demonstrar isso.

A oposição é capaz de apresentar alguma proposta nova?
Vejo o seguinte: infelizmente, se o eleitor optar por uma mudança em Goiás, estará fazendo uma opção difícil. Estará votando contra o Marconi.

Não é um processo natural, de renovação?
Concordo. E o José Eliton, se se sentar aqui para um debate com os demais candidatos, [mostrará que a sua] desproporção intelectual, de conhecimento, é muito grande. Ele está mais preparado para governar o Estado, inequivocamente. Faz parte da administração, conhece como governar.

Mais do que Maguito?
Acredito que o Maguito não será candidato.

Mas não está fechado ainda. Logo…
Sim, mas acredito que [o candidato] será o filho, o Daniel. De repente, você tem que votar naquela pessoa porque quer encerrar o ciclo, mas você vai votar no pior para encerrar o ciclo? O desafio do governo é mostrar que há uma renovação agora e que José Eliton é o melhor candidato. Esse desafio não é fácil.

Outro candidato pode ser Ronaldo Caiado.
Ronaldo tem uma história política grande, intensa.

É um bom candidato?
Sem dúvida, é um bom candidato. Não sei se seria um bom governador. No meu entendimento, até pela minha experiência, é preciso ter um pouco de cintura para governar. Não ceder totalmente. Veja bem o que é projetado para a próxima administração, um buraco. Não por conta da gestão Marconi, porque, convenhamos, [Goiás] está bem melhor do que os outros estados, mas por esse crescimento vegetativo da folha de pagamento, pela expectativa negativa de crescimento da arrecadação… O governo está acabando com os incentivos fiscais, ou diminuindo, não é porque quer a desindustrialização do Estado, ou porque quer provocar uma fuga de empregos e de talentos. O governo não tem dinheiro. E, passada a eleição, acredito que as medidas [a serem tomadas] serão bem piores, qualquer que seja o governador. O governador terá que ser alguém já familiarizado com a máquina, senão corremos o risco de empacar ou adentrar numa situação como a do Rio Grande do Sul ou a do Rio de Janeiro.

Caiado não teria habilidade para governar?
Nunca geriu nada.

Mas isso é impeditivo? Marconi Perillo nunca tinha gerido nada.
Mas Marconi se cercou de…

José Eliton nunca geriu nada.
Sim, geriu. Foi governador várias vezes, secretário de Estado várias vezes.

O gestor era o governador.
Sim, mas acho o seguinte. Se o Caiado montar uma boa equipe… E a boa equipe começa com o jogo político, não é verdade? [Caiado] vai montar esse quadro com os partidos nanicos? Ou seja, se o Caiado for um bom governador, terá revertido todas as expectativas. Muita gente aposta que ele vai ser eleito. Mas muita gente aposta que ele vai dar com os burros n´água. Se ele conseguir fazer uma boa gestão, é um craque mesmo.

O sr. e José Eliton estiveram no grupo de Ronaldo Caiado e podem enfrentá-lo no ano que vem, em trincheiras diferentes. O que os separou?
Em relação a mim, todos sabem. Em relação ao José Eliton, creio que Caiado queria um rompimento com o governador Marconi e José Eliton não o acompanhou. Agora, estranhamente, durante as eleições de 2014, ele [Caiado] buscou ser o candidato a senador do Marconi. Exige das pessoas algo que não podem dar. Mas política também é o jogo do contraditório, do impossível. É preciso levar em conta que, ano que vem, em caráter pessoal, ninguém vai conseguir atingir o outro. É melhor partir para discussões acerca do que fazer pelo Estado.

Nem Caiado atingir José Eliton, nem José Eliton atingir Caiado?
É. Vão dizer o quê, um do outro? Vão partir para o tiroteio? Vejo que Caiado ataca mais o Marconi do que o próprio José Eliton, mas também bate no José Eliton lateralmente. Não sei onde isso vai dar, mas é um caminho errado. Se fosse o Caiado, começaria a trabalhar logo as propostas que ele tem para o Estado de Goiás.

O que será tema de debates na campanha do ano que vem?
Honestidade, por conta da desmoralização da classe política. Nesse ponto, Ronaldo Caiado leva vantagem. Não que seja mais honesto do que os outros, mas aparenta não ter problemas. Também a questão da segurança pública. E é incrível que Goiás esteja, proporcionalmente, numa situação de maior violência e insegurança do que o Rio de Janeiro. Outro tema para debate será a crise hídrica. Terá que ser apresentada uma alternativa. A Saneago é uma péssima gestora. Os municípios transferiram essa responsabilidade para o Estado, e a Saneago, ao longo dos anos, não fez os investimentos que eram necessários.

Esse não pode ser um discurso usado contra o atual grupo?
Ou [dar oportunidade para que] apresentem a solução. Por isso digo que é fácil fazer um discurso contra quem está há 20 anos dirigindo o Estado. A oposição não vai falar do Bolsa Universitária, do asfaltamento do Estado, da construção de casas populares, da melhoria do ensino básico. O que o cidadão quer é resolver o seu problema. Se ele tinha, ontem, o problema de asfalto, e hoje não tem mais, ele quer resolver a outra situação. E hoje os gargalos do Estado são segurança pública e água. O grande problema é que, quando um governante chega, quer destruir os feitos do outro, interrompe obras, faz propaganda contra. Acho que o governo está num impasse, e o impasse só pode ser resolvido se ele conseguir mostrar que tem a capacidade de melhorar dentro do próprio grupo. Se não fizer isso, corre um risco. Até porque ninguém é eterno; há de se ter mesmo alternância.

O sr. acredita que consegue retornar ao Senado?
Sim, acredito. Este é o meu sonho, poder ir lá e recomeçar, mostrar meu trabalho. Sou estudioso desde menino, desde sempre. Fiquei esses cinco anos estudando também, vendo o que posso melhorar, onde foi que errei. Agora, não sei se o eleitor vai ter essa compreensão. E respeito o eleitor. Se não der, paciência.

O sr. é pré-candidato a senador?
Eu quero ser candidato a senador. Esse é o meu desejo. Se não der, vamos respeitar o eleitor.

PMDB é um adversário difícil na disputa para o governo do Estado?
O PMDB é um partido forte. Tenho visto pesquisas em que o Daniel Vilela, surpreendentemente, também tem musculatura. O PMDB tem que lançar candidatos, senão vira um partido de segunda linha, vira um partido auxiliar.

Iris tem poder de influenciar a eleição?
Influencia, mas Iris influencia mais em Goiânia. E Goiânia é um voto liberto, vota em quem quer. Tanto é que o Kajuru aqui está bem.

Tem candidato ao Senado com eleição ganha? Marconi Perillo, por exemplo?
Marconi tem uma grande chance. Não digo que [a eleição dele] está ganha, porque não existe eleição ganha. Mas são duas vagas e Marconi tem uma chance boa. Lúcia Vânia tem uma história boa, tem seus votos. Wilder Morais tem um monte de prefeitos junto. Tem Kajuru, com uma presença marcante nas redes sociais. Dentro do PMDB tem o Pedro Chaves, que é uma figura muito boa, muito bom parlamentar. Agora, se o Caiado conseguir o PMDB, torna-se um candidato bastante viável. Mas não acredito que isso vá acontecer.

O cenário para Caiado tem a ver com o de 2006, quando o sr. saiu candidato contra o governo e o PMDB?
Em 2006, Marconi elegia um poste. E elegeu. Hoje o Marconi não está nessa situação confortável, mas José Eliton é um candidato melhor que o Dr. Alcides. Tem mais qualidades políticas, de gestor. Compreenda, não estou falando mal do Dr. Alcides. Então, talvez uma coisa compense a outra.

O PTB tem um pré-candidato a senador. O PSD tem Vilmar Rocha. O PSB tem Lúcia Vânia. O PP tem Wilder Morais. E o PR, de vez em quando, fala em candidatura. Alguém vai sobrar para ir para o PMDB, ou o sr. acredita na unidade dentro da base governista?
Ainda existe a possibilidade jurídica de cada partido lançar o seu senador. Se não der acordo, cada qual lança seu candidato.

O sr. defende isso?
Não. Digo o seguinte: se não afunilar, quem sabe [essa] é uma alternativa. Se todo mundo tem vontade de se candidatar, vamos respeitar essa vontade. Lançam o candidato a governador, todos apoiam, e lançam seus candidatos a senador, individualmente.

Se o PTB oferecer ao sr. ser candidato num cenário com Lúcia Vânia, Vilmar Rocha, Wilder… O sr. aceita?
Perfeitamente. Acho que é uma boa. Sou entusiasta disso. Claro que o ideal é ter dois candidatos, mas, se não tiver acordo, vai fazer o quê? Vai ficar brigando? Vai para o PMDB, buscar alternativa, ameaçando, fazendo bico e parecendo menino birrento? Não dá! Vamos disputar na eleição.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here