ENTREVISTA – Goiás se ajusta ao novo ensino médio

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Fotos Mônica Salvador

Entrevistado: João Batista Peres Júnior [Superintendente de Ensino Médio da Seduce]
Por: Fabiola Rodrigues e Manoel Messias Rodrigues

Uma verdadeira revolução irá acontecer no ensino médio brasileiro, aquela fase da educação básica que nas últimas décadas se tornou o patinho feio da educação no País, sem projetos de melhoria, com alto índice de evasão, baixo nível de aprendizado, um mero nível a ser transposto para pegar um diploma ou tentar ingressar no ensino superior. Tudo isso deve ser superado. É o que promete a reforma do ensino médio, proposta pelo Governo federal e sancionada pelo presidente Temer após aprovação do Congresso Nacional. Como se trata de uma lei complexa, a entrada efetiva em vigor das mudanças ainda demora, porque depende de decisões de vários órgãos, como o Conselho Nacional de Educação. Mas os estados já estão se preparando para as mudanças, que serão muitas, pois deve surgir um novo ensino médio, mais flexível e moderno, para tentar acompanhar as novidades dos dias atuais. Para falar sobre o tema, o ESCOLA traz esta semana entrevista exclusiva com o superintendente de Ensino Médio da Secretaria Estadual de Educação, João Batista Peres Júnior, que assumiu o cargo em agosto e tem vários projetos para esse importante nível de ensino, incluindo aulas interativas, via satélite, para os estudantes do noturno e liberação do uso do celular em sala de aula.

Escola – Que diagnóstico o Senhor faz do ensino médio em Goiás?

João Batista Peres Júnior  – Ao longo dos anos, os grandes investimentos do Ministério da Educação foram feitos no ensino fundamental e somente nos dois últimos anos surgiram discussões efetivas acerca do ensino médio e a maior prova disso é a reforma que este ensino está passando. O cenário desse ensino é complicado em todo o País, com muita evasão, ensino de má qualidade no geral, problemas com contratações de professores. Goiás é um Estado muito grande, com municípios a 650 quilômetros da Capital, sofre com falta de professores na área de exatas, matemática, física.

Por que isso acontece?

Na universidade, o professor não é preparado para enfrentar a sala de aula. As instituições de ensino não preparam o licenciado para entrar em sala de aula, não preparam para entrar na escola. E aí temos duas figuras: a figura do educador e a do professor que cumpre horas na instituição de ensino. O professor que nasce para educar não precisa passar pela universidade. O notório saber é um exemplo, quando ele dá aula, consegue transmitir o conhecimento. E temos a figura do concursado, licenciado, em que há três tipos: o professor educador, que é de excelência, um ótimo professor, que está ali para ensinar com qualidade, que inventa e reinventa porque ele é um educador; temos o professor que passou num concurso e quer receber o salário e está ali como cargo, não como professor, é aquele professor ruim, que o aluno não aprende, que passa um exercício e fica à toa, sempre reclama de tudo, do governo, da secretaria, da metodologia de ensino; e aquele que chega em sala de aula e vê que não é aquilo que quer e pede exoneração, procura outro emprego. Então, ficamos com o educador e com o que atrapalha, que é um problema. Temos professores que precisam ser melhor formados nas instituições.

Como enfrentar essa realidade?

Pensando na dificuldade de encontrar profissional para a sala de aula, estamos finalizando um projeto, que já existe em Manaus e no Piauí, de aulas via satélite. Não é Ensino a Distância (EaD). Ele é um estúdio interativo, que transmite aula ao vivo para uma central, que pode estar em qualquer cidade do País. E a central fará a retransmissão em tempo real para as escolas, através de antena parabólica. O estudante do município mais distante, em qualquer ponto do Estado, terá uma aula de qualidade e interativa com o melhor professor, com um mediador em sala que poderá intervir. Acredito que será uma grande revolução para o ensino em Goiás. E isso soluciona problemas de falta de professores em determinadas áreas do conhecimento. Em certos lugares não tem ninguém que possa dar uma aula de matemática, então, como o aluno não pode ficar sem a aula, outro acaba dando. Precisamos pensar em ferramentas tecnológicas, para que todos os estudantes, da capital ou do interior, possam receber o mesmo aprendizado de alta qualidade.

A reforma do ensino médio em curso resolverá esses problemas?

Se a reforma do ensino médio está trazendo para dentro do ensino médio regular a educação profissional, o mundo do trabalho, devemos unir as equipes pedagógicas em prol da qualidade do ensino. Todos devem pensar juntos os rumos do ensino médio, que deve ser voltado para o mercado de trabalho, com cursos técnicos, com itinerários formativos, com conteúdo de trabalho nas disciplinas do ensino médio. Assim o estudante pode ter mais opções de aprender, e isso ajudará a combater a evasão. Estamos trabalhando nessa perspectiva aqui na Secretaria Estadual de Educação. O estudante não aguenta mais ficar em sala de aula só copiando matéria do quadro. Ninguém aguenta isso. O jovem está sedento por interagir, dialogar, opinar. Às vezes 15 minutos navegando na internet tem mais conhecimento do que quatro horas em sala de aula.

A escola precisa se modernizar?

Infelizmente, na maioria das escolas em todo o Brasil, o aluno é proibido de usar o celular, e isso é um retrocesso da época da pedra lascada. O que nós, como educadores, temos que fazer é saber usar a tecnologia para o bem da aprendizagem e não proibir o uso dos aparelhos eletrônicos. Com a proibição, o aluno já entra no ambiente escolar mau humorado. Por que o professor não interagir com os alunos criando grupo de whatsapp, passando exercícios ao longo do dia, valendo nota? Esse tipo de interação precisa acontecer. Precisamos oferecer para o estudante uma atração, caso contrário qualquer outra circunstância chamará mais a atenção dele.

Será baixada uma norma permitindo o uso de celulares?

Não. A gente precisa discutir, por isso estamos trazendo essa discussão para nossa rede de ensino, queremos sensibilizá-la, porque não adianta simplesmente liberar o uso e não ter uma ferramenta para o aluno utilizar o aparelho, senão ele ficará o tempo todo nas redes sociais… A nossa equipe de TI (tecnologia da informação) está desenvolvendo ferramentas para essa interação entre o aluno e a sala de aula. Posteriormente, cada escola deve mudar seu regimento para permitir o uso desses aparelhos tecnológicos. Para melhorar o ensino médio, nós precisamos trabalhar com essas atrações para o aluno.

Isso já está conectado com as mudanças no ensino médio, que deve ficar mais flexível?

Uma das grandes qualidades da reforma é a flexibilização curricular, acabar com a obrigatoriedade das 13 matérias engessadas, e com isso poderão ser instaurados projetos, trabalhos extraclasse, conteúdos diversificados. Poder trabalhar diversidade de temáticas que envolvam o aluno é magnífico. O professor passa a ensinar com mais autonomia e liberdade, pode desenvolver projetos com os estudantes, que envolvam a realidade do estudante, da comunidade.

Como a secretaria conseguirá oferecer os novos conteúdos que serão trazidos com a reforma, já que precisará de mais professores em áreas diversas, inclusive para atender à necessidade do ensino profissionalizante?

Paralelamente à reforma do ensino médio, foram criados três Grupos de Trabalho, direcionados pelo MEC: o GT do Ensino Médio, o GT da Educação Profissional e o GT da Escola de Tempo Integral. Todos os estados têm um trio, representando essas três áreas. Em Goiás, estou no GT da Educação Profissional. E todos se reúnem em São Paulo a cada dois meses, onde ficamos no Insper, uma instituição muito conceituada, com uma estrutura muito boa, onde especialistas estão fazendo essa formação e orientando esse trio de cada Estado, para pensar o planejamento do ensino médio. Estamos pensando os desdobramentos da lei. Dentro de cada GT tem vários grupos, como o grupo de captação de recursos, o grupo de sugerir projetos para os estados terem estrutura para executar a lei. A educação profissional precisa de laboratórios, não tem como dar um curso sem a prática.

Requer muito investimento…

Em Goiás, ainda este mês a secretária Raquel [Teixeira]vai entregar 25 laboratórios para escolas. Laboratórios de informática, de enfermagem, de panificação, de segurança do trabalho, porque os cursos técnicos iniciaram e a gente conseguiu esses laboratórios. Na Seduce, a gente está fazendo um projeto-piloto com estrutura exclusiva para cursos técnicos: a gente pega uma escola bem localizada, com poucos alunos ou ociosa, que funcionará na região como escola totalmente técnica, para atender os estudantes das escolas das proximidades, uma base potencializada. Hoje os cursos técnicos funcionam dentro da escola regular. Os novos laboratórios terão mais mobilidade, para poder oferecer mais cursos a mais escolas. Mas nas escolas técnicas potencializadas podemos agregar muito mais ferramentas, porque todas as salas serão voltadas para o técnico, o espaço não é divido com colégio estadual.

Como contratar professores no novo modelo de ensino médio?

Tem que mudar a forma de contratação. O processo seletivo simplificado de professor não tem o perfil de contratação da educação profissional. Na educação profissionalizante, o professor não é licenciado, porque não precisa do professor de português, de história, pois isso o aluno já vê no regular. Na educação profissional, o professor é o profissional liberal, é o engenheiro, é o eletricista, é o mestre de obras, é o enfermeiro, é o que está no mercado de trabalho. Ele não vem dar aula com o valor do processo seletivo do licenciado, porque ele não está à toa. Ele terá um tempo pra vir dar aula e voltar, porque está ganhando bem no mercado. E ele jamais virá para ficar preso dentro da escola, porque ele tem a atividade dele na iniciativa privada. Existe uma forma de contratação denominada de edital de credenciamento de chamada pública, já utilizado na Secretaria de Saúde. É feito o edital de chamada pública e o profissional se inscreve no cadastro. Caso ele atenda às exigências, poderá ser contratado para prestação de serviço. Isso já é usado pelo Senai, onde o professor é chamado de instrutor. Contrata-se o profissional como horista, que receberá por hora, ganhará enquanto deu o trabalho dele, não tem vínculo de ficar na escola por 40 horas, por exemplo, porque é uma área muito dinâmica.

E o ensino médio noturno, como está?

Quando se fala do problema do ensino médio, muito maior é o ensino médio noturno. É outra história. É uma problemática maior ainda. No Brasil, nós mentimos de fazer ensino médio noturno. É uma mentira. Estou falando isso porque é o óbvio, porque a carga horária do ensino diurno é a mesma do noturno, mas é impossível se conseguir fechar as 200 horas anuais no período da noite. Para conseguir isso, a aula teria que começar às 19h e terminar meia-noite. Ninguém faz isso.

Por quê?

O estudante da noite é trabalhador e já chega na sala de aula muito cansado. Quando termina o intervalo, quer ir embora, não tem atração dentro da sala de aula, o aluno está lá dormindo. O País brinca de fazer ensino médio noturno. Com a reforma em andamento, existe um artigo na lei para essa modalidade de ensino, que diz que as secretarias de ensino e seus conselhos estaduais podem se organizar e legislar de maneira independente. A nossa equipe, a Seduce, vem há dois meses trabalhando um projeto para ser apresentado para a secretária Raquel Teixeira, que, se aprovado pelo Conselho Estadual de Educação, teremos um ensino médio noturno com uma carga horária menor, com uma flexibilidade maior, com foco em trabalhar projetos e com conteúdos mais didáticos. Seremos o primeiro Estado a ter um projeto como esse no Brasil, teremos essa ousadia.

Terá aulas à distância?

Claro. Esse ponto é fundamental para o ensino médio ficar mais atrativo. Fizemos uma proposta de EaD para a secretária Raquel. Ela comprou a ideia, levou para o governador, criou uma gerência de Educação a Distância. E a secretária mandou montar um centro de Educação a Distância, que funcionará na Rua 26A, no Setor Aeroporto, em Goiânia. São 20 salas. Esse centro já está praticamente pronto. Lá será o Centro de Educação a Distância e Formação, com cursos durante o dia e à noite, com educação a distância e presencial. Com a reforma, muitos conteúdos curriculares, que são muito simples, serão colocados na plataforma para ser estudado à distância. Isso já está funcionando, curso técnico para comunidades rurais distantes. A nova lei permite até 20% do conteúdo do ensino médio em EaD. Então, claro que tudo que a gente puder fazer para tirar o aluno do banco da sala, precisamos fazer, para diminuir o tempo dele na sala, principalmente no noturno. Mas o diurno também precisa ter. Evidentemente que tudo com muito critério e qualidade, porque não adianta colocar texto, é preciso trabalhar conteúdo que atraia o aluno, com áudio, imagens, fotos, desenhos, vídeos interativos, uma comunicação visual, brincadeira. Inclusive jogos podem ser usados como ferramenta educacional, a gamificação, que estimula a competição.

Essa é outra medida que antecipa a reforma?

A reforma foi posta e aprovada, porém, estamos autorizados a trabalhar em cima da reforma desde que não botamos o dedo no núcleo comum, a base curricular, porque ela está vinculada à base nacional curricular comum, que está sendo discutida ainda. Enquanto ela não for finalizada, não podemos sair das disciplinas. Então, diante da flexibilização da reforma, estamos fazendo agora porque a própria nova reforma nos abriu horizontes. Outro ponto é que estamos já flexibilizando a rede para que ela possa trabalhar com a flexibilização curricular, sair da disciplina, trabalhar projetos, núcleo diversificado, projeto de vida para o aluno, preparar o aluno e dar liberdade para ele escolher o que quer. Acredito que esse projeto será algo inovador, pois será mais atrativo, com carga horária menor.

O sistema seriado anual também mudará?

Hoje o ensino médio noturno tem uma evasão muito grande no País todo. As pessoas entram, não aprendem e desistem. Para atacar isso, outro ponto é sair do sistema anual para o semestral, flexibilizar. O formato anual é um fator de evasão e aí se perde um ano para recuperar. No regime semestral, o aluno tende a despertar mais rapidamente para o aprendizado, para não perder o semestre e, assim, completar o ano. No regime semestral, o aluno que está com dificuldade, que geralmente desiste, não vai desistir, porque o professor estará mais atento e próximo a ele, em um período menor de tempo, já que as avaliações são mais próximas no regime semestral, sem contar que a dificuldade dele será detectada muito mais rapidamente.

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