E quanto à essência?

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Para fugir do desgaste, partidos tentam reoxigenação com mudança de nome. Para cientistas políticos, porém, a tática não atingiria o conteúdo das siglas

Marcione Barreira
No momento em que grande parte da classe política é investigada por suspeita de participar de esquemas de corrupção, os partidos se movem na tentativa de se desvincular da conjuntura negativa na qual eles se encontram. Para isso, algumas agremiações estão abandonando o tradicional formato de siglas para adotarem slogans que representem conceitos.

Nesse embalo, além de legendas como PTN, PT do B e PSL, que já mudaram seus nomes passando a adotar  denominações que representem ideologias, novos grupos pedem registro de mudança ao Tribunal Superior Eleitoral, seguindo  essa tendência. A Tribuna conversou com cientistas políticos que observam, porém, que não basta mudar por fora se os métodos internos continuarem os mesmos.

Nós últimos anos, o eleitor tem assistido uma mudança dentro dos partidos que tem adotado nomes pouco comuns quando falamos sobre a realidade brasileira. Mudança de nomes de partidos por slogans não chega a ser uma novidade. Os pioneiros foram o PFL, que há dez anos se tornou o Democratas, enquanto que a Rede Sustentabilidade, que não se considera um partido, mas sim um movimento, nasceu da vontade da ex-senadora Marina Silva no ano de 2013, obtendo registro junto ao TSE em 2015

O caso do Democratas é o mais conhecido de todos. Contudo, o partido serve como um exemplo desta realidade. Mudou-se apenas o nome, mas não a essência da sigla. As lideranças da agremiação continuaram as mesmas, assim como os ideiais.
Essa tendência de mudança tem tornado frequente nos últimos anos. Segundo a cientista política e professora da UFG Denise Paiva, contrariados pela baixa aprovação popular, os partidos adotaram a mesma medida do “Podemos” – partido espanhol surgido em 2014 a partir de manifestações de rua – e surfam na onda de uma possível mudança para 2018.

Todavia, ao contrário da agremiação espanhola, em solo brasileiro, segundo Denise, esses partidos são antigos, com ideias antigas, e só mudaram suas nomenclaturas na busca por palavras que levam uma mensagem, único ponto de semelhança com a legenda espanhola.
A cientista observa que o desgaste contribui significativamente para a nova postura dentro das agremiações. “Eles querem mudar numa tentativa de se reposicionar dentro do cenário político brasileiro”, diz Denise. Porém, a cientista acredita que seja difícil que esses partidos se livrem dos desgastes.
No entanto, diferente do fenômeno que ocorreu na Espanha, aqui no Brasil as lideranças dessas agremiações são as mesmas. É o que diz o cientista político Itami Campos. O estudioso ressalta que de nada adianta trocar de nome sem que haja mudança de projeto: eles mudam os nomes, mas não mudam as práticas”.

BOX - Dança partidos (1)
2018
O ano que vem deverá ser decisivo na vida desses partidos porque eles passarão pela avaliação do eleitor na urna. Itami Campos analisa que apesar de os nomes e as ideias serem as mesmas, só será possível avaliar o sucesso ou fracasso dessa mudança após a eleição. “Para nós, analistas, eles ainda fazem a mesma política, mas, em relação ao eleitor comum, só saberemos se ele aceitou a mudança após a eleição”, aponta.
Apesar disso, Itami acredita que os desgastes vão continuar apesar dessas ações. O principal motivo para isso, diz ele, é a falta de projeto. O cientista citou o PFL que passou a ser DEM e agora avalia mudar novamente. “O nome muda e aí? Qual é  o sentido do partido? Cadê as discussões políticas ideológicas? Daqui a pouco o novo fica velho e a mudança não tem efeito algum”, critica.
Embora os partidos não admitam que essa mudança é uma consequência do desgaste sofrido pelos partidos nos últimos anos, uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas do ano passado mostrou que as agremiações políticas perdem cada vez mais a confiança do eleitor.
O levantamento mostrou que as legendas contam com apenas 7% de confiabilidade. Já o índice de confiança social realizado pelo Ibope apontou em 2015 que as legendas caíram à metade dos pontos que tinham em 2010 (33), chegando em 17 em uma escala que vai de zero a 100.

Pouca representação

Como se não bastasse o fato de não mudarem seus quadros, pesa contra os partidos políticos o fato de o eleitor votar na figura que o representa, ou seja, não levam em conta a ideologia da agremiação. É o que diz a cientista Denise Paiva.

Professora Denise Paiva
Professora Denise Paiva

Segundo ela, a cultura nacional não tem a tradição de votar por ideologia, o que os partidos tentam emplacar no imaginário do eleitor com nomes sugestivos. “Aqui no Brasil, culturalmente, o eleitor ainda vota na pessoa. Para ele, o partido não representa quase nada”, frisa a professora da UFG.

Apesar de pouco representarem na hora do voto, continuam surgindo novos partidos que abandonaram o “P” que não é mais necessário desde 1995 quando a legislação extinguiu a obrigatoriedade da letra no início do nome de cada legenda.

Segundo o site do TSE, 69 partidos aguardam aprovação para ser criados.

 

Após celeuma, Baldy deixa o Podemos

Alexandre Baldy anunciou na última semana ter deixado a sigla
Alexandre Baldy anunciou na última semana ter deixado a sigla

Um dos partidos que se utilizou da tática da mudança de nome, o Podemos, deverá perder sua principal liderança em Goiás na janela partidária do próximo ano. Trata-se do deputado federal Alexandre Baldy, que anunciou na última semana ter deixado a sigla após ter sido afastado da liderança pela presidente do partido, deputada federal Renata Abreu (SP).

O afastamento do parlamentar se deu por ele ter votado a favor do parecer da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara que recomendava que não fosse aceita a admissibilidade da denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o presidente Michel Temer.

Dos 14 deputados do Podemos, nove contrariaram a Executiva Nacional do partido e votaram a favor do parecer da CCJ e cinco votaram contra. O parecer, contrário à admissibilidade da denúncia contra o presidente Temer foi aprovado na quarta-feira, 2, por 263 votos contra 227.
Além disso, outro fator criou um forte atrito entre a cúpula nacional do partido e a cúpula regional. A gota d’água ocorreu há duas semanas, quando Renata dissolveu o diretório regional do partido, supostamente por desobediência a uma resolução interna criada pelo diretório nacional.

Segundo a norma, as pílulas a serem veiculadas em nível regional seriam cedidas para dar espaço à divulgação da pré-candidatura à Presidência da República do senador Álvaro Dias (Podemos). O diretório goiano não aceitou a norma e o grupo local desobedeceu a determinação, levando ao ar programas com Baldy e lideranças municipais do partido.

Em nota, o deputado informou que vai pedir sua desfiliação por discordar da forma que a direção da legenda impôs a orientação de voto aos deputados. “Pedirei a desfiliação do partido Podemos, o qual fui líder. Meu pedido de desligamento acontece em razão do desencontro de ideias entre a bancada a qual liderava e a Executiva Nacional do partido”, diz trecho da nota.

Alexandre Baldy informou que sua filiação ao então PTN, hoje Podemos, no ano passado se deu em razão da proposta de democracia direta na legenda. “Filiei-me ao então PTN, em 2016, justamente por causa da bandeira da Democracia Direta, causa a qual defenderei até meu último dia como político e como cidadão. Trabalho incansavelmente para que os brasileiros e goianos tenham melhor qualidade de vida, garantia de emprego e para o desenvolvimento econômico de todas as regiões”, disse.
O deputado da região de Anápolis ainda não definiu para qual legenda deverá se filiar, mas já tem conversado com o presidente do PMDB em Goiás, deputado federal Daniel Vilela, que é pré-candidato ao governo estadual, bem como com lideranças do PP, PSD e PR. Na sexta, ele foi indicado pelo presidente do PP para assumir o Ministério das Cidades.

 

Pioneiro, Democratas pode mudar de nome

O Democratas pretende trocar de nome já para as próximas eleições
O Democratas pretende trocar de nome já para as próximas eleições

Primeiro partido a se utilizar da lei que permitia a mudança de nome dos partidos, o Democratas pretende trocar de nome já para as próximas eleições. As discussões, que já foram mais acentuadas acerca da mudança, apresentaram duas opções para a troca.

A mais forte e aceita é que ele passe a ser Centro Democrático. Este nome/conceito foi criado pelo publicitário Fabiano Ribeiro, da agência de publicidade Propeg, que também já teria entregue a logo ao presidente da sigla, o senador José Agripino (DEM-RN), nas cores azul e amarelo, e uma peça publicitária de apresentação das novidades.

A outra opção, esta apresentada antes do nome Centro Democrático, é que a agremiação passe a se chamar Mude, acrônimo da frase Movimento de Unidade Democrática. A ideia foi apresentada após a votação da primeira denúncia contra o presidente Michel Temer, ainda em agosto.
Se confirmado qualquer um dos dois nomes, essa não será a primeira mudança de nome do partido, que foi criado em 1987 sob o nome de PFL, então composto por políticos da Frente Liberal do PDS, partido que herdara o posicionamento político oficial da ditadura militar, a Arena.
O PFL existiu sob esse nome até 2007, quando mudou para Democratas, mas manteve o posicionamento ligado a direita conservadora e com viés econômico liberal. Atualmente, sua principal figura nacional é o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, não pelo número de votos alcançado em qualquer eleição passada, mas por ser o primeiro na linha de sucessão da frágil Presidência da República.

A expectativa agora é se a mudança representará um novo posicionamento político ou se é apenas estética.

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