Entrevista Maguito Vilela – “Pai não concorre com filho”

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Maguito Vilela

Fabrício Arruda e Vassil Oliveira

Um dos principais nomes do PMDB em todo o Estado, o ex-governador Maguito Vilela (PMDB) afirma estar aposentado da política. De aposentadoria mesmo, só recebe uma de menos de R$ 5 mil – ele recusou todas as outras aposentadorias dos legislativos pelos quais se elegeu, bem como a de governador. Para completar o orçamento, conta que voltou a advogar. Maguito garante que não será candidato nas próximas eleições. Vai trabalhar pelo filho, o deputado federal Daniel Vilela, que é pré-candidato a governador. Nessa tarefa, tem percorrido municípios e conversado muito com lideranças em todo o Estado. Nesta entrevista à Tribuna do Planalto, ele fala sobre alianças para 2018, Lula, Marconi Perillo, Iris Rezende e Ronaldo Caiado. Maguito não descarta aliança nem com o PT, hoje adversário nacional do partido. E diz confiar na unidade das oposições no próximo ano. Confira.

Tribuna do Planalto –
O PMDB tem hoje o presidente da República. O que isso muda para o PMDB de Goiás?

Maguito Vilela – Nos últimos anos, depois de Tancredo (Neves), Ulysses (Guimarães), (José) Sarney, o PMDB apoiou o PSDB, o PT e, agora, por um fato não eleitoral – o impeachment da presidente Dilma Rousseff –, assumiu a Presidência da República. Mas não mudou nada. Acho que apenas um partido teve a oportunidade de assumir o governo em condições bastante delicadas e com o país vivendo muitas dificuldades, muitas crises econômicas, financeiras, moral, ética e assim por diante.

Alguns partidos fazem parte da base do governo Marconi Perillo aqui e da base do governo de Michel Temer, em Brasília. Estão governando junto com o PMDB. Nesse jogo de alianças, quem fica com quem em 2018?
A democracia oferece essa oportunidade de alianças, e é lógico que todos os partidos procuram as melhores alianças para poderem ganhar as eleições. É muito difícil prever quem o PMDB vai apoiar no ano que vem ou se o PMDB lançará candidato próprio. Porque você vê o PSDB: está apoiando o PMDB, mas ameaça desembarcar do governo. Ora, se desembarcar do governo, não vai ter o apoio do governo. Se não desembarcar, é possível uma aliança entre PMDB e PSDB. Enfim, é difícil prever o futuro.

PSD, PTB, PR, PP são partidos que estão com Temer. Eles vão ter que escolher entre ficar com Temer ou ficar com o PSDB em Goiás, caso o PSDB desembarque do governo federal?
Lógico. Essa é outra questão. O governo federal terá que avaliar o partido em todos os estados, e o PMDB tem alianças nos diversos estados brasileiros com diversos partidos políticos. Tem aliança com PT, com PSDB, com PP, tem com o PTB, e agora o governo federal terá que fazer uma avaliação geral disso. Como o PMDB vai apoiar um candidato do PSDB em Goiás, por exemplo, se tem candidato próprio? Porque o PMDB vai ter candidato a governador de Goiás.

Como fica a situação de Ronaldo Caiado, que é do DEM? O DEM apoia o governo federal, mas Ronaldo Caiado é um crítico direto de Temer. Tem como o PMDB de Goiás apoiar Caiado?
Pois é, é difícil. O PMDB é um só, quer seja em uma cidade, no Estado ou no país. O partido é único. É lógico que o partido não vai ficar apoiando políticos que o criticam. Isso é óbvio.
Para ter o apoio do PMDB de Goiás é preciso apoiar Michel Temer?
Sim. Você não apoia um partido pela metade. Ou você apoia ou não apoia. Nós, do PMDB de Goiás, quando apoiamos – e fizemos bem em apoiar – o Ronaldo Caiado, apoiamos por inteiro, não aceitamos que nenhum peemedebista deixasse de apoiar.

Nessa questão, Caiado está em cima do muro?
Não. Não quero dizer isso. Pelo contrário. Aqui no Estado ele tem apoiado as iniciativas do PMDB, mas em nível nacional, não. E é lógico que aí tem choque com a bancada do PMDB no Senado, tem choque com o presidente da República e com a Câmara Federal.

Esse é um ponto a ser resolvido por ele e o PMDB?
Essa é uma questão que tem que ser resolvida, porque também não sabemos com quais partidos vamos conseguir fazer alianças no ano que vem. O certo, e é importante vocês saberem disso, é que o PMDB está conversando com todo mundo, com todos os partidos. Às vezes o PMDB faz uma aliança com o PSDB, outra com o PT, com outros partidos, mas o PMDB nunca discriminou e nunca ficou falando mal de partido nenhum.

Com o PT, é possível voltar a ter aliança em Goiás?
Não tenho a menor restrição com aliança com o PT. Não vejo motivos para isso. O PT tem, como o PMDB e os demais partidos, excelentes quadros. O PSDB tem, os outros partidos têm, e têm também os maus políticos. Os maus políticos estão enraizados em todos os partidos, assim como os bons políticos. Então, por que discriminar o PT? Eu, se fosse candidato, tranquilamente iria procurar o PT. O PT, além de ter quadros bons, tem um tempo de TV invejável. Quem tiver o apoio do PT já tem o dobro de tempo de TV e de rádio.

Existe a possibilidade de o sr. ser candidato a governador?
Não existe. Já está definido pela maioria esmagadora do PMDB que o candidato é Daniel Vilela. Não vou concorrer com filho. Pai não concorre com filho. Ele é o candidato e acho que está correto.

Como as pautas polêmicas do governo federal, a exemplo da Reforma da Previdência, vão influenciar na eleição de 2018?
Não vão influenciar. Cada governo tem suas prioridades. No meu entender, o presidente Temer está correto com a Reforma da Previdência. Ou faz ou o País vai quebrar. Digo isso porque tenho conhecimento de causa. O rombo hoje é de quase R$ 200 bilhões, e se deixar para amanhã, o rombo será de quase R$ 300 bilhões. O presidente Michel Temer falou uma coisa muito correta: Previdência é os pobres financiando os ricos. Hoje, sou aposentado pela Previdência, recebo um salário. É a única aposentadoria que tenho, R$ 4,8 mil. Sei de milhares de ex-deputados federais, ex-senadores, ex-governadores como eu, com aposentadorias de R$ 35 mil, R$ 40 mil, R$ 45 mil, R$ 50 mil. Que País aguenta isso? Até quando o País vai conviver com isso? O País que quer mais igualdade, melhor distribuição de renda?

Os votos de Daniel a favor de projetos assim não o atrapalham?
Não. Daniel é um voto isolado no Congresso e ele está votando de acordo com sua consciência. É o que estou dizendo. Muita gente não vai votar a favor da Reforma da Previdência para não perder voto, mas não está se importando que o Brasil caia em um abismo amanhã. Aqueles que estão defendendo a Reforma da Previdência estão corretos. Qual é o argumento para defender a nossa Previdência como está? Não existe um argumento válido.

O sr. foi eleito governador com a oposição dividida. A oposição atual vai enfrentar esse mesmo grupo político que o sr. derrotou à época. Ela está ou consegue chegar unida à eleição?
Acredito que sim. Em ano pré-eleitoral é difícil fazer previsões, mas acredito que as oposições terão a oportunidade de se unir. Ou vai unir pelo amor, ou vai unir pela dor. Porque, se ficar dividida, já sabe que vai perder. A situação, unida, vence as eleições; a oposição, dividida, perde as eleições.

O PMDB teria disposição para abrir mão da cabeça de chapa para dar unidade?
Isso tem que ser profundamente discutido, conversado. Tem que fazer avaliações. Como você escolhe a cabeça de chapa? É quando seu partido detém um grande número de eleitores? É o que acontece com o PMDB. Hoje o PMDB tem as prefeituras de Goiânia, de Aparecida, de Catalão, de Formosa, Rio Verde, Goianésia, Quirinópolis, e por aí afora. Como esse partido, que a vida inteira teve candidato e agora que tem uma base muito sólida, deixa de ter candidato? Como o PMDB vai justificar “Não vou lançar candidato”? Não é verdade?

Pode haver mais de um candidato de oposição?
Pode.

“Pesquisa agora não tem o menor valor. Se tivesse, eu já teria ganhado todas as eleições anteriores que perdi e disputei na frente e perdi no último mês”

Caiado e Daniel?
Ou pode ser apenas um. Pode ser Caiado ou pode ser Daniel. Isso vai depender de muitas conversações. Mas o que estou dizendo é que são dois partidos com dois candidatos fortes, e que isso precisa ser conversado, avaliado, analisado para se tomar uma decisão.

Os apoiadores de Caiado dizem que seria natural o recuo de Daniel, porque Caiado aparece disparado nas pesquisas…
Pesquisa agora não tem o menor valor. Se tivesse, eu teria ganhado todas as eleições anteriores, que disputei na frente e perdi no último mês. Pesquisa reflete o momento, reflete o dia em que foi realizada. Daqui a um mês as pesquisas estarão totalmente diferentes, daqui dez meses então… Quase todos que saíram em primeiro lugar nas pesquisas nos últimos tempos, perderam as eleições.

Alguns prefeitos do PMDB fazem elogios ao governo estadual. Qual será o discurso de oposição para derrotar José Eliton?
Também já fiz elogios políticos ao Marconi, muitos já fizeram, e ele tem seus méritos. Mas o argumento da oposição é que são 20 anos. Fizeram? Fizeram. Ninguém pode desconhecer. Fizeram algumas obras, mas poderiam ter feito 20 vezes mais. E o PMDB vai realmente mostrar isso, que terá condições de fazer muito mais do que o que foi feito até agora, e que 20 anos é um ciclo muito longo, que a alternância do poder é fundamental em qualquer Estado, País, em qualquer cidade. Cidade onde tem alternância de poder, as coisas se desenvolvem muito mais do que nas cidades que ficam na mão de um grupo durante muito tempo. O governo estadual, hoje, é um governo acomodado. Todo mundo sabe que há 20 anos é o mesmo grupo, são as mesmas pessoas. Às vezes mudam daqui para ali, de lá para cá, mas é o mesmo diapasão. O Estado, a população, quer essa mudança, quer essa renovação. E quando bate o sentimento de mudança, sai da frente, ninguém segura.

O que faz de Daniel um bom candidato e que poderia fazê-lo um bom governador?
Daniel é jovem, está preparado, já fez vários cursos de Gestão Política, MBA na [Fundação] Getúlio Vargas, já fez curso superior de Direito. Ele fala as coisas com equilíbrio, com transparência, e demonstra suas ideias de forma bastante clara. Daniel está preparado, aos 34 anos, para administrar o Estado.

O sr. tem andado em alguns municípios e tem conversado com lideranças. Muitos interpretam isso como um movimento de quem quer ser candidato a governador…
Não. Quando eu quis ser candidato, em todas as oportunidades, falei claramente: “Sou candidato e vou lutar para ser candidato”. Agora, não serei candidato a governador. Candidato a governador do PMDB, hoje, com a esmagadora maioria apoiando, é o Daniel.

Com os atritos entre Daniel e Iris Rezende no passado, como está a relação hoje?
Nunca houve atrito entre Daniel e Iris, nunca houve atrito entre Iris e eu. Pelo contrário, sempre fizemos uma política de alto nível no PMDB, com Iris, com Daniel. O Iris está muito acima dessas coisas. Iris ter atrito com Daniel? Iris está a 100 quilômetros à frente de Daniel politicamente, ele nunca iria atritar com Daniel. O que houve foi uma disputa em que Iris não interferiu de forma nenhuma; eu não interferi. Daniel quis ser presidente, disputou internamente, ganhou, mas não teve atrito, não tem. Não tem problema nenhum. A política do Iris é uma política muito sadia.

Iris está indo bem, em Goiânia?
Está e vai melhorar muito ainda. Pegou a cidade em dificuldade, vai acertar e fazer o que precisa ser feito. Iris é excelente gestor.

O sr. acha que ele tem preferência pelo Caiado como candidato?
Não. Iris tem uma história no PMDB de 60 anos. Não acredito que ele apoie candidato de outro partido, de forma alguma. Ele pode apoiar o Ronaldo Caiado, o DEM, se o partido todo apoiar. Caso contrário, não acredito.

O PMDB deve ter candidato à Presidência da República?
Se fosse presidente nacional do PMDB, eu buscaria Henrique Meirelles para ser candidato a presidente da República pelo partido. Ele tem credibilidade mundial – não é nem nacional –, está equilibrado, está em uma fase muito boa, uma idade muito boa para presidir o País.

Que avaliação o sr. faz do atual cenário político?
O PSDB terá [Geraldo] Alckmin e [João] Doria disputando, e ainda pode ter outros nomes. O PT, se Lula puder ser candidato, terá o Lula. Isso está claro: PSDB e PT já têm candidato. O Podemos está ensaiando lançar o Álvaro Dias. O Bolsonaro pode ser o candidato do PSC ou de outro partido. Então, o PMDB teria a alternativa de buscar o Meirelles. Acho que seria um grande acerto.

O sr. está sem mandato. Não sente falta?
Não. Já passei por todos os cargos: vereador, deputado estadual, deputado federal, vice, governador, senador. Só nunca disputei a Presidência, e não vou disputar. Não tenho estatura política para isso e o Estado não tem representatividade política para isso. Mas estou muito satisfeito com o que fiz na vida pública. Estou trabalhando porque preciso, e da política não trago um centavo.
“Aparecida (de Goiânia) é uma cidade extraordinária. O Gustavo (Mendanha) vai ser uma grande revelação política”

O que ficou de Aparecida?
R$ 4,8 mil, do que contribuí para a Previdência. Não aceitei aposentar como senador, deputado federal, deputado estadual, governador. Não aceitei nada e não aceitarei. Vou viver…

Mas tinha o direito…
Tinha, como todos os outros aposentados. Achei que não era justo. Renunciei à aposentadoria política. Política é trabalhar para o povo, para o País, com idealismo, não é ganhar dinheiro. Para isso tem que ser empresário.

Tem saudades de ser prefeito de Aparecida?
Aparecida é uma cidade extraordinária, com um povo fantástico, humilde, trabalhador. Povo muito bom. Tenho saudades. Estou constantemente lá, conversando, torcendo para que o Gustavo Mendanha faça um grande trabalho, e está fazendo. O Gustavo vai ser uma grande revelação política.

O que faltou fazer em Aparecida?
Foram feitas muitas obras importantes, estão todas lá, e o Gustavo está continuando. Falta fazer um aeroporto, que será feito agora pela iniciativa privada, e que será o melhor aeroporto executivo do Brasil. Falta o Clia, Complexo Logístico Industrial Alfandegário, que é o porto seco avançado, com muita tecnologia. Vai ter produtos hortifrúti granjeiro, produtos supermercadistas, atacadistas, vai exportar soja…

O que deu mais satisfação realizar em Aparecida?
A infraestrutura nas áreas da saúde, educação, asfalto, redes de esgoto. Tudo isso foi muito prazeroso porque a população esperava isso, estava cansada de poeira, lama.

Qual conselho o sr. daria aos prefeitos que estão enfrentando crises nos municípios? Como ser criativo nas gestões?
Enxugar a folha, qualificar gastos. Não tem outra saída. Com a Prefeitura inchada, não sobra dinheiro para nada, você vira tesoureiro, só arrecada e paga. Tem que desinchar primeiro. Os prefeitos têm que enxugar suas folhas, ser criativos, ter bons projetos e levá-los a Brasília. E buscar empréstimos em bancos de fomento, BNDES, Banco Andino, Caixa, Banco do Brasil.

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