Entrevista Camile Parreira: “Nunca é cedo para aprender uma segunda língua”

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Camile Parreira: contato com segunda língua deve ocorrer antes da alfabetização

Marina Viana Teixeira, especial para a Tribuna do Planalto

Nascida em Santa Catarina, onde passou a infância, a professora de inglês Camile Sá da Rosa Parreira expandiu seu horizonte e já ensinou a língua inglesa no Canadá, Estados Unidos e Inglaterra para brasileiros e pessoas de várias nacionalidades. Mais tarde fixou-se em Goiânia. A relação dela com o ensino de línguas estrangeiras decorre, primeiro, de sua formação em inglês e experiência como professora, pois é graduanda em Pedagogia. E foi impulsionada pelo nascimento dos filhos, Marina (6 anos) e Guilherme (9 meses), o que a levou a observar melhor como as crianças desenvolvem suas funções cognitivas, despertando sua paixão e dedicação pela educação Infantil. Atualmente, Camile presta serviço de substituições para a PUC Idiomas e tem grupos particulares de imersão para crianças. Para a ela, o ensino de línguas estrangeiras durante a infância resulta na formação de crianças mais desenvoltas e seguras de si. A entrevista especial foi feita pela estudante de jornalismo Marina Viana Teixeira, no contexto de uma disciplina de Produção de Texto Jornalístico, para agência de notícias da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás.

 Muitos estudiosos comprovam que a infância é o momento ideal para iniciar os estudos de idiomas. Como professora, é muito perceptível a facilidade das crianças para aprender inglês, em relação a alunos um pouco mais velhos?

 Camile Sá da Rosa Parreira – Antes da alfabetização tudo é mais fácil. O que acontece: quando a criança tem o contato com a língua estrangeira depois que ela aprendeu a escrever e a ler, ela vai ler a palavra em inglês da forma como é no português. Então considero essencial que a criança seja bem exposta à segunda língua antes de ela ser alfabetizada; isso é a chave, precisa ser antes, para ela não criar vícios e preconceitos. Na Escola Internacional as crianças de um até quatro anos de idade são as que mais falam inglês na escola; depois eles vão ficando mais velhos e vão tendo mais contato só com o português por causa do letramento. Claro que a criança tem mais facilidade, tem a mente mais aberta que o adulto… Mas eu já dei aula, para crianças de 8-9 anos e elas já estão, de certa forma, engessadas com a língua mãe e aí é um processo mais doloroso; eles ficam tímidos, não querem falar porque parece engraçado, mas atribuo mais isso ao fato de já ter alfabetizado e já estar com todos esses processos prontos com a língua mãe…

Há uma idade ideal?

Uma criança que começa a ter o contato com a língua estrangeira com um ano e meio – foi o caso da Marina, minha filha – até os cinco anos, essa criança terá o inglês ou a língua que seja quase como a língua mãe, porque ela não tem preconceitos. Isso é o que eu vejo acontecer.  Então acredito que até a alfabetização é o momento ideal.

O ambiente é um elemento que influencia muitas situações e as salas de aulas de escolas de idioma seguem um padrão – como a disposição de imagens, cadeiras, etc. Você acredita que isso afeta o aprendizado também?

Afeta com certeza. A gente tem que trabalhar com o que é possível e não com uma utopia… Então o que acontece: por exemplo, uma das melhores escolas que eu já conheci, eles fazem o máximo que podem com uma estrutura de escola, que é limitada. Acho aquele formato “círculo” muito interessante; agora, se eu pudesse ajudar a ficar melhor, eu diminuiria o número de alunos. O círculo para mim deveria ter de oito a dez pessoas no máximo; porque eu – a mediadora – preciso ouvir todos os alunos. Já tive sala de vinte alunos no CNA e sei que é difícil para o mediador. Um dos piores problemas que tem nas escolas de idioma é o número excessivo de alunos; então a estrutura é muito importante mesmo.

 Algumas pesquisas mostram que, a partir da puberdade, a principal dificuldade percebida se trata da pronúncia. Em relação às crianças, as dificuldades envolvem mais a escrita ou a oralidade?

Escrita. Criança não tem dificuldade com pronúncia, você fala e elas pronunciam. Na puberdade, o que acontece: tem uma preocupação gigante com o outro, com os colegas, se vão rir, o que vão achar. As crianças têm mais dificuldade na escrita, porque elas sabem escrever no português. Então ela vai escrever como ela pensa na escrita da língua mãe.

 O sucesso do aprendizado depende muito da interação proposta pelo professor em sala de aula. De que forma o ensino fica comprometido se não houver essa interação?

Essa é uma pergunta bem importante… Eu não consigo imaginar como um professor terá sucesso se ele não tiver uma boa interação com o aluno. É impossível; não consigo ver isso acontecendo. Então não é que é importante, é vital; se não tiver empatia, se não tiver interação, não motiva… ninguém faz nada. Então não dá; é inviável simplesmente.

 Considerando a impaciência das crianças e o fato de o foco de atenção delas se desviar rapidamente, quais são algumas dinâmicas usadas por você durante as aulas, para manter a concentração delas em determinada atividade ou assunto?

Criança é movida a risos; tudo que é engraçado chama a atenção delas. Então se eu percebo que a atenção está começando a desviar, eu faço alguma coisa engraçada e eles voltam… Essa é a minha técnica. Quando vou dar aula, saio com umas pulseiras coloridas, a maquiagem diferente, o cabelo, a roupa… tudo em mim é para chamar a atenção da criança. Você precisa de toda uma preparação para a criança; tudo para eles tem que encantar; você só consegue atenção deles pelo encantamento. As pessoas que me conhecem sempre falam isso de mim, que as crianças ficam encantadas. Mas não é aleatório… Eu descobri que isso funciona, descobri que, com criança é o colorido, é o engraçado, são as brincadeiras… Aí você os tem e pode trabalhar, construir que eles vão aprender.

 Um dos pressupostos importantes na aprendizagem de idiomas é a relação entre o aluno e a cultura que está sendo estudada. As crianças demonstram curiosidade em saber mais sobre tais culturas?

Ensinar sobre a cultura em que a língua está inserida é fundamental […] É impossível você ter uma genuína aquisição do idioma se não for com a bagagem cultural e entender que existem circunstâncias ao redor daquela língua. Falo muito sobre isso com meus alunos adultos e para as crianças, procuro passar isso de uma forma lúdica, mas que eles entendam que são em realidades diferentes que aquela língua está inserida; a própria questão da pronúncia, da musicalidade do idioma – porque há uma tendência muito grande, quando a criança está aprendendo a nova língua […] de tentar falar com a mesma musicalidade da língua-mãe e são ritmos diferentes. Então é importante demais; na educação infantil você precisa contextualizar, transportá-la para o contexto cultural da segunda língua que ela está aprendendo. Eu faço isso através de imagens, da culinária, de datas especiais – como o Thanksgiving, por exemplo.

 Falando como professora e mãe, como você entende a valorização pela aprendizagem de línguas estrangeiras que os pais têm em relação aos filhos?

Acredito que têm duas motivações que acontecem com mais frequência. Uma é o legítimo e real interesse pelo sucesso profissional do filho; acho que há pais que têm essa consciência da diferença que vai fazer a língua estrangeira para o profissional, para o sucesso, para a carreira, para os estudos, para tudo do filho. Acho que um volume muito grande de famílias pensa assim e valoriza por esse motivo. Mas eu acredito também que existe um volume grande de pais que valorizam essa aprendizagem pelo simples status social; então, funciona da mesma forma: “Tenho Mercedes-Benz, moro em um condomínio fechado e meu filho fala inglês”. Isso existe.

“Pai e mãe têm influência em tudo na vida da sua criança. Na questão da língua estrangeira não podia ser diferente” Camile Parreira, Professora de Inglês

  Quando as crianças, pequenas ainda, entram nesse mundo do aprendizado de idiomas e das atividades em grupo, isso vai influenciá-las fora da sala de aula, no sentido de terem menos timidez, a lidar melhor com as situações e ficarem mais preparadas para o mundo?

Com certeza; percebo isso. Crianças que têm contato com um segundo, terceiro idioma são bem mais desenvoltas. A Marina tinha uma amiga que foi embora para a França, agora em junho. Adeline é filha de uma vietnamita casada com um francês e eles moraram na França e no Canadá. Ela sabe francês – que é o idioma do pai – mas ela sabe inglês e ela sabe português porque  estudou no Brasil. É uma criança bem diferente e eu atribuo a esse acesso a outras línguas essa segurança que elas têm; elas parecem mais seguras, o raciocínio mais rápido, eu acho que ajuda muito. Para mim isso fez muita diferença; eu não consigo me imaginar sem o inglês na minha vida, não seria quem sou hoje; é uma coisa muito doida, mas é que para mim o inglês é uma característica minha.

 É fundamental a presença dos pais nos estudos das crianças, quando demonstram atenção as crianças dedicam-se mais ao estudo dos idiomas?

Totalmente. Não só do idioma, de estudo. Vou te dar um exemplo: já tive alunos – crianças pequenas – recentemente, que eu tive de chamar os pais para conversar sobre tarefa de casa, sobre a importância que é a tarefa de casa para a consolidação do que foi aprendido na escola, do que foi apresentado… A criança não dava valor para a tarefa de casa e nem para o resto, porque para o pai e para a mãe aquilo não tinha valor; não sei se não tinha, mas não demonstravam à criança que aquilo era importante; e para criança pequena, principalmente, o pai e a mãe são as referências; tudo que a gente faz, como pais reflete nos filhos. Então, se um pai e uma mãe não demonstram interesse pela vida escolar da criança, a criança não vai achar que aquilo é importante e eu já vi isso na prática… De ter que intervir, ter que chamar os pais. E mudou: os pais mudaram a atitude e a criança virou outra. Pai e mãe têm uma influência muito grande em tudo na vida da sua criança e na questão da língua estrangeira também, não podia ser diferente.

 Como é pensada a preparação das aulas quanto ao uso de dinâmicas que sejam apropriadas tanto à faixa etária quanto ao nível de conhecimento da criança?

Tenho uma visão diferente em relação a isso. Muitas escolas e professores, quando se tem desnivelamento dentro da sala de aula, eles procuram dar atividades extras para a criança que está para trás… Eu acho válido, mas acredito mais em você envolver a criança, em você mudar o conteúdo para toda a turma. Eu já tive criança autista – eu sou uma apaixonada pela causa autista – e o que eu fazia: o autista precisa de uma dinâmica totalmente diferenciada e aí eu mudei todo o planejamento para ele, para incluí-lo. Então, quando eu tenho desnivelamento, eu tenho que achar uma forma interessante que vá atrair a atenção das crianças que estão mais avançadas com o ensino da língua e vá atrair as que estão mais atrasadas e que ninguém perceba que tem um tratamento para um e um tratamento para outro; acredito na inclusão, em todos os níveis e em todas as situações.

 No seu caso, você possui conhecimento na área de Pedagogia; mas em relação a outros profissionais que se inserem no ensino de idiomas para crianças, as escolas oferecem possibilidades para o docente ampliar seus estudos nessa área?

No ensino de idioma, você não precisa ter uma formação na área de Pedagogia; mas pelo fato de eu ter ensinado em escola regular para turmas de quatro anos – como a Escola Internacional e a Mapple Bear – que são escolas regulares bilíngues, a professora tem que ser uma pedagoga bilíngue, é obrigatório. Agora, ensino de idiomas eu posso ensinar em qualquer lugar com os diplomas que eu tenho, eu posso na verdade dar aulas de inglês até na faculdade; mas para criança quando for ensino regular tem que ter Pedagogia. Então quando não é regular, elas [as escolas] não oferecem, mas é um plus e eu acho bem interessante.

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