Sucessão 2018 | Quando abril chegar

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O vice-governador enfrenta fogo amigo contra sua candidatura nas eleições do ano que vem. Mas sua hora vai chegar: quando assumir o governo do Estado

Marcione Barreira

Com menos de um ano para as eleições de 2018, nem tudo é certeza na base governista. Entre muitas dúvidas, está o tamanho da articulação da candidatura do vice-governador, José Eliton (PSDB). No horizonte, o que se aponta é a sua reeleição. Isso porque o titular, Marconi Perillo, já avisou que deixa o comando do governo em abril para ser candidato a senador.

Eliton assume o posto pouco meses antes do início da campanha, e é nesse prazo entre abril e agosto, mês das convenções, que o seu futuro será traçado. Há quem aposte que ele não conseguirá nem ser candidato. Mas isso está mais para torcida do que para uma realidade, já que, com o governo na mão, o mais razoável é acreditar que Eliton terá elementos e meios suficientes para garantir-se na disputa.

A questão que permeia tudo é outra: ele será candidato com uma base ampla e unida, ou candidato com um leque de apoiadores menor que o de Marconi nos últimos anos? Neste caso, a ênfase é colocada na pouca experiência política do vice. Como ele se sairá nas conversas com aliados, na administração de interesses, na condução das crises, na composição da chapa – tudo isso é um ponto de interrogação. Mas a expectativa dos que têm acompanhado suas movimentações nos últimos meses é positiva.

A avaliação é objetiva: ele mostrou que tem disposição para o campo (campanha), competência para o gabinete (governar o Estado) e habilidade para apaziguar ânimos. Mesmo os que ainda reclamam e indicam arestas a serem aparadas, elogiam o que definem como sua capacidade de diálogo. Daí a expectativa criada: com o governo na mão é que José Eliton terá condições verdadeiras para fechar os acordos pendentes, fazer as alianças necessárias e, então, ir pedir voto fortalecido por uma base unida e fortalecida.

Data para o novo Zé

ZÉ EM JOSÉ – Eliton pré-candidato é um. Surgirá um novo Zé assim que este assumir o governo em definitivo
ZÉ EM JOSÉ – Eliton pré-candidato é um. Surgirá um novo Zé assim que este assumir o governo em definitivo

Aliados do governo apostam que o José Eliton pré-candidato é um e surgirá um novo José Eliton assim que este assumir de forma definitiva o governo, fazendo coro à estratégia de marketing que busca firmar a imagem de Zé, em José.

Desde março, quando foi lançado o programa Goiás na Frente, o vice-governador tem feito maratona sistemática pelo interior do Estado, encurtando laços com prefeitos e lideranças municipais visando apoio para o processo eleitoral, mas até agora as ações não se refletiram nas pesquisas, que apontam outro favorito, o senador Ronaldo Caiado (DEM).

Aliados na Câmara federal apostam: José Eliton está plantando para colher. Está aí a principal razão de a base aliada não se preocupar com o resultado dos levantamentos expostos até aqui. O trabalho realizado a partir de março começará a dar efeito em breve, acreditam os governistas. “Agora ele planta. A colheita será feita em meados do ano que vem”, anima-se o deputado federal Célio Silveira (PSDB).

O peessedebista esteve com José Eliton no lançamento da vertente de Habitação e 3º Setor Social do Goiás na Frente em municípios da região Sul do Entorno do Distrito Federal. Célio foi prefeito de Luziânia, cidade do Entorno, e entende que a região deverá ser preponderante na curva ascendente do vice-governador a partir do ano que vem. Marconi Perillo sempre levou vantagem ali, em suas eleições.

Elemento enfatizado pelos aliados é José Eliton pertencer a um partido com muita capilaridade no interior de Goiás. Este ano a legenda conseguiu ampliar sua diferença para o PMDB – forte adversário no interior – em relação ao número de prefeitos. O último grande ato de filiação ocorreu em agosto, quando o partido atraiu 15 novos líderes municipais ao seu ninho.

O deputado federal Fábio Sousa (PSDB) considera este um dos principais fatores para a ascensão de Eliton assim que assumir o comando do executivo. O argumento de Sousa é o de que, como governador, ele terá o poder da caneta. Isso, segundo ele, muda tudo, inclusive a relação com os prefeitos que hoje desfrutam os benefícios dos programas de governo. “Vão passar (os prefeitos) a enxergá-lo de outra maneira, e isso se unirá à estrutura partidária”, observa Sousa.

A história aponta que o único sucessor de Marconi desde 1998 até hoje foi o ex-governador Alcides Rodrigues (PRP). O enredo é parecido com o que ocorre agora. No início, Alcides, também vice-governador de Marconi, não despontava nas pesquisas. Esteve a maior parte do tempo atrás do adversário da oposição, o peemedebista Maguito Vilela.

A situação permaneceu assim mesmo depois dele assumir o governo, em abril. E só mudou com a campanha de fato, principalmente a partir de agosto. Nas urnas, venceu Alcides.

VITTI – Como Baldy, um dos apontados como alternativa na base
VITTI – Como Baldy, um dos apontados como alternativa na base

Base não tem plano B

Apesar de em alguns momentos alguns nomes serem citados como possíveis candidatos em lugar de Zé Eliton – como o presidente da Assembleia, José Vitti, e, mais recentemente, o ministro das Cidades, deputado federal Alexandre Baldy –, prevalece a visão de que a vaga é dele, dentro do processo natural de reeleição.

Algumas ressalvas são expostas quando a indagação vai além do PSDB, abrangendo a base governista, que reúne, além dos tucanos, o PTB, PSD, PR, PP, PSB, PPS, PROS, entre outras legendas. Os interesses são muitos, para pouco tempo de governo atual e espaço mínimo na chapa que definirá o governo seguinte, em caso de vitória: a vice e uma vaga de candidato a senador – a outra, já que são duas, será de Marconi Perillo.

Fato novo surgido nos últimos dias foi a nomeação de Alexandre Baldy para o Ministério de Michel Temer (PMDB). Como ele não confirmou filiação ao PP, as especulações ganharam força para todos os lados, com profusão de elogios do próprio Zé Eliton e também do pré-candidato a governador peemedebista Daniel Vilela. Ainda mais porque um de seus primeiros compromissos foi um encontro com o prefeito de Goiânia, Iris Rezende.

Desde então, Baldy foi apresentado como potencial candidato (plano b) a governador pela base marconista, que ele integra, e pelo PMDB (por conta ainda de sua proximidade com Temer e com o peemedebista Sandro Mabel). E como candidato a senador, pela base e pela oposição. Ou seja: coringa político, seu futuro eleitoral virou incógnita.

Para aliados, no entanto, essa discussão é prematura, e faz parte do processo que antecedo o jogo decisivo que só vai acontecer de verdade quando Eliton estiver sentado na cadeira de comando do Palácio das Esmeraldas. Aí que, à parte o teste de sua capacidade de articulação política, os interesses serão realmente expostos e o jogo principal começará.

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ANÁLISE

A mão que afaga, também bate

Vassil Oliveira

O fogo amigo, sempre ele, é o maior adversário do vice-governador José Eliton, nesta fase da campanha, iniciada quando o governador Marconi Perillo lançou o seu nome, no início do ano, e que terminará quando ele assumir o governo, em abril. Por ora, o jogo é de pressão. Definição, só lá na frente.

A antecipação da largada eleitoral teve o efeito de apresentar o político Eliton a uma base de partidos que pouco o reconheciam como líder. Mas teve a consequência de abrir as rodadas de negociações, para espaços na chapa e em cargos no governo, que só ganhariam fôlego na proximidade das convenções.

Em outras palavras, Eliton colhe os benefícios da campanha antecipada, porém tem que pagar a conta da estratégia de risco máximo. No rastro da dúvida alimentada em torno de sua sustentação eleitoral está o de sempre: a fatura de cada partido, cada grupo, cada um que sempre quer mais.

Favorece essa refrega, que muitas vezes tem ares de chantagem, o caos político vivido pelo País. Como ninguém sabe quem será aliado de quem, ou quais serão os candidatos a presidente, também não é possível prever para que lado legenda, líderes e grupos seguirão no ano que vem.

Em meio ao caos, tudo é possível, porque ninguém é de ninguém. Assim é que o PSD pode se aliar ao PMDB, desfalcando a base de Zé Eliton. Mas pode também permanecer firme, mesmo Vilmar Rocha não assegurando sua tão sonhada vaga de senador.

Da mesma forma, nada impede que o PSDB de Eliton faça um acordo nacional de gaveta com o PMDB de Temer, o que deixaria a política goiana mais confusa ainda. Ou que o PSB, adversário do presidente em Brasília, indique a senadora Lúcia Vânia para a chapa de Daniel Vilela no Estado.

Nesse jogo de gato e rato, de interesses muito particulares, longe do público, levará a melhor certamente não o ‘melhor nome’ – qual? –, e sim o negociador mais habilidoso. Paralelo à chamada habilidade política, algo comumente romântico, sempre haverá de prevalecer a habilidade para o pragmatismo eleitoral. Quem pagar mais, levará a melhor.

Em algum momento, os aliados poderão ter de escolher entre colocar em dúvida a candidatura de Zé e colar em Zé, para garantir a sobrevivência política. Será uma escolha entre perder ou ganhar. E há o outro lado da moeda, para quando Eliton assumir o governo: a mão que afaga aliados é mesma que também apedreja, quando quer, retirando cargos, benefícios e espaços providenciais no governo.

Uma coisa é um governador que se deixa sabotar mantendo ao seu lado os aliados do adversário. Esse filme já vimos. Outro, que faz a sua hora acontecer. É a lei da reciprocidade política.

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