Francisco Júnior: ‘Pode acontecer de não nos quererem na base’

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O deputado estadual Francisco Júnior (PSD)

Daniela Martins
e Fabiola Rodrigues

Prestes a buscar voos mais longos, mais precisamente para a Câmara Federal, em Brasília, o deputado estadual Francisco Júnior (PSD), que foi candidato à Prefeitura de Goiânia na eleição passada, demonstra em entrevista à Tribuna que, no fundo, tem enorme vontade de um dia governar Goiânia.  Dia 7, ele lança o livro ‘A função social da propriedade urbana em Goiânia’, pela Editora PUC Goiás, no Palácio das Esmeraldas. A obra é resultado da atualização de sua monografia de mestrado. “E das experiências que vivi, e vivo, na cidade de Goiânia, seja como cidadão, estudioso, secretário de planejamento, vereador ou deputado”, reforça.

Tribuna do Planalto – Dá pra falar que foi positivo seu trabalho na Assembleia, este ano?

Francisco Júnior – Sim, especialmente neste segundo mandato tivemos muitas oportunidades, sendo que o trabalho cresceu muito naquilo que tem menos visibilidade, que é a ação legislativa. O parlamentar praticamente trabalha em três áreas. Ele fiscaliza, representa – cuida da interlocução da sociedade com o poder –, e legisla. No caso do deputado estadual, a interlocução é fácil perceber, e a fiscalização, principalmente no caso do deputado de oposição, que foca muito nisso. Mas a legislação nem sempre tem o espaço, o destaque, a dedicação que precisa ter. Tenho quase 150 de projetos de lei apresentados, grande parte deles sancionados, alguns transitando ainda. Alguns foram aprovados, mas vetados. Estou muito satisfeito com vários desses projetos que realmente vão poder melhorar a sociedade.
Um destes projetos é o que prevê psicólogos na escola…
Esse é um bom exemplo. Ele foi agora aprovado na CCJ [Comissão de Constituição, Justiça e Redação] e ainda está do início para o meio da tramitação. Lá falo da necessidade de ter um psicólogo por escola, mas faça uma discussão com a Secretaria da Educação e com o Conselho [Estadual de Educação de Goiás] da necessidade de caminharmos na linha do tempo. O ideal no futuro vai ser um psicólogo por escola, mas temos de ter o que for possível nesse momento, mesmo que seja um psicólogo por regional. A questão do bullying, que está ganhando mais espaço hoje. A questão da incerteza, insegurança, que o jovem tem hoje diante da sociedade. A quantidade de informação a que ele tem acesso hoje. Às vezes, não é muito raro, você tem o aluno com mais acesso à informação do que o próprio professor, ou a família. Então, tudo isso é uma grande novidade na educação.

Tem outros projetos na área?
Temos outros projetos com relação aos direitos que tem a pessoa com deficiência na educação. Por exemplo, o direito que ele tem de se matricular onde for mais fácil para ele ir. Tem outra iniciativa nossa, que já é lei, no sentido de estimular o empresariado local a investir na educação. Tem o “Jovem Aprendiz”, que já virou lei…

Em 2018 tem eleições no Estado. O PSD deve continuar na base?
O natural, o normal é continuar na base, mas essa conversa vai acontecer no ano que vem.

A condição é a vaga para Vilmar Rocha ao Senado?
Não, a condição para continuar na base é poder sentar à mesa para fazer essa discussão. O que o PSD não pode aceitar é que essa discussão aconteça agora, antes da hora. Quer dizer, que o PSD seja excluído dessa discussão, isso não faz sentido. O PSD tem disposição para conversar, tem nomes para apresentar, bons nomes e tem uma história na base. O nosso presidente, secretário Vilmar Rocha, gosta de dizer que ele não é só alguém que compõe a base, ele ajudou a criar o Tempo Novo. Isso lá em 1998. Então, do ponto de vista do partido, estamos conversando, estamos abertos. Mas é natural que a gente continue na base, existe uma história. Para não continuar na base tem que ter um fato, tem que acontecer alguma coisa.

Então há essa possibilidade.
Pode acontecer de não nos quererem na base. A base tem confrontos e tem um ‘bom problema’, que é o excesso de nomes para colocar. Só existem quatro vagas na majoritária, e ela tem um excesso de nomes para compor. Não só do PSD, mas dos outros partidos, PTB, PSD, PP, PSDB, então tem que sentar e conversar. O projeto tem que ser maior que as vaidades pessoais.
No Estado, o PSD está na base do governo liderado pelo PSDB e, em nível nacional, o PSDB está desembarcando do governo Temer. Dá para desvincular a política nacional da local?
Esse é um grande problema no Brasil. Ela é desvinculada e não precisa ir tão longe, você vai para os municípios. Cada município tem um cenário muito interessante. Tem município em que PSDB e PMDB, vamos pegar o mesmo exemplo nacional, são amigos e noutros são inimigos. Então, isso dentro do Estado. Tem lugar que você tem prefeito e vice destes grupos, e aí você pega PT, PSDB… O Brasil vive hoje uma grande crise na sua orientação político-partidária. É uma grande crise. Essa é uma situação que precisa ser resolvida, precisa avançar, é partido demais e ideologia de menos. Hoje é difícil de dizer até o que é de direita e de esquerda no Brasil.

O ministro Henrique Meirelles, que é do PSD, recentemente revelou seu interesse em ser candidato à Presidência. Essa candidatura é real?

Penso que é uma vontade de toda e qualquer pessoa de bom senso ter um homem com a credibilidade, com a história, o histórico, o currículo de Henrique Meirelles na Presidência da República. Seria fantástico. Mas aí entra o abismo que existe entre quem seria um bom presidente e aquele que seria um bom candidato a presidente. Então, este é o desafio. Dos candidatos que estão colocados até agora, considero Henrique Meirelles e Geraldo Alckmin como excelentes candidatos, mas que têm dificuldades porque não são populistas. Hoje temos os dois candidatos que estão à frente falando exatamente o que o seu público quer ouvir. Então, o Brasil se prende muito nisso, na aparência do bom candidato, e não discute a essência da boa gestão. Enfrentei isso na minha candidatura a prefeito.

“É natural que a gente continue na base, existe uma história. Para não continuar na base tem que ter um fato, tem que acontecer alguma coisa.”

Qual foi a dificuldade do sr. na candidatura à Prefeitura de Goiânia?
Tive uma dificuldade muito grande de discutir a cidade. Ninguém queria discutir a cidade, tinha pouco espaço para discutir. Você tinha a presença muito marcante de um candidato que tem uma história muito forte, mérito dele, que tem 60 anos de vida pública. E acabava que, como ele é muito conhecido, isso sufocou a possibilidade de se discutir formas diferentes de resolver os problemas. Ele apresentava uma receita pronta que funcionou no passado, mas que a gente está percebendo agora que não está funcionando da mesma forma que funcionava no passado.

Na Prefeitura hoje falta dinheiro ou falta gestão?
Penso que faltam as duas coisas. Falta gestão, muito. E falta solução na forma como o dinheiro que se tem está sendo administrado. Dinheiro tem, falta gestão, claro. A boa gestão produziria mais, otimizaria mais os recursos. Mas existem problemas que estão muito estruturados, enraizados, então, nesse momento teria de ter uma gestão – e vou usar um termo que não é o melhor – uma gestão mais agressiva, romper com determinados paradigmas para dar conta de implementar. Um exemplo é a questão do lixo na cidade.

O que o sr. faria com a Comurg?
Olha, para dizer o que faria com a Comurg teria de entrar lá e conhecer a realidade dela. Falta transparência, a gente não sabe direito qual é a saúde da Comurg. A Comurg é uma empresa de um cliente só. Ela é viável, se ela fosse estruturada e pudesse prestar serviço para a região metropolitana como um todo? Se ela pudesse se estruturar melhor? Eu não sei. É necessário entrar para conhecer. Se ela é viável, é necessário investir na sua viabilidade. Se não é viável, então temos de encontrar uma solução. O que não pode é estar há 15 anos entendendo que ela tem problema e esse problema só aumenta, e a gente não faz nem uma coisa nem outra. Nem viabiliza para que a Comurg se torne uma grande empresa, entre no mercado, preste serviço, já que ela é uma empresa de economia mista, empresa pública. Nem muda sua forma de trabalho, a gente vai percebendo que o problema só vai aumentando.

Falta diálogo entre Executivo e Legislativo? Isso dificulta a administração do prefeito Iris?
Isso não é nem suposição. O prefeito é homem muito experiente para entender que ele não precisa nomear um líder. Agora, as notícias recentes estão mostrando que a estratégia dele está errada. Não pode perder algo que considera importante, algo em que a prefeitura expôs, com apenas 4 votos. E a maioria mais do que absoluta de gente que se entende da base votar contra. Então, falta diálogo. Ou a Prefeitura não conseguiu ser convencida de que ela está errada ou não conseguiu, de forma alguma, convencer os vereadores de que estava certa. A gente percebe que existe uma comunicação completamente truncada entre a prefeitura e a Câmara, não falam a mesma língua.
Como o sr. avalia o governo municipal?
A sensação que a gente tem da prefeitura é que é um governo improvisado.

Mesmo com a experiência que o prefeito tem?
Tem experiência, mas o mundo hoje é muito moderno, muito rápido, precisa de dados, de informação. Dá a entender que o plano de governo foi feito depois da posse, depois que chegaram lá e foram descobrir o que estava acontecendo na Prefeitura de Goiânia. Existem várias ações improvisadas. Valorizo a experiência, mas é necessário a gente entender que tem de ter um mínimo de planejamento para você ter segurança para fazer as coisas.

O sr. já foi candidato a prefeito. Ano que vem terá novas eleições. O sr. tem vontade de ser candidato a governador?
Eu nem ganhei para prefeito (risos). Quando entrei na vida pública, entrei sonhando com uma cidade. Sou de Goiânia, nasci em Goiânia, criei meus filhos aqui, e quando tive a oportunidade de trabalhar a cidade, me apaixonei.  Trabalhei como secretário de Planejamento de 2005 a março de 2008, na gestão Iris Rezende, inclusive. Oportunidade em que fiz um mestrado sobre a cidade de Goiânia, estudei a fundo alternativas, soluções para a cidade e tive muita vontade que aquilo acontecesse, saísse do papel. Coordenei a elaboração do Plano Diretor, que foi aprovado em 2007, mas lamentavelmente a maioria dele nunca saiu do papel. Então, a minha vontade de entrar na vida pública eleitoral era para que essas coisas acontecessem. Fui candidato a vereador em 2008, fui eleito, fui presidente da Câmara e, depois, dando sequência a isso, olhando para Goiânia. Consegui em um primeiro momento ser candidato a vice, depois a prefeito, e os meus olhares, nesse aspecto, até este momento foram para Goiânia. Tanto é que nos próximos dias estou lançando um livro sobre Goiânia, sobre o planejamento de Goiânia, que é a dissertação monografia de mestrado que defendi em 2008 sendo atualizada. Não sei se estou encerrando essa etapa, mas preciso focar minhas energias agora na conclusão de um bom mandato de deputado estadual com olhos para o Congresso Nacional.

Em Goiás, o PSD pode voltar a se aproximar do PMDB?
Existe diálogo, mas é natural, é mais provável que o PSD continue com a base. Segundo a imprensa, vi notinhas no jornal, tentaram alguns ensaios, alguns balões, até do PSDB se aproximando do PMDB. Se é possível PSDB se aproximar do PMDB, então hoje em dia na política brasileira tudo é possível. Na campanha de 2016, em que fui candidato a prefeito, pouco antes de o Iris sair candidato, ele ainda estava fora da campanha, houve um encontro entre Iris e Marconi. E há quem diga que foi esse encontro que despertou o Iris a se lançar novamente candidato a prefeito de Goiânia. Na política tudo é possível, agora temos de fazer isso motivados por resolver a crise que existe no Brasil, a principal delas a crise de credibilidade e liderança, e não por questões absurdas pessoais, de vaidade. Então, é possível? É possível. Mas tem que ser construído. E tem que ser construído por motivo mais nobre do que simplesmente ganhar a eleição.  Tem que ganhar para cumprir um papel.

E, se houver essa aproximação entre PMDB e PSD, o sr. se aproximaria de Iris Rezende?
Não tenho nenhuma dificuldade com o prefeito Iris Rezende. Sou um admirador dele. Consegui passar uma campanha de prefeito adversário dele e não tem uma nota minha falando mal dele, da pessoa que ele é. Reconheço Iris e Marconi como as duas grandes lideranças do Estado de Goiás, os dois homens importantíssimos para o Estado, cada uma na sua época e do seu jeito. Porém, entendo que Goiânia precisa de algo novo, precisa avançar, e que não era Iris a pessoa mais adequada nesse momento. E falando isso não estou desmerecendo nada da sua história, muito pelo contrário. Eu o reconheço, o admiro e valorizo muito a sua capacidade. Porém, no momento de hoje, é necessário termos um perfil diferente na gestão, um perfil de governança. Está aí a dificuldade que existe nele. Não é mais um perfil centralizador. Temos realidades em Goiânia hoje diferentes, e ele está até se dando bem. Vou dar um exemplo. Temos a participação da sociedade civil organizada na gestão da cidade. Temos o Codese [Conselho de Desenvolvimento Econômico, Sustentável e Estratégico de Goiânia] bem organizando, participando, contribuindo. E isso é uma realidade que veio para ficar. A sociedade precisa participar mais. Não podemos mais ter gestões de um homem só. Precisamos ter líderes que envolvam toda a sociedade num projeto de governança. Eu o admiro [Iris Rezende], porém não concordo mais com determinadas opções administrativas que ele faz.

Temos dois goianos no Planalto. Alexandre Baldy no Ministro das Cidades e Henrique Meirelles, na Fazenda. Goiás tem conquistado mais espaço na política nacional?
francisco2 Goiás ainda tem uma presença na política nacional muito pequena, e nós estamos, numericamente falando, bem posicionados. O Estado cresce mais que a média brasileira, conseguimos recentemente ter a melhor classificação no Ideb na Educação. Somos o maior gerador de empregos, batemos os nossos próprios recordes já há muitos anos. Estamos entre os maiores captadores de negócios. Então, é justo que Goiás ofereça ao cenário da política nacional novas lideranças. Conseguimos suavizar a crise [econômica] aqui, graças às ações que o governador Marconi Perillo realizou, com desgaste pessoal muito grande. Mas ele fez o dever de casa no final do seu mandato anterior. Então, Goiás tem dado exemplo de que tem competência. Por que não contribuirmos mais, com o jeito de administrar aqui de Goiás, no cenário nacional? É justo. Não é simplesmente uma questão técnica, mas por aspecto político também. A habilidade política que o goiano tem, acredito, será cada vez mais reconhecida no cenário nacional.

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