Professores cada vez mais adoecidos

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Excesso de trabalho, salário baixo, desgaste físico e emocional, agressões físicas e verbais transformam a nobre tarefa de ensinar em um verdadeiro martírio

Por: Manoel Messias Rodrigues e Fabiola Rodrigues

Cumprir o ofício de professor está cada dia mais difícil. O excesso de trabalho, indisciplina dos alunos, salário baixo, desgaste físico e emocional, agressões físicas e verbais transformam a nobre tarefa de ensinar em um verdadeiro martírio. O resultado é ansiedade, depressão, pânico, que têm levado ao afastamento de muitos professores do trabalho.

Um levantamento feito pela GloboNews via Lei de Acesso à Informação, divulgado no mês passado, descobriu que no Estado de São Paulo quase dobrou a quantidade de professores de escolas estaduais afastados por transtornos comportamentais entre 2015 e 2016. De acordo com a apuração, no ano de 2015 cerca de 26 mil professores pediram afastamento por transtornos mentais e de comportamento. Em 2016 esse número chegou a mais de 50 mil e problemas como depressão, ansiedade e síndrome do pânico foram responsáveis por 37% das licenças médicas.

Até setembro deste ano, 27 mil professores já se afastaram – ainda segundo o levantamento da GloboNews. Os transtornos mentais continuam respondendo por 36% dos afastamentos.

“Atualmente o professor não sabe até onde pode ir ou como agir, o medo tomou conta por não saber as consequências que sofrerá dentro e fora do ambiente escolar. Saímos do extremismo de imposição de respeito, para uma crise de autoridade. Estamos vivendo uma crise comportamental”, afirma a psicóloga Jéssica Mendonça, que atende constantemente professores em seu consultório em Goiânia.

“O professor não sabe até onde pode ir ou como agir, o medo tomou conta por não saber as consequências que sofrerá dentro e fora do ambiente escolar” - Jéssica Mendonça, psicóloga.
“O professor não sabe até onde pode ir ou como agir, o medo tomou conta por não saber as consequências que sofrerá dentro e fora do ambiente escolar” – Jéssica Mendonça, psicóloga.

Por várias razões, a escola passou a ter a missão de, além de ensinar, suprir funções antes consideradas da família, como educar e transmitir valores. Diante do acúmulo de tarefas, os professores apresentam quadro de esgotamento mental e físico e o abandono da sala de aula surge como uma fuga para tentar resgatar a saúde mental e autonomia. Além da indisciplina, as más condições de trabalho estão entre as principais causas de doenças psicológicas que levam ao afastamento.

“Os pais estão com muita dificuldade de impor limites e de saber dizer não. Consequentemente o estudante chega à escola sem respeitar regras. Isso é grave”, diz Jéssica Mendonça.

“Não é fácil para o professor ter que se desdobrar para conseguir atender o aluno, que não tem entendido o que é respeito. É quase inevitável não adoecer”, observa.

Para piorar o quadro, o professor chega à sala de aula sem uma sólida formação, sendo obrigado a encarar turmas de jovens e adolescentes com diversos tipos comportamentos.

“O professor está inseguro, a graduação não capacita ele a saber lidar com essa juventude”, diz a psicóloga.

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (Sintego), Bia de Lima, diz que a situação precisar ser urgentemente enfrentada.

“Está faltando regulamentação e ordens de direitos que defendam de fato o professor. O estudante não pode ficar brincando com a idoneidade e competência dele, chega! Sem contar que, além de ter que ensinar, ele precisa transferir valores, já que os pais não têm feito isso”, diz a sindicalista.

“O volume de professores se afastando é grande. O tratamento para cuidar do desgaste emocional deles leva tempo, não sara simplesmente com remédio” - Bia de Lima, presidente do Sintego
“O volume de professores se afastando é grande. O tratamento para cuidar do desgaste emocional deles leva tempo, não sara simplesmente com remédio” – Bia de Lima, presidente do Sintego

“O volume de professores se afastando é grande. O tratamento para cuidar do desgaste emocional deles leva tempo, não sara simplesmente com remédio. Até mesmo para um professor pedir afastamento, ele tem encontrado dificuldades”, relata, reclamando da falta de uma política de atendimento por falta da Secretaria Estadual de Educação.

“Eles estão precisando de socorro e de ser acolhidos. Situações vexatórias na escola, baixa remuneração os tem feito perder o prazer e ainda ficam doentes. Uma escola com mais conduta deve ser formada e as famílias devem cumprir com a obrigação de orientar e acompanhar o filho”, desabafa.

A reportagem solicitou à Secretaria Estadual de Educação a quantidade de professores afastados de sala de aula nos últimos anos devido a problemas psicológicos, mas não houve resposta até o fechamento da edição.

“A sensação de tristeza tomava conta de mim”

box escolaO caso da professora Rosalice Silva, que dá aulas há quase 30 anos nas redes estadual e municipal de Goiânia, é mais um dos que se repetem rotineiramente pelo Brasil. Este ano, ela teve que pedir afastamento das escolas em que trabalhava, por causa de depressão devido à rotina escolar.

A professora, que escolheu a profissão por sentir amor em exercê-la, atualmente se encontra depressiva e frustrada, por causa do mau comportamento dos estudantes e pelo pouco reconhecimento do trabalho.

“Estamos tendo que gastar mais de 50% do tempo na sala de aula chamando à atenção e disciplinando os alunos. É um desgaste constante e sem limites. Está difícil ensinar, passei por várias situações de irritabilidade, sofri ameaças de estudantes e até de pais mandando áudio pelo celular, cobrando notas a mais do filho”, conta a professora.

Por motivos de saúde, Rosalice Silva segue afastada do ambiente escolar. Durante a reportagem relatou que o simples ato de passar pela porta da escola já a faz se sentir mal.

“No primeiro semestre deste ano, quando estava trabalhando e tinha que dar aula de manhã, eu dormia relativamente bem, mas acordava muito mal e sentia pânico. A sensação de tristeza tomava conta de mim”, lembra.

Voltar à rotina é um dos temores da professora, mas ela precisa encarar novamente a realidade, já que o afastamento é por um semestre. O maior desafio dela agora é buscar o equilibro psicológico.

“Minha licença está acabando, terei que encarar os desafios novamente, mas tenho certeza que somente em parceria entre o governo estadual, as famílias e escolas a nossa lamentável realidade escolar mudará, caso contrário não teremos condições de trabalhar”, observa.

“Estou tendo receio daqueles estudantes mais calados e que não se abrem. De repente podem entrar em sala de aula armados” – Michel Franco, professor
“Estou tendo receio daqueles estudantes mais calados e que não se abrem. De repente podem entrar em sala de aula armados” – Michel Franco, professor

Professor há quase 10 anos, Michel Franco admite que, com a crescente violência na escola, o medo de reação agressiva de um estudante em sala hoje já o preocupa. Ele relata que já foi xingando em sala, mas por ser homem tenta se impor e obter respeito.

“Estou tendo receio daqueles estudantes mais calados e que não se abrem. De repente podem entrar em sala de aula armados”, diz.

O professor acredita que a agressividade do estudante está relacionado com a falta de base familiar – algo que se observa em todas as camadas sociais.

“Este tipo de carência pode desencadear vários problemas psicológicos e psiquiátricos nas crianças e adolescentes”, lembra.

 

 

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