Entrevista Anselmo Pereira: ‘Câmara e prefeitura não encontraram o passo para andarem em partilha’

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Anselmo: "No meu entender, falta uma liderança que ligue Executivo e Legislativo"

Marcione Barreira

Decano na Câmara Municipal de Goiânia, o vereador Anselmo Pereira (PSDB) talvez seja o maior articulador entre seus pares no Legislativo goianiense. Talvez por isso ele aponte que a falta de articulação entre a Casa e a Prefeitura se dê por dois motivos: a falta de um líder do prefeito Iris Rezende (PMDB) dentre os vereadores e também a falta de uma secretaria ou de um auxiliar que pegue para si a responsabilidade sobre as demandas dos legisladores. Nesta entrevista concedida à Tribuna do Planalto, Anselmo aponta ainda que falta firmeza a Iris nesta gestão, avalia que todas as últimas opções de candidatos do PSDB à prefeitura foram erradas e aponta José Eliton (PSDB) como único nome da sigla à disputa pelo governo estadual. “Ele vai se aproveitar da desorganização da oposição”, aposta. Confira.

Entrevista
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Tribuna do Planalto – A relação entre legislativo e executivo não anda muito bem. Câmara e Paço estão em guerra?

Anselmo Pereira – Não. Na verdade a Câmara e a Prefeitura não encontraram o passo para andarem em partilha. Essa é a grande verdade. No meu entender, falta uma liderança que ligue Executivo e Legislativo. Isso não quer dizer necessariamente o líder do prefeito, mas tem que ter uma secretaria ou alguém na prefeitura que tenha um canal de comunicação mais direto com os vereadores. Se for para ser o prefeito, ele precisa disponibilizar um tempo maior para dar atenção às causas que os vereadores levam à prefeitura e vice-versa. Outra coisa que precisa é de o prefeito, eu já disse isso a ele, ao levar um projeto à Câmara, faça uma discussão com os vereadores e com as lideranças partidárias desses vereadores. Então o que falta é um mecanismo de relacionamento: de um lado a Câmara não tem líder e de outro não tem um órgão que esteja assinado como responsável por receber as demandas político-administrativas dos vereadores. Aí então, surgem os conflitos.

Goiânia ganha ou perde com esse enfrentamento político?
Perde muito, absolutamente. Nós assinamos uma série de leis – que irei elencar algumas – que foram entregues antes do prefeito tomar posse para melhorar a cidade, e nada foi feito. Impostos e taxas dependem da capacidade contributiva do cidadão ou das suas atividades. Eu vou lhe citar alguns exemplo: alvará de aceite, aprovado enquanto fui presidente, até agora não foi colocado em prática. Esse projeto vai legalizar um quarto de Goiânia e vai trazer uma receita de R$ 500 milhões. Tem também o parquímetro que vai trazer uma receita diária e ao mesmo tempo vai democratizar os estacionamentos públicos em Goiânia. Outro assunto também é a venda de pontas de quadras, já está aprovada. Nada aconteceu.

Qual é a razão pela qual o sr acha que nada disso foi posto em prática?
A Câmara já deu sua contribuição, mas eu acho que lá na prefeitura precisa ter sintonia entre os órgãos. Precisa ter algum mecanismo que atrele as secretarias para fazer com que elas estejam conjugadas num único sentido. Parece-me que o descompasso está claro na administração. Pela experiência que tem o Iris, está faltando a ele impulsionar com mais firmeza.

O argumento de que ele pegou a prefeitura numa situação financeira degradável é válido?
Ele pegou a prefeitura economicamente abalada, mas nós já vamos chegar a um ano e essa economia já precisava estar caminhado para sua recuperação. Todos os inícios de governo são assim mesmo, mas você precisa estabelecer prioridades e não há hoje nenhuma prioridade maior do que a Saúde. Nós aprovamos um orçamento dando ao prefeito a possibilidade de remanejamento de 21% da receita para esse fim. Repito, a Câmara está dando a contribuição e o executivo está pecando em não fazer marchar num tom só para executar esse benefício.

anselmo1Como resolver o impasse entre os pedidos pelo afastamento da secretária da Saúde sem ferir a autoridade do prefeito?
Eu, por exemplo, não assinei o pedido de afastamento da secretária. Não é que eu seja a favor, mas é que eu entendo que outro que entrar vai estar com os mesmo problemas que ela está enfrentando. Ela tem problemas com os vereadores? Tem. Eu disse ao prefeito na semana passada “prefeito, monte na secretaria um organismo que lida melhor com as ideias e as reivindicações dos parlamentares. Por exemplo, verificar porque o posto está fechado, porque não foi aberto, porque está pronto e não funciona”. É isso que o parlamentar exige da administração pública.

“O perfil do líder tem que ser articulado, experiente e confiável aos vereadores. Sem essas qualidades, vai cair no outro dia”

Qual foi a reação do prefeito quando o sr. comentou esse assunto?
Senti dele uma prontidão para que de agora até janeiro ele tenha um líder. Ele disse isso a nós. Isso é muito bom. Acredito que todos esses projetos de leis que nós deixamos para que a prefeitura arrecade também terão prioridade.

Nessa conversa ele deu pistas de quem poderia ser o líder na Casa?
Não, não. Não e nós nem sugerimos ninguém a ele. Agora, perfil do líder tem que articulado, experiente e confiável aos vereadores. Sem essas qualidades, vai cair no outro dia.

Vereadores não exageram e perdem a razão quando xingam secretários, em vez de buscar o debate e o diálogo?
Eu entendo que boa parte das críticas feitas pelos vereadores na Câmara poderiam ser críticas construtivas. Parte de vereadores na Câmara faz denúncia com muitos fundamentos, mas há aqueles que talvez estejam jogando barro na parede para ver se pegam alguma coisa. De qualquer maneira as críticas são bem-vindas, mas só lamento que quando elas são muito destrutivas elas perdem um pouco do valor.

O vereador Clécio Alves (PMDB), um dos mais críticos da gestão, estaria praticando alguns exageros?
Não, cada um tem seu temperamento. Ele deve ter suas razões. Você tem que comparar o comportamento subjetivo de cada um da maneira com que ele se manifesta. O que nós não podemos aceitar é a crítica pela crítica. Essa não engrandece nenhum dos lados, nem executivo, nem legislativo.

Goiânia precisa de um novo Plano Diretor?
Passou da hora. Aliás, em maio deste ano o Plano Diretor que eu fui relator fez 10 anos. De dois em dois anos ele teria que ser atualizado e de 10 em 10 anos ele teria que ser revisado. Só aconteceram duas atualizações muito acanhadas. A maioria das leis que deveria estar aprovadas nenhuma foi concluída. Eu mandei, como prefeito que fui por 15 dias, a lei ambiental e até agora não foi aprovada. A lei mais moderna de Goiânia era de minha autoria e ficou 15 anos com o advento do Plano Diretor essas leis foram revogadas para vir as novas. Onde está a reforma do código tributário? A reforma do código de postura? Tudo isso estava determinado para que fizessem num prazo de 10 anos e nenhuma dessas leis fundamentais para Goiânia foram realizadas. Então um novo Plano Diretor de Goiânia já deveria estar sendo discutido agora.

Quem ganha e quem perde sem o reajuste do IPTU?
Eu acho que essa não é a preocupação. Eu acho que seria mais ou menos assim: quem ganha e quem perde com o pouco que tem para priorizar. Essa é a receita da crise. A maior receita da crise não é o ITU e nem o IPTU é realmente o ISS e nós sabemos que a prefeitura de Goiânia tem para cobrar só que não está dando conta de cobrar. Não tem equipamento suficiente e a demanda de auditores está no inverso do crescimento. Não tem concurso há mais de 15 anos e a cidade cresceu e os agentes encolheram. Veja que a prefeitura não dá atenção à sua maior fonte de receita que é o ISS.

Sobre política partidária, por que o PSDB sempre tem dificuldades em Goiânia nas eleições? Aqui a oposição é mais forte por qual razão?
Discutimos isso com o governador Marconi Perillo e ele está fazendo um trabalho social muito grande, importante e necessário em Goiânia, mas parece que ele não consegue usufruir desses benefícios da bolsa universitária, dos hospitais de excelência  e etc. Mas com tudo isso ele não consegue aproximar-se de uma disputa à prefeitura de Goiânia. Eu vou dizer o que eu penso: o PSDB sempre fez a escolha errada para disputar a prefeitura de Goiânia. Não adianta você tirar do bolso do colete um nome que não tem identidade com a cidade. Veja você o meu caso: eu era um vereador de nove mandados, presidente da Câmara, vinha fazendo um trabalho magnífico com a Câmara Itinerante em todo Goiânia, sou do PSDB, tinha acabado de ser presidente do PSDB e fui preterido por um nome que começou ensaiar na política e tinha apenas oito meses de mandato. O deputado Giuseppe Vecci era uma excelente técnico na época, mas ele não tinha identidade para disputar a eleição em Goiânia. Eu estava com 5%, 7% em Goiânia e ele estava com 1%. Então o PSDB está cometendo alguns erros por usar a prefeitura de Goiânia talvez para fazer acomodação de forças. Isso está errado.

A escolha do Vecci naquela ocasião foi errada?
Sim. Basta você fazer uma retrospectiva dos outros candidatos. Todos boas pessoas, mas falta um elo entre aquele candidato e as demandas daquele que o eleitor de Goiânia espera de um prefeito.

Se a escolha tivesse sido pelo seu nome o desfecho teria sido diferente?
Eu não sei, mas é só observar: eu ganhei novamente as eleições e acho que você tem que escolher para a cidade de Goiânia aquele que tem identidade com a cidade. Para que você possa ter uma ideia, quando o partido pediu para que os candidatos entregassem um programa de governo o único que entregou um plano de governo decente fui eu que fiz um com mais de 30 páginas. Os outros apresentaram uma folha de papel

Qual o melhor candidato da base governista para 2018?
O vice-governador José Eliton está sendo muito bem preparado. É o homem que tem o conhecimento de todas as áreas do Estado. É um homem que fala a língua da população, é um homem disposto a trabalhar, teve um aprendizado muito grande com Marconi, ou seja, não tem preguiça. A pior coisa do político é a preguiça. Eliton irá aproveitar da desorganização das oposições. Esse é o grande trunfo dele.

A demora do ministro das Cidades, Alexandre Baldy, em se filiar a algum partido tem gerado especulações. O sr. acredita na possibilidade dele estar vislumbrando uma possível disputa ao governo do Estado?
Tenho uma admiração muito grande pelo deputado Alexandre Baldy, mas eu não sei se há tempo de alguém querer lançá-lo para que ele tenha identificação com toda a base do estado. Política não é só competência. É tempo de identificação com o eleitorado.

O sr. citou o fato de ter mais experiência do que Vecci, mas que foi preterido por ele. Acha que a base  pode cometer o mesmo erro com Eliton?
Não. Não vai porque já aprenderam que sugerir um salvador da pátria às vésperas da eleição não vai resolver o problema.

O maior adversário de Eliton são os 20 anos de ‘tempo novo’?
Infelizmente a história sempre cobra o ciclo, mas eu tenho visto o governo do Estado se reinventado. O governo tem investido muito em estradas, nas questões sociais, na saúde… De qualquer maneira, [os 20 anos no poder] é algo que precisa ser bem trabalhado pela base do governo do Estado porque as pessoas querem sempre rotular que a questão do tempo é motivo para você desautorizar a credibilidade de um governo. Não é verdade. Nem sempre o que é novo é melhor. Não significa que um ciclo de 14, 16, 20 anos ele automaticamente recomenda que ele vai perder. Veja o programa Goiás na Frente. A todo momento o governo se reinventa.

PSDB está sem rumo nacionalmente? Qual o caminho para o partido?
Os grandes partidos que estão no poder estão sentindo que perderam e identidade. Ao perder a identidade, perde também o eleitorado. Você precisa estar de algum lado. O PSDB precisa parar de ser apêndice porque a apêndice fisiologicamente pode ser descartado. Nós estamos começando a perceber que nós estamos começando a perder a nossa identidade.

O sr. acha que o PSDB deve sair do governo de Michel Temer?
Acho que já no início do ano deveria tomar um rumo. Não é ser oposição. Deve ser um partido neutro onde deve apoiar o que é bom para a nação. Não deve ser cúmplice daquilo que o governo federal está fazendo de errado.

Apoiar a Reforma da Previdência seria um erro?
Não. Acho que não. Eu como parlamentar entendo que algumas medidas com relação à previdência precisam ser tomadas. Eu te pergunto: você acha justo aposentar-se com 40 e poucos anos no poder público? Você acha justo que os que mais ganham se aposentam mais cedo? Está errado! Eu tenho 61 e nem pensei em me aposentar, por que o sujeito com 40 quer se aposentar? Então é preciso fazer algo.

O sr. está no nono mandato, mas houve uma ocasião em que o sr. não aceitou ser deputado estadual…
Isso foi nos anos 90 eu ganhei para deputado estadual, como suplente. Eu fui chamado para assumir. Mas eu já tinha iniciado o processo para ser vereador e ganhei como vereador. Eu fiquei numa ocasião com três mandatos porque eu estava exercitando um mandato, tinha ganhado outro e havia sido diplomado como vereador. Eu disse: olha eu moro eu Goiânia, já tinha 20 anos de experiência. Eu resolvi renunciar no dia da posse e ainda fui o mais bem votado como vereador naquela época. Eu renunciei naquele momento a possibilidade de alçar mais voos. Depois disso ganhei mais de três mandatos.

Pretende se candidatar à Assembleia no ano que vem?
Não. De jeito algum. Estou sendo honesto com você.

Vai trabalhar por uma postulação em 2020?
Vou. Ou vereador, prefeito ou vice-prefeito.

Nesse ano morreu o ex-prefeito Paulo Garcia. Como foi para o sr.?
Eu, particularmente, fui um dos primeiros a saber de sua morte. Fui acordado de madrugada com a notícia. Fui eu quem deu a notícia a Iris. Foi algo muito ruim. O Paulo com todos os problemas que tinha segurou a barra. Nunca atrasou salários a funcionários. Ele fez o que pode. Com ser humano, Paulo Garcia era uma pessoa espetacular. Vou dizer uma verdade: do jeito que ele entrou na prefeitura ele saiu.

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