Ensaio | Política do mundo

0
4628

O cidadão que hoje se revolta é o mesmo que depois vota como antes, como sempre. Quem salvará?

Vassil Oliveira

Clique aqui para ler a reportagem em PDF
Clique aqui para ler a reportagem em PDF

Difícil fazer política hoje em dia. Difícil falar de. Quem quer ouvir sobre sentimentos elevados, valores verdadeiros, propósitos reais, vocação pública e apreço ao outro, aos outros, o povo? Soa como hipocrisia o derramamento discursivo do coração.

O que nos fez perder a fé nos políticos? Talvez a perda da fé em nós mesmos? Explico: não são poucos os cidadãos, imbuídos do bom e do bem entender, que genuinamente perderam a esperança nos políticos, encaixando-se com precisão no que está descrito acima. Porém, não são poucos os que, sem se arriscar na política, acabam adotando no dia a dia as mesmas práticas, ainda que em outra dimensão.

Um voto revoltado que vira moeda de troca; uma raiva danada que é trocada por um cargo no gabinete; uma revolta inadiável que é vociferada no ouvido do guarda de trânsito que aplicou uma justa multa por fila dupla; uma descarga verbal contra a nojeira dos malfeitos públicos que é refreada no jeitinho para a autorização de um puxadinho; a sanha por justiça aplacada pela vingança com a transferência da sua justiça para outrem.

O que vai na ponta da língua do revoltado público nem sempre é o que vem a público de sua conduta social. O revoltado de hoje não convém (a si, ou a quem se prestar mais) de ser necessariamente um revoltado nas urnas. Pode ser que não sejamos assim, mas estejamos assim por cansaço, senão por descuido, tradução explícita de um estado de espírito dos tempos atuais. Pode ser que as coisas tenham saído do controle e isso seja falta de fé. Ou tudo aconteça por falta de fé. Não importa a ordem, porque sem fé, não dá.

Não dá pra acreditar em um futuro melhor com um presente tão sem fundamento positivo. Ou dá? Sim e não, porque é de cada um a visão do mundo a partir do observatório interior. E vice-versa. No que se refere aos políticos, pode ser mesmo que não haja explicação para o que vivemos neste momento, e seja isto uma explicação para o desarranjo público e privado, que faz discurso e prática brigarem no palanque das ruas.

Não sei o que fazer. Aprendi que política é perspectiva. Qual? Aprendi também que a vida se desenrola sem qualquer sentido senão o do entendimento humano como um explícito em construção – e não necessariamente evolução. O que faz antever que aquilo que parece impossível hoje, não será amanhã. Aliás, eu poderia até dizer – com base no aprendizado nos livros e na lida da reportagem – que o amanhã é sempre uma ironia comparado ao desespero do presente.

Vou tentar colocar isso em fatos. Possíveis, claro. Significa que essa irrealidade chamada Michel Temer no final de dezembro de 2017 acabe se transformando em uma realidade eleitoral em outubro do ano que vem. Significa que ele pode estar à frente, em uma chapa, ou por trás de outra que lhe favoreça, e que o desgaste público e notório em nada interfira no que de verdade vale em campanha: uma máquina administrativa federal poderosa empurrando um nome qualquer.

Significa que o eleitor que nesta altura de sua vida não admita de forma alguma sequer mencionar Jair Bolsonaro, de repente o veja como salvação da Pátria. Foi pensando que salvariam a Pátria que muitos bateram panela, pintaram a cara e fizeram a dancinha do impeachment de Dilma Rousseff. Para baterem continência a Bolsonaro, e/ou aos militares, não custa nada. Depois se arrependem, quando for tarde, como agora.

Significa que Lula seja o caminho, mas seja abatido na caminhada. Independente de quem julga Lula, ele pode ser derrotado por outra razão: o receio de que, avaliado pelas ruas, seja absolvido e eleito. O maior adversário de Lula é ele próprio: o que inspira nos devotos e nos inimigos. É o fruto de uma democracia perigosa para quem tem lá seu próprio senso de democracia, como na ditadura os líderes tinham. Tinham e não deixavam dúvida. Lula é povo. Povo não sabe votar. O que dizem. O que pensam. O que constroem com base no que acreditam piamente: são, eles sim, os legítimos representantes desse povo que não sabe o que quer. Como eles sabem, eles mandam.

Dá pra acreditar que não há fim à vista. Há novos horizontes, enfim. O mundo está mudado. A salvação está na política.

Significa que nada é o que parece. Nada será como hoje. Significa que amanhã o dia amanhecerá e aqueles que hoje estão indo dormir preenchidos pela fogueira de um País ideal, que nós merecemos acima de tudo, amanhã acordarão no mesmo País de sempre, com o mesmo povo que ora balança para a esquerda da revolta, ora voa pela desesperança da direita. Não quer dizer que tudo está perdido. Quer dizer que é preciso persistir. Que nada será mudado de uma hora para outra senão para que tudo continue como está.

A política derrota o mundo. Mas o que há fora das relações? Fora das conversações? Fora dos entendimentos humanos? Fora da construção de consensos, ou, que seja, de alternativas? O que há para se fazer fora da possibilidade de convivência? O que há de propósito senão a busca, a persistência, a fé? O que há que não seja a constatação de um e outro, e de todos, nas ruas da convivência? O que há no sonho que não seja realidade a ser conquistada? O que há? Não há ilusão que resista: a política vence, de toda forma.

Motor da vida, a política move o mundo. Move corações. Move a desesperança. Move a gente. Está na Bíblia, e está fora, em toda parte. Não dá pra sair da frente. Dá pra sair na frente. Dá pra ir em frente. Dá pra esperar que, lá na frente, apesar de reiterações de erros na realidade, estamos acertando os passos na história. Dá pra acreditar que não há fim à vista. Há novos horizontes, enfim. O mundo está mudado. A salvação está na política.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here