Entrevista Massimo Di Felice | O fim da política como ela é

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Felice esteve em Goiânia para lançar o livro ‘Net-ativismo Da ação social para o ato conectivo’ (Ed.Paulus), (Foto: Thiago Franco)
O fim da política
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Andréia Bahia
Especial para a Tribuna

A política como ela é hoje, com eleições a cada quatro anos, comandada pelos partidos políticos, não vai existir mais. A tecnologia deu origem a um novo modelo de participação política em que as redes sociais se tornaram meio para o ativismo político. É o fim também do protagonismo dos políticos na seara da representação. Esse e outros temas foram abordados na entrevista que o professor Massimo Di Felice concedeu à Tribuna do Planalto. Sociólogo pela Universidade La Sapienza de Roma e livre-docente pela Universidade de São Paulo, professor da Escola de Comunicação e Artes e fundador do Centro de Pesquisa Internacional sobre Redes Digitais Atopos, Felice esteve em Goiânia para lançar o livro ‘Net-ativismo Da ação social para o ato conectivo’ (Ed.Paulus), no qual aborda as qualidades ecológicas das interações nas redes digitais.

Tribuna do Planalto – Em seu livro, o Senhor trabalha conceitos muito cristalizados, sociedade, natureza, humano, tecnologia. O sr. desconstrói ou evolui esses conceitos?

Massimo Di Felice – Uma das questões que temos em nossa contemporaneidade e que marca a experiência dos estudos das Ciências Sociais e da Comunicação é a sensação de não possuir uma linguagem que consiga descrever a complexidade da experiência que vivemos. Isso acontece muito no âmbito das redes sociais, onde há novas formas de interações em redes, vários casos, como o caso da Baleia Azul, as dinâmicas também de jogos, como o Pokémon Go, e o próprio movimento mercantilista, que inova nessa forma de participação. Acontece tanto em nível tecnológico como pessoal e produz as interações via tecnológica. A palavra técnica não consegue dar conta da descrição da complexidade da interação da biotecnologia, que é uma alteração das sequências informativas da matéria. Portanto, não é intervenção técnica na matéria, é outra coisa. Perante essas sensações, somos chamados – como pesquisadores de nossa época – primeiro, a ter a consciência do limite da arquitetura linguística que herdamos da tradição ocidental. Segundo, e é até uma consequência do processo de globalização, a interconsciência que a narrativa do Ocidente sobre o mundo é apenas uma das narrativas. Existem outras. Terceiro, estimular uma complexificação conceitual linguística que, por exemplo, não se limite à definição ou teorização de categorias como técnica, humano e natureza da forma que herdamos. Portanto, problematizar, superar, é criar outras categorias. É um desafio grande, mas marca o ofício do pesquisador contemporâneo, a exigência de criar novos conceitos e categorias que substituam estas que não conseguem mais dar conta da complexidade das interações.

Essa complexidade sempre existiu. O que a trouxe essa questão à tona agora: as redes sociais, interatividade?

As duas coisas, e os avanços tecnológicos. Primeiro, a crise ecológica, a mudança climática e a consciência hoje que temos de que habitamos um organismo vivo, não mais um planeta. Somos parte da natureza e, logo, é um organismo vivo. Interagimos e isso cria uma nova ideia de ecologia. Esta é uma mudança enorme. Segundo, obviamente, a conectividade. As últimas gerações de conectividade que, além das redes sociais, estão se criando através da internet, da inteligência artificial, formas de conectividade entre superfícies, entre entidades de diversos tipos, que, ao se conectarem, são feitas alterações. Esses dois elementos questionam a narrativa que o Ocidente criou sobre a complexidade e o mundo e abre uma perspectiva mais complexa, que nos desafia e, obviamente, a partir de hoje, costuma ter a dimensão passada, de que sempre fomos redes. O humano é uma rede de organismos e interações com meio ambiente, com a técnica e toda essa ecologia do qual faz parte. Como disse Walter Benjamin na Teoria da História, a partir do presente devemos questionar o passado, porque o passado podemos olhá-lo só a partir do presente. Não podemos olhá-lo no passado. Entendemos que ele desconstruía a história e evidenciava a partir desse particular.

O sr. falou que a linguagem não é capaz de abarcar toda essa complexidade, e a rede social introduz uma nova linguagem. É possível essa nova linguagem ampliar a capacidade de entendimento e compreensão da complexidade contemporânea?

O que os seres humanos estão experimentando é através do diálogo com a tecnologia e pela digitalização da biosfera. É a possibilidade de decifrar, produzir linguagem não alfabética, pensar linguagem algorítmica, linguagem dos dados, linguagem da complexidade da biosfera. A introdução de outras linguagens, como já aconteceu na história no caso da alfabética, vai alterar as coisas humanas. Estamos passando de uma espécie monolinguístima ou bilinguística, da oralidade e escrita, para uma espécie multilinguística, que vai desenvolver a capacidade linguística algorítmica, vai conseguir através de outras linguagens, escutar a biodiversidade. Multiplicando as funções linguísticas, ampliaremos a dimensão do humano nas complexões.

“A mídia diz a verdade dos governos autoritários. Na democracia, a mídia é sempre uma ficção. É um ponto de vista, exprime uma opinião”

A própria estrutura da tecnologia, que hoje trabalha com nuvem e diversos modelos de memória, vai alterar a estrutura das pessoas, a concepção humana?

Isso já alterou o modo de viver e vai alterar mais. Em uma perspectiva de pensar não mais como sujeito, uma entidade delimitada, mas como uma rede, uma ecologia humana. O fato de armazenarmos informações online e não precisar mais memorizá-las para poder alcançá-las continuamente nos dá claramente a percepção de um tipo novo de cérebro, que não termina em nossa caixa craniana, mas se estende às redes. Exatamente pela dimensão neuronal do cérebro, que funciona por estímulo externo, hoje temos um tipo de cérebro expandido nas redes e, portanto, interiormente amplificado, como já era amplificado o cérebro na constituição do homo sapiens, por exemplo, que era estímulo e ambiente com a técnica. Então, sempre fomos uma rede. Só que a rede contemporânea é uma rede, além de maior, estendida à dimensão informativa, é uma rede que permite um processamento dos dados e, portanto, um processamento dentro do nosso cérebro. Isso cria uma amplificação da potencialidade do cérebro humano, que ainda não foi completamente explorado e que pode ser feito.

A conectividade da inteligência humana com a artificial gera uma relação como se a artificial fizesse parte da humana?

Todas as questões nos obrigam a repensar o humano, que não pode ser dito mais apenas segundo a concepção Ocidental do sujeito, do sujeito racional. Esse sujeito homo sapiens se tornou tal somente enquanto interagia com a escritura, a técnica e o meio ambiente, e, portanto, criou o processo de conectividade, de expansões. Não antes do armazenamento externo dos conteúdos, mas isso começa com a escritura. O livro é uma memória externa. Então, essa dimensão não autocentrada e não cerebral do humano, sempre existiu. Óbvio que isso é expandido a N dimensões e estamos produzindo um humano conectado com a inteligência artificial, a biodiversidade e a técnica, em uma perspectiva hoje completamente híbrida e evolutiva. Isto é, expansiva. Provavelmente, o processo de evolução, de transformação, de amplificação da nossa inteligência conectada fará um passo rapidíssimo em poucos anos. Estamos ainda no começo desse processo, mas talvez as próximas gerações já comecem a lidar com uma perspectiva completamente diferente. E aqui está a questão de qual parte dos humanos conseguirão fazer essa passagem.

Qual passa a ser o papel do jornalismo nessa nova realidade, onde todos produzem conteúdo?

Quando todo mundo produz conteúdo, todo mundo é jornalista. Então, a última coisa que um jornalista deve fazer é produzir conteúdo. Seu papel primeiro passa a ser de editoração. Juntar informações e produzir uma narrativa original é uma função importante que, obviamente qualquer um pode fazer, talvez um jornalista possa ter competências para fazer. Mas a segunda característica que vejo é a fragmentação, a especialização em uma análise de conteúdos específicos. Em um contexto de grande quantidade de dados, temos uma percepção muito ampla da informação, mas necessitamos de aprofundamento. Portanto, ter um jornalismo de qualidade temático, especializado em um setor, por exemplo, da política, especializado em temáticas específicas, que saiba juntar leituras, informações, analisar pesquisa de última geração e devolver isso à sociedade é um serviço muito importante. Daqui para frente o jornalismo ou será temático ou não será. Todos acessamos as informações cotidianamente nas redes diretamente pelos protagonistas. Algo que continuará a ser importante é a análise de leituras, de um ponto de vista qualificado, com profundidade e análise crítica. Acho que são esses os passos.

A eleição de Donald Trump trouxe à tona as fake news. Como lidar com esse cenário de notícias falsas?

Tenho uma interpretação de fake news: é só a ironia das redes digitais, a ironia na época do digital. Temos vários filósofos e amplos estudos sobre ironia. A ironia é uma forma de questionamento da realidade, de afastamento e questionamento da arquitetura real, do que é considerado real. E em um contexto digital, como ser irônico? Ao meu modo de ver, a fake news é uma forma de ironia. É uma desestruturação de um critério de realidade que é, obviamente, ficção. Toda realidade é uma construção, uma ficção. Ficção não significa falsidade. A etimologia da palavra latina ficção remete à dimensão de um processo que é construído. Então, a ficção não é falsidade, mas é uma construção do real. Um texto escrito, um vídeo, uma notícia é ficção. Tudo se deve pedir à imprensa, à mídia, menos dizer a verdade. A mídia diz a verdade dos governos autoritários. Na democracia, a mídia é sempre uma ficção. É um ponto de vista, exprime uma opinião. Em um contexto digital, você tem a possibilidade de não somente lançar qualquer tipo de informação, mas de duplicar, alterando o sentido, através da cultura do remix, uma página de jornal, um vídeo, uma notícia ou informação institucional. Para mim, esse é o significado contemporâneo de fake news.

(Foto: Thiago Franco)
(Foto: Thiago Franco)

“Se podemos nos beneficiar da inteligência coletiva, por que precisamos eleger alguém? Vamos eleger nós mesmos”

Mas isso não afeta a credibilidade da produção de conteúdo nas redes sociais?

Isso traz uma suspeita e a suspeita é algo muito positivo, educa o leitor a uma postura de desconfiança. Ele não será só leitor de uma notícia, terá que se tornar um editor, e garimpar, verificar. Isso educa uma cidadania mais avançada. Não sou um crítico da fake news, porque ela sempre existiu. Sabemos de jornais inteiros que, por décadas, escreveram fake news e ninguém reclamava. Hoje, se qualquer notícia pode ser fake news, ótimo! Como leitor, terei de estar mais atento. Agora, a vida média de uma fake news na rede é de três minutos, dez minutos.

A fake news contribuiu para a eleição de Trump?

Não. O que contribuiu para a eleição de Trump foi o baixo nível de conhecimento da população norte-americana. A população norte-americana pagou pelo fato de não ter uma escola pública de massa de qualidade. Isso pode acontecer em qualquer outro país. Quanto mais baixo é o nível de instrução da população, maior é a possibilidade de que notícias falsas, ditadores e tudo de estúpido possa se difundir. Dificilmente Trump teria sido eleito na Alemanha ou na Dinamarca, não porque os alemães são mais inteligentes, mas porque têm uma escola de base que dá possibilidade ao cidadão de estudar ou não. Uma escola pública que independente da classe social permite que os meninos tenham oportunidade, possam ingressar e ter um nível escolar médio alto. Essa é a única arma que a democracia tem em relação a outras formas menos democráticas. O problema não é a fake news, o problema é a escolarização americana.

Vivemos uma crise de representação na política. Essa crise produz os movimentos nas redes sociais ou os movimentos nas redes geram a crise de representação?

A gente não vive apenas uma crise de representação, vive uma crise definitiva do modelo de democracia parlamentar, que é muito mais corrupto, e se expressa como crise de representatividade. Esse afastamento da população da política partidária é mundial, não só do Brasil. E exprime a crise do formato analógico midiático da esfera pública, que era passado na mídia em massa. O partido era a grande agência de mediação entre a população, de seus anseios de mudanças, e o Estado. Havia a mídia que reproduzia para as massas as informações, a imprensa, TV, rádios e havia os partidos que reproduziam para as massas programas, políticas, pesquisas. Esse modelo piramidal foi substituído por outro modelo comunicativo e, consequentemente, temos formas novas de experimentação de participação direta da população que produz conteúdo, cria mobilizações, busca se organizar para resolver o problema sem passar pela mediação política. Hoje, a política não é mais eleger alguém a cada quatro anos. Temos na mão um dispositivo, um smartphone, cujo processador é muito mais poderoso daquele que levaram o homem à lua e, através do qual, temos acesso a todo conhecimento humano. Isso nos dá a possibilidade de resolver qualquer tipo de problema.

Não precisamos de representantes?

Precisamos no passado de uma estrutura mediadora, sim. Hoje, a população quer participar todos os dias. Ninguém pensa que seja mais contemporâneo eleger alguém a cada quatro anos. Primeiro, porque todo mundo sabe que isso não vai mudar nada. Fazemos ativismo todos os dias e não só a cada quatro anos. Há um problema de temporalidade. Segundo, ninguém hoje vai querer ser representado por alguém. Todos nós podemos participar. A ideia de cidadania hoje não é mais delegar, é a participação. Isso é a introdução de uma nova cultura, que é a cultura da interatividade. Nós assistimos ao fim do modelo de política baseado nas eleições e nos partidos políticos. Estava numa universidade meses atrás para apresentar o livro e tinha 400 alunos assistindo à palestra. Perguntei: quantos de vocês são inscritos em algum partido político? Para minha surpresa, seis levaram as mãos. Achei que ninguém levantaria. As novas gerações não participarão mais de partidos políticos.

Teremos novos modelos de Estado, de poder público?

Com certeza. A governança não será mais delegada, mas será cada vez mais uma governança conectada, onde, em tempo real, as políticas de governança são decididas em plataformas. Em diálogos não mais entre humanos, mas em diálogos entre humanos e a inteligência artificial. Outra grande evolução na governança que as redes digitais produzem é a possibilidade de podermos analisar informações em uma quantidade infinita. Podemos monitorar processos de fluxos de todas as pessoas de um país, de uma cidade, fluxos econômicos em tempo real. A economia das nações mudou desde que existiram os computadores e os big datas. O fluxo econômico da economia de uma nação era feito por uma equipe de economistas. Hoje, com os big datas, é em tempo real e público. Sabemos em tempo real quanto é o déficit de um país. Não é o ministro da Economia que está nos dizendo, está online. Isso comporta a possibilidade de utilizar os dados para fazer intervenções específicas que possam se transformar em políticas positivas. O poder do político é cada vez menor. Devemos confiar mais nos dados que na criatividade, muitas vezes, burra de uma única inteligência. É melhor resolver os problemas pela convenção de coletivos inteligentes e de dados inteligentes do que delegar a um presidente. O resultado está aí, sempre desastroso. A questão é a inteligência coletiva. Se podemos nos beneficiar da inteligência coletiva, por que precisamos eleger alguém? Vamos eleger nós mesmos.

As redes sociais dão essa visibilidade aos movimentos menores?

Sim. Desde de os imigrantes na Europa às comunidades étnicas no Brasil, indígenas, periferias. Isso de fato é uma grande diferença, uma grande divisória entre a esfera pública, chamada de esfera publicada, e as redes digitais. Porque a esfera pública que tinha acesso ao público eram só os líderes da opinião, jornalistas, especialista. Ao contrário, nas redes, todo mundo tem direito não somente à palavra pública, mas também tem direito a se informar de forma autônoma. Nesse sentido é um processo de alteração que vai destituir todos os monopólios da informação. Mesmo que continuem existindo, não tem mais o poder de monopólio.

Há risco de ficarmos reféns da inteligência artificial?

Isso seria como dizer que, durante a projeção de um filme, o nosso olhar fosse dominado pela estrutura do filme. A câmera produz uma mudança de ângulo, a narrativa produz uma mudança de tempo e espaço e, portanto, somos dominados pelas imagens do filme. Pode até ter sido, mas ninguém morreu por isso. Ao contrário, temos aprendido muito com o cinema. É óbvio que a arquitetura midiática cria um formato. A inteligência artificial criará outro tipo de inteligência, formatos que vão nos influenciar. E isso é inerente ao humano. O humano não é livre, é sempre alienado ou pelo poder, pela economia, pela mídia. Somos uma espécie dependente de tudo, do oxigênio, do ar, da água e das nossas relações. A sociedade cria relações de dependência e somos dependentes das relações humanas, da leitura, do conhecimento, portanto, de informações externas, da técnica para fazer qualquer atividade. É necessário nos livrar de uma narrativa antropocêntrica e educar em um contexto de crise ecológica, a dependência. Isto é, há um comum, que é a lógica da rede. A lógica da rede é a dependência. Agora, dependência e liberdade não são opostos. A dependência é a condição a partir da qual posso expressar minha particular autonomia. Mas não sou um complemento dela. A própria criatividade, inovação, subjetividade não é contrária à dependência. Somos capazes de criar linguagem ou expressar uma condição inovadora, mas dentro de cânones que preexistem, que é o caso da linguagem. Podemos tentar expressar conteúdo novo, mas as palavras têm uma história que nos preexistem e faz com que o que vai ser exibido depende muito das palavras que você vai usar. Então, falamos pela linguagem, em uma dimensão de dependência de conteúdo, do formato.

A consciência de participação da rede contribui para a própria preservação da rede?

Preserva e a caracteriza no sentido de impacto. Quando a pessoa é ao mesmo tempo o produto daquela rede, mas também a caracteriza. Espero que nasça novos tipos de redes, com uma dimensão mais centrada no humano. Talvez seja um experimento que se possa fazer. Mas a qualidade em nossa timeline não podemos determinar, porque é determinado por todos os membros. Mas podemos contribuir para que seja uma timeline, não racista, não homofóbica, não machista, enfim. É uma autonomia parcial.

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