Janeiro Branco: Reflexões sobre a saúde mental

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Jorge Antônio Monteiro de Lima

Jorge de Lima
Jorge Monteiro

Por que algumas pessoas que sofrem com doenças mentais não melhoram quando em tratamento? Por que ainda existe tanta falta de informação e tantos tratamentos ineficazes? Por que o preconceito sobre a doença mental ainda é tão frequente? O que podemos fazer para ajudar?

Hoje vivenciamos uma epidemia crescente ligada às doenças mentais que crescem em progressão geométrica. A maior epidemia de nossa atualidade está nos casos de ansiedade. Uma fatia dos transtornos de ansiedade está ligada aos casos de depressão, que é a segunda maior patologia de nosso século.

É assustador observarmos a epidemia crescente dos vícios e compulsões, além da explosão nos casos de automutilação e suicídio. E o aumento considerável de pessoas apáticas, sem vontade, isoladas, em eterna crise existencial com inapetência ao trabalho e à socialização? A depressão e demais transtornos seguem na lista evidenciando um problema mundial com pouco controle. E o que podemos e devemos fazer para ajudar?

Saúde mental é uma área multidisciplinar ligada em especial à medicina psiquiátrica e à psicologia clínica, que visa tratar pessoas em sofrimento por doenças mentais estabelecidas – as chamadas psicopatologias, as auxiliando em seu tratamento, oferecendo-lhes equilíbrio, melhora e estabilidade, utilizando tratamentos que envolvem várias áreas. É uma especialidade multidisciplinar que engloba tratamento medicamentoso, psicoterapia (que atua no inconsciente em sistema psicodinâmico) e terapias complementares. O especialista em saúde mental conhece psicopatologia, psicodinâmica, diagnóstico, técnicas de atuação em psicoterapia.

Em geral, gasta-se de três a quatro anos para se formar um bom profissional da área, o que fazemos no Instituto Olhos da Alma Sã desde 1997. São mais de 200 profissionais formados, que estão atuando no mercado na região Centro-Oeste. Uma abordagem que engloba estudo teórico, complexo estudo de psicodinâmica, psicodiagnóstico, abordagens ligadas a pós-psicanálise (Freud, Jung, Hillman e outros autores da pós-psicanálise), atendimento clínico supervisionado e a terapia do profissional envolvido para que este encontre seu próprio equilíbrio.

Isto nos vem conferindo uma série de prêmios nacionais e internacionais como centro de referência na área de saúde mental. Temos uma média de cinco mil atendimentos ao ano e hoje contamos com uma equipe de mais de 60 profissionais (dados de 2017). Vivenciamos a saúde mental em nosso cotidiano e, por isto, podemos discutir a realidade da saúde mental com tranquilidade.

Há dois aspectos que hoje são complicadores na área de saúde mental. Primeiro: existe no Brasil mais de 10 milhões de pessoas em sofrimento mental sem tratamento adequado. Existe por parte dos profissionais da área muito despreparo, muitos diagnósticos feitos incorretamente, tratamentos ineficazes, que não dão resultado algum e, ainda, por vezes pioram a situação de um paciente. Isso piora a realidade da convivência social, com familiares e amigos.

Os pacientes, familiares, amigos, parentes devem exigir respostas efetivas dos profissionais na área de saúde mental, com respostas objetivas. Você frequenta um cirurgião dentista para, após o tratamento, continuar com dor de dente? Mas a sociedade aceita que pacientes façam tratamento sem melhora, um problema grave que amplia uma demanda e aumenta o número de casos.

Na área de saúde mental existem doenças crônicas como esquizofrenia, transtorno bipolar etc. Mas, mesmo nestes quadros, podemos conseguir melhora significativa dos pacientes graças aos avanços na farmacoterapia e nas técnicas da psicoterapia.

O segundo maior problema da área é a falta de aderência dos pacientes aos tratamentos. Pacientes que não querem se tratar gerando inúmeros problemas familiares, sociais, pessoais, de trabalho. O custo é elevadíssimo e as patologias, quando não tratadas, se agravam. A resistência tanto do paciente quanto de sua família, cônjuge, amigos é um grande complicador, elevando em muito o custo de um tratamento.

A maior parte deste processo deve-se novamente a tratamentos e abordagens malfeitas, ineficácia, ausência de resultados ou a ignorância. Quem paga esta conta: família, amigos, cônjuge e as pessoas de convívio mais próximo. Bom tratamento não tem alto custo. Ao contrário, podem ser conquistados a preço acessível. Doenças mentais, assim como as demais doenças, quando não tratadas se complicam podendo conduzir à morte e a inúmeras complicações que facilmente poderiam ser evitadas.

Amor, respeito, cuidado são atributos importantes que toda sociedade pode ter para quem está em sofrimento. Com habilidade podemos ajudar uma pessoa a melhorar em muito que neste Janeiro Branco todos possamos nos conscientizar para procurar respostas efetivas.

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Jorge Antônio Monteiro de Lima é analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e  mestre em Antropologia Social pela UFG. Site: www.jorgedelima.com.br

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