Entrevista Kátia Maria | ‘Vamos trabalhar para unir a esquerda em Goiás’

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Foto: Divulgação

Fagner Pinho e Vassil Oliveira

Clique aqui para ler a entrevista em PDF
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Em menos de um ano no comando do PT de Goiás, Kátia Maria percorreu 168 municípios, conversando e organizando diretórios. Um trabalho de fôlego, que, garante, não para. Resultado visível deste trabalho: o partido, em vez de diminuir, cresceu, e o nome dela passou a ser posto na lista de possíveis candidatos ao governo. Nesta entrevista exclusiva à Tribuna, Katia fala da estratégia da legenda a partir de agora, das alianças possíveis para o governo de Goiás, onde o foco prioritário será a formação de uma frente de esquerda, e da resistência em favor de Lula. Garante: não há plano B para a Presidência. O candidato será o ex-presidente.

Tribuna do Planalto – O PT está menor, no Estado?
Kátia Maria – Mesmo com todo o bombardeio que a grande mídia tentou fazer com o PT, com todas as nossas lideranças e em especial com o presidente Lula e a presidenta Dilma, o que os dados mostram é que não tiveram êxito. Temos hoje o PT com cerca de 20% na preferência da população brasileira, e aqui em Goiás o partido está mais organizado do que em 2014. Chegamos a cerca de 230 municípios com a direção organizada, preparada para fazer o debate, para fazer a resistência, mas sobretudo preparada para fazer um bom enfrentamento em 2018, colocando nossa democracia e nosso projeto como prioridade na eleição do presidente Lula.

A sra. percorreu o Estado reorganizando o partido. O que mais chamou a atenção?
Em 2017 nós, todas as lideranças do PT, tivemos uma agenda bastante ostensiva, de visita aos nossos municípios, andando em todo o Estado de Goiás. Percorri 168 municípios, fazendo com que as nossas lideranças, as nossas instituições, as nossas direções partidárias estivessem ainda mais fortalecidas. O que nos chama a atenção é que, mesmo com todo o bombardeio, mesmo com todo o massacre ao presidente Lula, ao PT, as lideranças locais, a população, sabem separar exatamente o que foram os governos do presidente Lula e da presidenta Dilma, portanto um governo petista, do que é um governo de direita hoje. Então, a gente percebe claramente na avaliação da população, nas entrevistas de rádio, nas reuniões com várias lideranças de outros partidos e com a população, que às vezes nem tem opção partidária, o reconhecimento do legado dos governos petistas e a avaliação concreta, real, do quanto o golpe prejudicou o Brasil, e de quanto o presidente Lula pode fazer para resgatar a esperança e uma vida digna para o povo brasileiro.

PDT deu sinais de que pode ficar na base do governo estadual, desde que faça parte da administração. O PSB também conversa com a base governista. A Frente de Esquerda vai vingar em Goiás?
Em Goiás, o PT tirou o encaminhando de que nossa prioridade será a eleição do presidente Lula e, portanto, vamos dialogar para fazer a aliança estadual com os partidos que compuserem essa aliança nacional. Hoje existe um alinhamento da esquerda em nível nacional, ainda que cada partido tenha seus nomes (para a Presidência): o PDT tem o Ciro (Gomes) e o PCdoB tem a Manuela (d’Ávila). PSOL e PSB não têm nome, mas têm feito um diálogo sistemático dentro da frente de esquerda. Nós, do PT, vamos continuar aqui em Goiás dialogando com os partidos de esquerda, tentando construir um projeto que seja uma alternativa para a população. Todo o cenário mostra o esgotamento de um governo que está aí há mais de 20 anos. A população espera um cenário novo, propostas novas. Trabalharemos com muito afinco para unir a esquerda em Goiás e apresentar um projeto que possa levar à população brasileira, à população de Goiás, um projeto que estamos intitulando “Goiás e Brasil que o povo quer”. Vamos discutir o anseio da nossa sociedade nas áreas de segurança pública, educação, mobilidade, fortalecimento das políticas nos municípios, para que a gente possa ter o cidadão como centro da nossa pauta. O PT continuará se esforçando para ter a unidade da esquerda no Estado.

Qual o projeto do PT para Goiás?
O PT se configura talvez como o partido com mais legitimidade para se dizer oposição. Porque, na verdade, o que temos são forças: o PSDB, o MDB, o DEM, o PTB e tantos outros partidos alinhados nacionalmente, fazendo todas as reformas que massacram o povo brasileiro e que acabam com o direito dos trabalhadores. Uma política com a qual o PT não concorda e que tem sido reproduzida no Estado de Goiás. Então, o projeto do PT é o que pensa o desenvolvimento sustentável do Estado, resguardando o direito da classe trabalhadora, dos nossos servidores públicos estaduais, fazendo com que os benefícios possam chegar diretamente à população, fortalecendo nossos municípios. Um desenvolvimento que possa ser consonante entre o desenvolvimento social, o desenvolvimento econômico e a sustentabilidade ambiental.

O partido tem nome para disputar o governo do Estado?
O PT, nesse processo eleitoral de 2018, tirou como encaminhamento, como já disse, dialogar com quem estiver com nosso projeto nacional. Nessa estratégia, estamos tentando viabilizar a frente de esquerda.

Mas tem nome?
Nunca tivemos dificuldades para apresentar nomes para o governo do Estado. Nesta eleição, não será diferente, se preciso. O que está diferente é que estamos com uma estratégia de fortalecer o partido, preparar nossa chapa de candidatos a deputado federal e estadual. Fortalecidos, respaldados por um projeto para o Estado de Goiás, aí sim poderemos apresentar os nomes capazes de representar não só o PT, mas essa frente de esquerda.

De 0 a 10, qual a chance de PT e MDB estarem juntos numa mesma chapa para o governo de Goiás em 2018?
Hoje a conjuntura que temos é de muitas dificuldades para uma unidade entre PT e MDB. Nacionalmente estamos em projetos opostos. Aqui em Goiás, o MDB ainda não se definiu. Existe uma divisão interna. Então, não cabe ao PT, neste momento, nem avaliar (a possibilidade de aliança), porque na verdade nem o MDB está definido. Nossa prioridade é a eleição do presidente Lula. Nunca foi sinalizado, por parte do MDB, uma declaração de apoio, o engajamento, nenhuma manifestação nesse sentido. Estamos com projetos bem distintos e vejo certa dificuldade para uma aproximação entre PT e MDB.

Numa possível aliança, há diferença entre Daniel Vilela como candidato a governador ou Maguito?
Não estamos queimando a nossa energia em analisar a posição do MDB. Como eu disse, na verdade eles têm um problema interno para ser resolvido, e nós neste momento estamos priorizando fortalecer o PT, construir o PT, preparar uma chapa forte de candidatos a deputado. Vamos começar a discutir e rodar o Estado novamente, fazendo 26 encontros regionais. É essa a política que nos interessa. Não vamos ficar analisando aquilo que não está em nosso horizonte.

Caso Ronaldo Caiado faça parte da chapa com o MDB, ainda que como apoiador e com o DEM coligado, como fica o PT?
Não existe palanque que caiba PT e DEM no mesmo espaço. Essa possibilidade não existe.

Há espaço para diálogo com Zé Eliton e o PSDB, no Estado?
O PSDB é o nosso maior adversário em nível nacional. Com certeza, estaremos mais uma vez em campos opostos e com projeto muito distinto. O PSDB foi o articulador do golpe (que tirou Dilma da Presidência), perdeu a eleição em 2014, não soube respeitar o estado democrático de direito, e, na verdade, toda essa crise que o Brasil vive hoje se deve a uma articulação primeira do PSDB. Então, somos partidos que temos projetos extremamente diferentes. Hoje o PSDB apoia o governo de Michel Temer (do MDB), vota toda sua pauta, prejudicando a classe trabalhadora, terminando, acabando com projetos e programas sociais de extrema relevância para a população mais simples, humilde e trabalhadora. São projetos que não combinam e que não caminharão juntos nem nacionalmente nem em Goiás.

PT e o prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB), podem sentar para conversar?
A política faz parte da arte do diálogo, do dialogar. Não temos problema nenhum em conversar com ninguém, principalmente em se tratando do prefeito da Capital, que tem a responsabilidade de representar todo o povo goianiense, não só quem votou nele. Depois de ocupar a cadeira do Paço, a responsabilidade (do prefeito) passa a ser representar toda a população, da qual o PT faz parte. E o PT também quer ver as políticas públicas chegarem à essa mesma população. A arte do debate precisa ser exercida.

Quanto o ex-prefeito Paulo Garcia tem de responsabilidade nos problemas enfrentados por Iris Rezende em seu primeiro ano deste mandato?
O prefeito Paulo Garcia deve ter sua memória guardada com um grande legado, como um grande prefeito que administrou sem ficar colocando a culpa em outras pessoas, sem terceirizar culpas. Ele soube investir muito em educação, saúde, mobilidade urbana, meio ambiente. Penso que um ano de governo é tempo suficiente para, quem se julga bom gestor, colocar a casa em ordem e mostrar de fato a que veio, mostrar serviço, atender as demandas da população.

Além de Rubens Otoni, quais outros nomes o PT tem para a Câmara? E para a Assembleia Legislativa?
O PT tem se preparado para ter uma chapa forte de deputados federais e estaduais (candidatos). Estamos trabalhando com muito afinco para isso. Já fizemos uma rodada de conversa com lideranças regionais, que compõem nossas forças políticas internas. Os dados mostram que o PT tem capilaridade, aceitação da população brasileira e um voto cativo. Com toda certeza, trabalharemos isso para conseguir chegar a uma parcela significativa da população goiana, ampliando nossos espaços tanto na Câmara Federal quanto na Assembleia Legislativa.

Como lidar com as fake news (notícias falsas) e as reações agressivas contra a legenda durante a campanha? Há estratégia definida?
Penso que a internet veio para dar uma grande contribuição no fortalecimento da democracia, na possibilidade de fazer essas conexões entre uma sociedade e outra. Sou adepta e defensora das redes sociais, das mídias digitais, e claro que tudo na vida tem o lado positivo e tem também os desafios. Mas mais que crime, (ação como fake news) é falta de personalidade, falta de bom senso, falta de militância. O que o PT faz é combater tudo isso com sua militância real, com sua força pujante de filiados esparramados por todo o Brasil. Teremos, com toda a certeza, uma estratégia, mas sobretudo confiamos na militância do PT, que é uma militância real, formadora de opinião e que sabe fazer o debate respeitoso e correto, presencial e também nas redes, nas mídias digitais.

Kátia 2“O PSDB é o nosso maior adversário em nível nacional. Com certeza, estaremos mais uma vez em campos opostos.”

Lula prepara nova carta aos brasileiros? Que carta será essa?
Na verdade, o povo não espera uma carta do presidente Lula, o povo espera a vitória do presidente Lula. Hoje o presidente Lula é um símbolo de esperança, de dias melhores, de volta da população brasileira a sorrir. O povo já está convencido da importância do presidente Lula para governar o Brasil. Hoje Lula representa, não só para a população brasileira, mas para toda a América Latina, a certeza do fortalecimento e retomada da democracia.

Sem Lula, o PT faria palanque para Ciro Gomes ou outro nome em Goiás?
Lula, com toda a certeza, será nosso candidato. Não trabalhamos com plano A, plano B, plano C. Temos a certeza de que prevalecerá a justiça, que a democracia será respaldada pelos atos do poder Judiciário, e que o presidente Lula será não só candidato, mas nosso presidente. Então, não existe essa hipótese de pensar nomes, nem dentro, nem fora do PT. Nossa estratégia, nossa definição é defender o presidente Lula até as últimas instâncias. A legislação eleitoral permite que ele seja candidato e nós vamos fazer valer o que a legislação eleitoral nos garante, que é registrar sua candidatura, fazer uma boa campanha, dialogando com a população brasileira, dialogando, portanto, aqui em Goiás também, para que a população possa chegar em outubro e digitar 13, votando Lula presidente. Porque essa (a eleição de Lula) é a certeza da democracia brasileira voltar ao centro da nossa pauta, sobretudo de fazer com que a política pública direcionada à população possa mais uma vez ser o centro do nosso debate.

Muitos temem um PT raivoso caso volte ao poder nacional, por conta dos desgastes e embates dos últimos anos. Dá para pregar, como antes, um PT “paz e amor” e “sem medo de ser feliz”?
Na verdade, o que temos percebido é que a população clama pelo PT, clama pelo presidente Lula. Esse sentimento de raiva não perpassa pelo PT. Muito pelo contrário. O PT foi o partido que mais cuidou das pessoas, que gerou bem-estar e qualidade de vida, garantiu condições dignas para que cada cidadão, cada cidadã pudesse ter seu direito assegurado. Fez um governo de muita fraternidade, de muita distribuição de renda, de muito amor ao próximo. Ao contrário disso, hoje o que vemos é raiva, ódio, essa fúria para se tirar da população brasileira todos os seus direitos. Do nosso lado, será muito amor, por favor.

O presidente Michel Temer é um “bom” inimigo, ao dar aos petistas o palanque para fazer oposição?
Michel Temer cumpre um papel estratégico dentro do golpe arquitetado pelo PSDB, por parte do MDB, parte da mídia, pelo poder econômico e, com toda a certeza, a mão do capital internacional, para enfraquecer a democracia brasileira e tirar direitos dos trabalhadores. Também com toda certeza a população brasileira sabe muito bem disso hoje. As pesquisas mostram. Há um descrédito muito grande do governo, do próprio presidente, que não tem legitimidade nenhuma para estar no cargo. Temer não é um inimigo do PT, é um inimigo da população brasileira.

Qual (ou quem) será o maior adversário de Lula e o PT nesta eleição?
Não sei se podemos falar em um maior adversário do Lula e do PT nessas eleições. Porque o que a gente percebe é que o feitiço virou-se contra o feiticeiro. Tentaram, com o golpe, acabar com o PT, mas as forças políticas que deram o golpe acabaram todas elas sendo extremamente abaladas. Você pensar: cadê as lideranças do PSDB? Como estão as lideranças nacionais do MDB? E as lideranças do DEM? O golpe que serviria para acabar com o PT, no final das contas acabou fragilizando as forças políticas, que, se tivessem respeitado o estado democrático de direito, talvez tivessem uma condição melhor para fazer o debate político agora. O desafio que temos a enfrentar é um golpe, um estado de exceção que o Brasil está vivendo, tentando aí impedir um homem honesto de ser candidato a presidente da República, tentando cercear seu direito com uma condenação que é extremamente questionável, feita pelo juiz Sérgio Moro, que reconhece, ele próprio, que foi feita por convicção, já que não existem provas.

O que há de ação voltada para o dia 24, dia do julgamento de Lula no TRF-4?
Estamos com um calendário forte de ações e atividades para denunciar esse processo de estado de exceção. Aqui em Goiás fiz, com lideranças do Movimento Social, da CUT, da Frente Brasil Popular, uma agenda de visita às subseções do TRF. Visitamos as subseções de Luziânia, Rio Verde, Jataí, Itumbiara, Aparecida de Goiânia, Anápolis e Uruaçu. Protocolamos manifesto no qual pedimos para que os juízes nos respondam: é correto, dentro da legislação brasileira, condenar uma pessoa sem provas? Queremos fazer e fizemos essa reflexão com aqueles que se dispuseram a conversar conosco. E, no dia 24, estaremos no TRF de Goiânia, junto com movimentos sociais, com a Frente Brasil Popular, com a CUT, a CTB, os partidos de esquerda, para dizer que queremos um julgamento justo para o presidente Lula.

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